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Sabe quando você percebe que as coisas não estão dando certo, que tudo fora apenas uma triste ilusão? Não sei explicar, mas a ilustra...

Sabe quando você percebe que as coisas não estão dando certo, que tudo fora apenas uma triste ilusão?


Não sei explicar, mas a ilustração mais próxima ao que sinto no momento é de que estou em pedaços, me ruindo aos poucos, até derreter-me por completo num sujo asfalto por onde passam os carros rapidamente, sem nem perceber a importância das coisas mais simples, como aquele asfalto. E os carros passam por mim, me esmagando, feito o mais inconsciente personagem principal de uma história de amor em teus enganos, cujo fim é dos mais tristes.


Uma família, outrora feliz, alegre, com seus problemas, de certo, mas uma família. E de repente, já não há mais aquela confiança no ser ao lado, na instituição mais rica e confiável que poderia existir. Uma família assim, com altos e baixos, desceu tanto que já não sabe mais como levantar. Uma família que não lembra mais o que é a palavra FAMÍLIA. Uma família que não existe mais.

O belo deixou de ser visto, e o aroma mudou de estação. A primavera em preto e branco, acinzentada na enorme incoerência humana. Eu queria tanto poder explicar, mas nem pensar sou mais capaz. Era apenas um mundo, carregado de tristes ilusões, que se desprendeu por entre as cercas de ervas daninhas. Amarga desilusão. Um mundo, outrora feliz, alegre, com seus problemas, de certo, mas uma família.
 
Eu sou como aquela pétala de rosa que se desmanchou quando a água deixou de banhar a raiz da mais bela e linda flor que costumava encantar aquele jardim cercado por espinhos.

'A Família', Tarsila do Amaral - 1925

          A diferença entre colegas e amigos, é que colegas estão ali por conveniência. Trabalham juntos, estudam juntos ou moram perto. Enq...

          A diferença entre colegas e amigos, é que colegas estão ali por conveniência. Trabalham juntos, estudam juntos ou moram perto. Enquanto amigos... amigos são velhos companheiros, que estão ali por escolha, que mesmo longe, permanecem juntos.
          Amigos, às vezes, se tornam velhas lembranças, antigos colegas. Colegas, às vezes, se tornam amigos. As pessoas vêm e vão. Algumas, para sempre, continuam... amigas.
          Uma antiga mania, aquele doce olhar, aquela risada gostosa, a vontade de apertar a bochecha, a maneira de andar, de falar... detalhes simples e eternos. Lembranças de um momento, de um acaso, de uma vida.
          Colegas não dizem ‘adeus’, não se importam. Amigos dizem ‘até logo’.
          Colegas, às vezes, se tornam amigos. Amigos para sempre continuam... em meu coração.

Até logo, Shirley Santana.

Imagem: http://grandestextos.blogspot.com/           Já passa da hora de dormir. O calor lhe incomoda, abre a janela. Tudo tão escuro! ...

Imagem: http://grandestextos.blogspot.com/
          Já passa da hora de dormir. O calor lhe incomoda, abre a janela. Tudo tão escuro! Lá fora o vento é forte, balançando as folhas da palmeira. Só há uma em seu quintal. Triste quintal, que marca a presença de uma solitária moradora, sem cães ou gatos, sem tempo ou capricho. Quintal abandonado! Folhas secas no chão. A bola murcha no canto, mostrando que havia uma criança brincando ali, outrora. A bicicleta enferrujada na chuva, o banco de madeira se dissolvendo. O velho canteiro de rosas abrigando as ervas daninhas.
          Ela não conseguia dormir. Rolava de um lado a outro, olhava para o teto, enfiava a cara no travesseiro, e nada do sono aparecer. Uma lágrima dolorida brota em seu rosto, rolando sobre sua face pálida e morrendo no lençol encardido.
          Levante-se, acende as luzes da casa toda, procura por todo canto um sinal de esperança. O telefone está mudo. Seu celular há muito não recebe chamada. As últimas cartas são de cobranças. Um velho baú de recordações está guardado na garagem. Dentro, os ingressos para aquele show ainda estão lacrados. As lembranças de sua lua de mel. O cupom de desconto de seu restaurante preferido nunca foi utilizado. O primeiro enxoval de seu bebê. As fotos não mentem. Um dia amou, e muito foi amada.
          Ela se lembrava de cada detalhe: eles voltavam da viagem que ela não pode ir. O motorista perdeu o controle, e não conseguiu parar a tempo. O trem estava passando. O barulho do choque mobilizou todo o bairro. Curiosos apareceram aos montes. Bombeiros, paramédicos, policiais, jornalistas. Em dez minutos toda a região estava ciente do grave acidente. O cruzamento da linha ficou marcado para sempre. Ela se lembrava de cada detalhe. Inclusive de ter visto o horror nos olhos de uma menina de seis anos. Por quase um minuto, ela encarou a menina. Por que estaria ali?

          Do outro lado da cidade, a menina, já mulher, também não estava tendo uma boa noite. Rolava de um lado para o outro, suando frio. Estava em um pesadelo. Sonhava com aquela noite. Tudo ocorria da mesma forma: A buzina, o choque, os gritos, a sirene, o choro, a tristeza... e o olhar desesperado daquela jovem mãe que perdera o filho e o pai. Em seu sonho ruim, a mulher, antes menina, gritava por socorro, gritava para a jovem mãe, que não lhe ouvia. A jovem mãe não respondia, mas também não podia conter as lágrimas por saber que não era apenas um sonho ruim. A menina não sabia seu nome, mas lembra daquele olhar. A mãe não conheceu a menina, mas não se esquece de seus tristes olhos.

          A jovem mãe pega o carro e dirige até o local do acidente que ocorreu há treze anos. Pára bem em cima da linha do trem, hoje desativada. Não há buzinas, não há faróis acesos, não há gritos, não há sirenes nem pessoas correndo, mas fica a dor. O apito do trem, então soa. Mas como poderia? Está desativada! Já não é mais a mãe ao volante, é a menina-mulher. É apenas mais um sonho ruim, misturada às cenas de uma lembrança ainda pior.

          No momento em que eu me levantei da cama, naquela manhã, senti que o dia seria diferente. O ar que passava pelos meus pulmões pa...

          No momento em que eu me levantei da cama, naquela manhã, senti que o dia seria diferente. O ar que passava pelos meus pulmões pareciam mais ternos, mais puro. Nem era preciso abrir a cortina para sentir o sol me aquecer. Caminhei, descalço, pelo quarto, e tive a sensação agradável de estar na areia macia. Havia uma música de fundo, e ela cantava só para mim. Só voltei para meu dia comum com o toque do telefone. Era meu noivo, me chamando para sair.


          Estávamos voltando para casa, quando paramos na calçada, aguardando o sinal abrir para podermos atravessar a rua até o portão de casa. Tudo estava exatamente como estivera nos últimos anos. Mas, por um motivo que não soube explicar, eu já não vira mais aquele sobrado abandonado. De repente, eu voltei ao tempo em que havia aquele muro pintado, os garçons passeando pelo seu interior, os clientes satisfeitos, fiéis. Ao seu lado, eu via aquela agradável livraria. No muro da padaria, a pichação pedia por paz. Agora já nem é possível compreender o que está escrito. Olhando para a mecânica, lembrei do Sr. João, o padeiro. Eu me lembro daquele canteiro central. Passeávamos por ali todos os domingos. Só eu e ele. E então me recordei de nossa infância. Tanto anos juntos, percorrendo aquele bairro, aquelas ruas, cumprimentando o padeiro, o dono da lanchonete, da joalheria, da banca de jornais.

          Tivemos uma juventude rica, ao som de The Beatles. Uma vez ele me fez parar bem na faixa, com aqueles nossos amigos de infância, só para tirar uma fotografia como a da capa do CD da banda, em Abbey Road. Reclamei, no momento, mas agora sinto saudades daquele tempo. Saudade. Pronunciei em voz alta, enquanto meu namorado conversava assuntos que eu nem ouvia. Parado, ficou me observando, em silêncio, tentando entender. Olhei para ele, com os olhos lacrimejados, e repeti “Saudade”. Ele vinha à minha mente, desde o primeiro instante. Eu não podia evitar de olhar para aquela rua, depois de mais de quatro anos, e me lembrar de toda a felicidade em que eu vivia. E tudo se acabou por conta de bobagens. Um pequeno erro, o mínimo detalhe, que fez toda a diferença, que mudou o meu caminho, que o afastou de mim. Repeti, em voz alta, que tinha “Saudade” da época em que tudo para mim era “Felicidade”. E então, tomada por uma emoção estranha, me vi paralisada, quando ele, que estava bem à nossa frente, se virou e me olhou ternamente, da mesma forma que me olhava, quando eu lhe dava o beijo de boa noite, e ia para casa, ou quando ele tinha que passar o fim de semana na casa dos avós. Aquele mesmo olhar, que dizia claramente ‘Eu sempre amarei você’.

          Não havia dúvidas, ele havia voltado, e voltado para mim. Chorei, ao ver, novamente, os olhos de meu primeiro e único amor. Não me contive e o abracei, como que para ter a certeza de que era realmente ele. Abraço longo e sincero, de quem não gostaria de soltar jamais, de quem aceitaria em seus braços para sempre ficar.

          Sem fôlego, de tanto amor preso em meu peito por tanto tempo, ouvi-o dizer, baixinho, em meu ouvido, as palavras que esperei durante toda a minha vida: “Eu te amo!”. Percebi então, o erro que eu estava prestes a cometer. Meu sorriso se foi, minha felicidade se esconder, as lágrimas cessaram, e apresentei ao meu grande amor, meu noivo, que encabulado com a cena que presenciara, pegou em minhas mãos, e me carregou para o portão da minha casa, que agora é de alumínio.

São 3 os motivos, que me levam à você. O primeiro me coloca diante daquele carinho fraternal, em que tudo se compartilha pelo doce sabor d...

São 3 os motivos, que me levam à você. O primeiro me coloca diante daquele carinho fraternal, em que tudo se compartilha pelo doce sabor do segredo. O segundo me remete aos vícios que possuo. São 3, mas deles falo em outra ocasião. O terceiro é essa péssima mania que possuo em me apaixonar. E sempre pelas pessoas mais difíceis. Só não falo erradas, porque a errada sou eu, carregada de defeitos explícitos em cada gesto.

Encontra-se também 3 desejos, todos relacionados à você. O primeiro, que já sinto há muito, veio se fortificar depois que você passou a fazer parte da minha vida, de querer conhecer certo canto do Brasil. O segundo transplantou em mim a idéia de despejar todo o carinho e amor que posso oferecer, nas palavras. Chamam isso de inspiração. O terceiro desejo que possuo é de apenas te observar, e eis este o mais difícil no momento.

Há 3 obstáculos que me impedem. O primeiro é a minha incapacidade perante o amor, que me faz indigna de despertar em alguém algo tão belo. O segundo é justamente aquela péssima mania que possuo em me apaixonar. Talvez por isso você pense que o que sinto agora é passageiro. O terceiro é meu jeito arteira de ser, que me leva a cometer equívocos sem pensar nas terríveis consequências.

Três erros cometi em relação a você. O primeiro foi por esquecer da função amizade e entrar no campo do coração. O segundo erro deu-se por me sentir incapaz de segurar este sentimento forte que se apoderou de mim, incomodando-lhe com minhas palavras melosas e, por vezes, inconvenientes. O terceiro, e o pior de todos os meus erros, foi me apaixonar por você. Mas este é o erro que eu cometeria, quantas vezes fossem necessárias, só pra poder te ouvir me chamar novamente de... hora de acordar!

          É possível alguém ser feliz mesmo estando preso num fóbico cubículo 2x2 de ciúmes? Ela consegue. Não, ela ACREDITA que consegu...

          É possível alguém ser feliz mesmo estando preso num fóbico cubículo 2x2 de ciúmes? Ela consegue. Não, ela ACREDITA que consegue. Mas seus poucos verdadeiros amigos, que a conhecem melhor do que ela mesma, sabem o quanto, por dentro, ela é infeliz.

          Garota travessa, de olhos claros, fios dourados. Seu sorriso é de uma criança, seu charme de menina, seus lábios de mel e sua atitude de mulher [imatura].
          Cresceu no interior de um paraíso perdido, ao lado de duas flores cheirosas, mas sem cor. Com o tempo, deu cores àquele jardim, mas cansou-se de ter apenas sete. Queria conhecer a fada verde, e procurou pelo bosque. Encontrou num líquido amargo, gelado, por vezes quente. Já não lhe era suficiente. Procurou pastilhas brancas e cigarro ‘à La Cook’. Perdera o caminho de casa. Não sabia mais se queria voltar, e se soubesse, já não poderia. As duas flores, antes inodoras, buscam pela Menina travessa. Insistem, mas ela persiste em ficar. Decepcionadas, voltam ao seu jardim de sete cores.
          A Menina dos Lábios de Mel, então cansada de sofrer pelos efeitos das sensações, procura pelas antigas companheiras, mas suas raízes já não pertencem mais àquele antigo jardim. As flores choram, a Menina vai embora.
          Sem jardim, sem cor, sem gosto e sem cheiro, a pequena e inocente Menina encontra Ciclâmen, flor do ciúme. Encontra nela a proteção de que precisava, o amor, o abrigo, mas alto preço teve que pagar para com tudo isso ficar: a própria liberdade.
          Bodas de papel, Ciclâmen e Lábios de Mel. Em outubro de 2010, um ano de casamento se completou. Um ano sem liberdade e com tanta saudade. Mas se assim diz ela ser feliz, o quê fazer as pobres flores do velho jardim? Apenas morrer aos poucos, tamanha saudade, com o pólen carregado de poesia e a raiz ao pé do arco-íris. As eternas coloridas.

          Descobri que sou egoísta. Egoísmo assim sem tamanho, camuflado numa garota que cede seu lugar aos velhinhos no metrô, que paga a...

          Descobri que sou egoísta. Egoísmo assim sem tamanho, camuflado numa garota que cede seu lugar aos velhinhos no metrô, que paga a passagem da menina sem troco, que sorri ao órfão de carinho, que acredita no pobre coitado e mais doa do que recebe. Assim demonstrei ser. Mas um texto, escrito por uma pessoa que sempre me conheceu mais que a mim mesma, sobre meu egoísmo me fez perceber a verdade, despertando-me da ilusão que criei. Que texto? Que pessoa? Me pergunte! Sou egoísta, não há como negar.

          De tão egoísta, mostrei-me eternamente caçula na família, mesmo tendo uma irmã e primos mais novos. De tão egoísta, mostrei-me a melhor aluna da escola, daquelas a quem as professoras sentem falta quando o ano chega ao fim, cumprimentam nos corredores, mesmo depois de tantos anos e usam como exemplo para os demais alunos. De tão egoísta cresci obedecendo meus pais, para tornar-me seu orgulho e admiração, sobrepondo-me aos demais filhos.

          Atuei durante vinte anos. Aos fracos mostrei-me forte, para que eu pudesse ser o centro de suas atenções. Aos fortes, mostrei-me fraca, para que estes se apiedassem de minha insignificante existência. Aos boêmios mostrei-me aventureira, para que estes me vissem com certo deslumbramento. Como construção de personalidade, mostrei-me culta, aos politicamente corretos. Aos cinéfilos mostrei-me critica extrema de clássicos e modernos filmes de nossa historia. Aos leitores, fui escritora sensível e criativa.

          Fraude inútil e pouco interessante. Conquistei corações para com eles brincar. Arranhei a garganta do silêncio para fazer-lhe gritar meu nome aos mares. Todos os sete me ignoraram. Meu egoísmo foi inútil. Ainda assim insisti e declarei meu amor às pessoas boas. Egoísmo este meu que nem me permitiu compreender que cada uma delas possuía seus problemas, suas vidas, seus amores...

          Minha família cresceu tanto que poucos se lembram de meu nome. Meus primeiros professores já se aposentaram e os atuais ignoram minha existência. Meus pais já se decepcionaram. Os fracos se fortificaram, os fortes já não sentem mais pena. Os boêmios pagaram a conta e os corretos se perderam. Os cinéfilos não vão mais ao cinema, e os leitores estão com as vistas cansadas. Aqueles que conquistei me chamam de egoísta, e aos que me conquistaram, agora peço perdão.

          De tão egoísta, estou sozinha, num quarto que não é meu, numa cama dura, lençol fino, papéis rabiscados e roupas espalhadas pelo chão. De tão egoísta, reli todo o texto desta postagem inútil e percebi que me sobra egoísmo, me falta humildade.

Capa do CD Abbey Road,  The Beatles - 1969            Não conseguia distinguir o som das vozes da garota e do rapaz ao meu lado, nem me...

Capa do CD Abbey Road,  The Beatles - 1969
         Não conseguia distinguir o som das vozes da garota e do rapaz ao meu lado, nem me era possível identificar suas diversas características, mas sabia que eles estavam ao meu lado. Eles conversavam alto, mas estavam fora do meu campo de visão. À minha frente, aquela movimentação parecia não ter seu fim. Pessoas que nem se conhecem, se trombando e se encarando nas ruas. Flertes trocados pelos cinquentões, crianças segurando as mãos de suas mães. E a ideia de que, provavelmente, nunca mais veria quaisquer daquelas estranhas personagens urbanas.
         O casal ao meu lado ainda falava, e eu continuava sem prestar atenção na conversa. Mas uma palavra dita, exatamente num silêncio geral da avenida, em que os motoristas ficaram tranquilos e pararam de buzinar, os motores decidiram ficar em silêncio e tudo o que se ouvia era o som das aves ao norte, longe da conturbada vida da capital, me fez despertar de meu momento ilusório. "Saudade". Ela disse 'saudade'. E isso me fez lembrar o motivo de minha ida àquela avenida. Quatro anos e nove meses sem colocar os pés naquela região. Quando o notíciário anunciava a rua que ela morava, eu desligava a TV. Aquelas fotos estão guardadas num baú atrás da caixa de ferramentas de meu pai, na garagem. Seu nome, tentei esquecer.
         O restaurante, ao lado da livraria, já não existe mais. Sempre jantávamos ali. E depois comprávamos um livro de poesia para recitar no caminho. A calçada mudou de cor. A fachada era menor. As pichações já não são mais as mesmas. O Seu João, da padaria, se aposentou e vendeu o lugar. Agora funciona ali uma oficina mecânica. A banca de jornais está desativada. Os vidros da velha joalheria estão quebrados. As árvores do canteiro central deram lugar a esculturas de cimento. A faixa de pedestre, bem à minha frente, antes me fazia lembrar a rua Abbey Road, em Londres, que virou capa e título do CD dos Beatles em 1969. Hoje mais parece um código de barras sem número perdido no centro da cidade de São Paulo, ampliado. Toda a rua perdeu aquele aspecto de alameda, que tanto me encantava. Penso que talvez ela também tenha mudado. Afinal, foram quase cinco anos sem contato.
         Não gosto de me lembrar do dia em que a vi pela última vez. Eu estava nervoso, ela também. Brigamos como nunca havia visto alguém brigar. Ela estava chateada pelo meu ciúme e eu estava possesso por descobrir que mentira no dia em que eu a pediria em casamento. Na noite anterior ela havia saido com amigos, e encontrou um ex. Soube disso por pessoas que eu considerava amigos. Eles só queriam nos separar, e conseguiram. Só agora posso assimilar as coisas perfeitamente. Eu a deixei sozinha, naquele portão marrom, que agora é de alumínio, chorando, me pedindo perdão. Eu partia com a sensação de que nunca mais seria feliz novamente. E acredito que ainda não sou. Aceitei a proposta de estudar no exterior, e fui embora, para nunca mais voltar. Mas a saudade me buscou. Cada minuto naquele país frio me fazia esquentar a ideia de que eu voltaria, e que ela iria me perdoar. A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi procurá-la, quando voltasse para casa. Estranha sensação de regresso. Tudo diferente. A casa de minha infância sem meu pai, a lanchonete sem os amigos do tempo de minha adolescência, as rádios tocando outros estilos, a mudança de comportamento de toda uma sociedade...
          O sinal estava fechado. Poucos segundos me distanciavam de meu primeiro amor. Era só atravessar a rua, e eu a veria novamente. Meu peito batia tão forte que mal podia suportar. Era mais intenso que o barulho do trânsito naquela movimentada avenida que antes era uma simples alameda. Nem mais os pássaros de meus devaneios eu podia ouvir. Eram só alguns quinze passos até a outra calçada, mas algo me detinha. Não tinha coragem de atravessar. Até que tudo ficou silencioso novamente, e então aquilo se tornou claro para mim. A garota repetiu a palavra "saudade", e em seguida disse "felicidade". De repente eu me via deitado na areia da praia, com meu amor ao lado, sorrindo e dizendo que seríamos 'eternamente um do outro, haja o que houver'. Aquela voz, já não ouvida a quase cinco anos. Me virei em sua direção e não pude compreender a situação, tomado pela frustração de não conseguir dizer uma única palavra sequer. Ela também não dizia nada. Olhou-me com aqueles belos olhos de curiosidade, surpresa e encabulada. Uma lágrima surgiu em seus olhos castanhos, seguido por aquele lindo sorriso que sonhei rever durante todo esse tempo. E aquele abraço, foi o mais sincero e mais prazeroso que já recebi. Enfim disse, em voz baixa, em seu ouvido, o que sempre tive vontade de dizer, mas nunca, nem mesmo durante o nosso namoro, consegui: "Eu te amo!".
        Foi o fim. Ela se afastou de meus braços, já sem o sorriso nos lábios, e me apresentou seu noivo. Agora era ela quem partia, me deixando sozinho, com aquela lágrima dolorida, do outro lado da rua do antigo portão marrom, que agora é de alumínio.

Agora que partiu, sou capaz de me encontrar. No toca-discos aquela velha canção dos Beatles Na parede aquele quadro encardido A foto, em...

Agora que partiu, sou capaz de me encontrar.

No toca-discos aquela velha canção dos Beatles
Na parede aquele quadro encardido
A foto, em preto e branco, me leva aos tempos de Revolução
O relógio marca a hora da partida
Acabou. E esta é a melhor saída para nós.
A guerra interna em meu coração terminou
O céu, antes cinzento, hoje de resplendor azul.

McCartney diz que tudo o que eu preciso é amor.
Amor. Derivado de dor. Sofrimento desnecessário
É inevitável
Imutável? Coração imaturo. Fim da canção
Agora ele diz que vai mandar todo o seu amor!
Pobre Paul. O amor, parece nem conhecer.

O velho toca-discos, fatidicamente, para!
Agulha quebrada.
Bem à tempo! Mais uma canção de amor inadequada.
É hora de partir. Não há mais lugar aqui
O tic-tac apressado me convida a sair
A fotografia do quadro sorri tristemente para mim
Mas antes de fechar a porta...

Só preciso ver aquele quarto, agora inóspito, pela última vez

O perfume que exala me lembra de nossa última noite
Não faz muito tempo, mas já não me recordo dos detalhes
Talvez não fossem tão importantes
Talvez seja o correto, o melhor para nós.

Passou da hora. Lancei os lençóis ao chão
Corri em direção à saída, bati a porta
O quadro caiu, quebrou.
Cacos do vidro rasgaram a fotografia
O relógio, assustado, ouvi dizer que se calou para sempre
O toca-discos, mudo, voltou para tocar Goodbye.

            Poderíamos nomear Zacarias o nosso professor de Teorias, ou chamar de rei aquele velho catador de papelão que está todas as ma...

          Poderíamos nomear Zacarias o nosso professor de Teorias, ou chamar de rei aquele velho catador de papelão que está todas as manhãs nas ruas da Vila Mariana. Poderíamos, quem sabe, escrever aquela canção dos Beatles em que diz que não é preciso temer. E por onde anda o Jude? Está dentro de nós. Somos reis, complexos teóricos de nossas próprias vidas, somos amigos, companheiros, e estamos aqui para aprender. Cada um de nós é exemplo claro e absoluto de nossas épocas. O que sou hoje refletirá na vida de meus filhos amanhã. Se for tristeza ou alegria, pacato ou agitado, sou feliz porque sou eu; em minha singularidade e espontaneidade sou apenas eu, dentro deste meu casulo exposto aos vossos olhos e aberto aos meus amigos.
          Eu não tinha lugar para onde ir. Havia passado a noite em casa de amigas, e resolvi voltar cedo para casa. Não havia passado muito o horário do almoço, e o sol raiava ainda ‘forte’, daquela maneira de fim de inverno. Eu estava sem minhas chaves de casa. Joguei a bolsa pesada para dentro do quintal. Caminhei totalmente sem destino algum. Ninguém atendia o celular. Não havia aonde eu me abrigar. Estava esfriando cada vez mais, e aquele sol de inverno, de tão fraco, não poderia me esquentar. Uma visita à lanchonete, um chocolate quente, talvez. Aquela música tocou novamente: “Hey, Jude, don't make it bad, take a sad song and make it better”. Meu mundo então parou. De repente me lembrei de sua crônica. Sua ULTIMA CRÔNICA*. Quase chorei. Já estava eu ‘naqueles dias’, mas detalhes à parte, eu estava extremamente sensível. Difícil foi lembrar-me de cada palavra sem esboçar aquela triste expressão de sentir algo derramando feito sangue em minhas mãos. Ele se foi. E não há nada que eu possa fazer. Estava clara sua despedida.
          Das inúmeras boas coisas que conquistei nesta vida universitária, de certo ele foi uma das primeiras. Mesmo sendo o cara chato, porém legal, aprendi a conhecê-lo e, com isso, inevitavelmente, aprendi a amá-lo. Este é, dentre tantos nomes em meu coração, um em destaque total, meu bichinho de pelúcia mais fofo e peludo, meu companheiro inseparável das travessuras de crianças de vinte anos. Acredito que nada lhe ensinei, mas muito com ele aprendi. Escutar as pessoas é característica especial, acompanhada pela forma de ver a vida com muito bom humor, respeito e integridade. Com ele aprendi que amar é amar, em qualquer ocasião, e que felicidade é ter uma família quase boa, ter ao menos um amigo que realmente se possa chamar de AMIGO, ter idéias positivas, dar boas risadas, não desanimar em encontrar o verdadeiro amor, ajudar os outros, e saber que no mundo existem pessoas que realmente vale a pena conhecer.
          O chocolate havia acabado. Continuei caminhando e voltei para casa. Lá estava minha família. Tomei um banho, jantei, li um pouco e dormi. Sonhei com ele. Estávamos caminhando pelo parque, quando ele me diz que o mundo continuará girando, e que um dia umas de nossas pontas de vidas iriam se cruzar novamente. Fiquei com raiva e dei aquele velho tapa em seu braço. Ele sorri e diz que sempre me amará, e se lembrará de mim por esses detalhes. Fecho os olhos quando ele me beija no rosto e, no momento em que abro, ele não mais está lá. Acordei com o despertador. Hora de levantar e ir à faculdade. No carro, o silêncio entre meu tio e eu era perturbador. Ele estava irritado com a sinalização falha das ruas da cidade de São Paulo e eu estava irritada por aquela última crônica e pelo meu sonho. Era tão difícil aceitar tal despedida.
          Caminhando pelas ruas da cidade, desta vez com um destino, cheguei à faculdade, terminei meu trabalho... e o vi. Ele confirmou tudo o que eu temia, e dizia que me amava e que a gente ia continuar amigos. Mas eu sei como as coisas acontecem: Primeiro perdemos o contato pessoal. Dali a pouco ele pára de atender minhas ligações, esquece de ler meus e-mails e não demora muito para esquecer-se de mim. Perguntarão-lhe sobre a Bruna, que estudava com ele, e ele dirá que havia muitas pessoas na sala, impossível lembrar-se de alguém, especificamente. E então serei eu apenas uma, dentro muitos que ele conheceu.
          O motivo para tudo isso? A vida não é um mar de rosas. Encarar os problemas não é tão fácil quanto as palavras incitam. Entendo as suas dificuldades e só lhe digo que poderia seguir sem medo. Não posso olhar naqueles olhos sem ter essa vontade de chorar. Estou pendendo meu amigo. Ele me diz para não olhá-lo com essa cara de quem vai brigar, mas parece não entender que é apenas um reflexo de meu sofrimento interno. Ele se foi. Continuo caminhando por estas ruas, lembrando dessa linda página da minha vida escrita por ele, meu rei, meu professor, meu companheiro, meu compositor e escritor, meu eterno amigo PIU!. Os fones de ouvido continuam comigo, me transmitindo aquela música que me fez lembrá-lo. A canção ainda diz para não temer. E para ele eu digo:

"Hey, Gil, don't make it bad,
take a sad song and make it better
Remember, to let her into your heart,
then you can start, to make it better.

Hey, Gil, don't be afraid,
you were made to go out and get her,
the minute you let her under your skin,
then you begin to make it better.
And anytime you feel the pain,

Hey, Gil, refrain,
don't carry the world upon your shoulders.
For well you know that it's a fool,
who plays it cool,
by making his world a little colder.

Hey, Gil, don't let me down,
you have found her now go and get her,
remember (Hey Gil) to let her into your heart,
then you can start to make it better.
So let it out and let it in,

Hey, Gil, begin,
you're waiting for someone to perform with.
And don't you know that is just you?
Hey, Gil, you'll do,
the movement you need is on your shoulder.

Hey, Gil, don't make it bad,
take a sad song and make it better,
remember to let her under your skin,
then you'll begin to make it better !"**


*Minha última crônica
**The Beatles - Hey Jude