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Uma palavra pode mudar tudo. Aquela carta de amor de tantos anos atrás faz doer no peito uma saudade. As fotos dos tempos de romance...



Uma palavra pode mudar tudo.
Aquela carta de amor de tantos anos atrás faz doer no peito uma saudade.
As fotos dos tempos de romance, o primeiro cartão-postal, as alianças ainda guardadas.
Em meio à tantas lembranças naquela pequena caixa amarela, um telegrama... que nunca tive coragem de ler.

Imagem: Andreia Miranda - Papel Online  Fim de tarde, véspera de feriado. O terminal lotado de pessoas e malas: correndo de um lado par...

Imagem: Andreia Miranda - Papel Online 
Fim de tarde, véspera de feriado. O terminal lotado de pessoas e malas: correndo de um lado para o outro, nas filas intermináveis dos guichês ou das lanchonetes, à espera de alguém que está para vir ou com quem está para partir. Muitos rostos emocionados. Outros, empolgados. Alguns tristes. Na maioria, um sorriso molhado. Tem os apressados, aqueles preocupados em não perder a viagem. E tem os que observam a vida acontecer naquele complexo rodoviário. 

Mentalmente tenho como companheira Maria Rita, interpretando Encontros e Despedidas, do amigo Milton Nascimento. 

Caminho até próximo de uma das paredes da rodoviária, onde há um quiosque da Chilli Beans. Melhor ponto de vista para quem espera aqueles que acessam pela saída do metrô. A qualquer instante meus amigos chegariam para integrar, junto a mim, o grupo dos que partem empolgados. 

Sentado em um dos bancos à minha esquerda, um senhor com camisa azul e bolsa pequena confere as passagens, forçando os olhos para a leitura naquele pequeno papel. A senhora de blusa marrom, provavelmente sua esposa, senta ao seu lado, oferecendo um saco pequeno de pão de queijo e indicando a marcação do horário no bilhete. Dois bancos atrás, quatro jovens planejam os próximos três dias do feriado como turistas no Rio de Janeiro.

Ali, perto de mim, um rapaz e duas moças param. Uma das garotas se despede do rapaz e continua em direção à plataforma. A outra, já com lágrimas nos olhos,abraça aquele que parece ser seu namorado. Ele retribui, envolvendo seus braços na garota e beijando carinhosamente sua testa. Um parece não querer sair dos braços do outro. Alheios à movimentação à sua volta, o casal chora em silêncio. O abraço todo se faz nesse silêncio. Se desgrudam por um instante, para olhar nos olhos um do outro. Ele segura seu rosto e diz, baixinho, que a ama. Ela diz que o ama também. Voltam ao abraço confortável. Ela, com a cabeça escondida no peito dele. Ele, beijando o alto da cabeça dela com carinho. "Eu nunca vou te esquecer", ele diz. Ela afirma com a cabeça, como quem não consegue dizer palavra alguma. Se beijam calmamente. As lágrimas ainda escorrem quando ela volta a abraçá-lo, ainda mais apertado. 

Pronto. Lá vai ela saindo de seu abraço em direção à plataforma onde a amiga já a esperava. Ele continua parado, ainda sentindo o quente dos seus lábios e o calor de seu abraço. Tenta secar as lágrimas com a manga comprida da camisa verde musgo. Olha para um lado, olha para outro, aparentemente desnorteado. Se volta para trás, de onde veio, e desaparece na multidão. 

Novamente sozinha, pude sentir a dor daquele abraço de despedida. E lembrei do meu.



Imagem: Google Qual o mistério por trás de teus olhos castanhos? Nessas tuas lentes de um grau de miopia enxergo o reflexo da tua í...

Imagem: Google


Qual o mistério por trás de teus olhos castanhos? Nessas tuas lentes de um grau de miopia enxergo o reflexo da tua íris, que, de maneira torta e até atordoada, busca o foco d’aquela suntuosa alma, embaçada pelas lágrimas que escorrem no teu rosto feito cachoeira no alto de uma colina, entre pedras que se assemelham ao coração de quem partiu sem se preocupar em dizer adeus. Ou até logo. 

Partiu. Pegou a estrada. Partiu. Pobre coração...

Um assobio ecoa de baixo para cima, sobrevoando caminhos, mares e florestas em busca da fonte daquele rio que escorre em cachoeira, feito passarinho que saiu da arca para procurar o mínimo da esperança enquanto, em dilúvio, acabava-se o mundo. Acabou o seu mundo?

Coração grande, alma gigante, corpo pequenino, choramingando numa floresta cheia de espinhos, presentes no coração em desalinho. Pobre passarinho...

Qual o mistério daquele ‘nada’ em seu coração? Nada que te compadeça mereça total falta de atenção. Falta de nada. Nada: toma conta de tudo. Em tudo se encaixa o sentimento absurdo. É amor? É a vida. Deixar ir embora sem esperar o adeus, bater as asas apenas desejando, de todo o coração, que tudo se encaixe. Asas, bicos, olhos, dentes. 

Passarinho míope! Bateu no vidro do arranha-céu e morreu.


A voz metálica anunciava a próxima estação. Desembarque pelo lado esquerdo. Rostos estranhos, parados, conversando, o burburinho aument...



A voz metálica anunciava a próxima estação. Desembarque pelo lado esquerdo. Rostos estranhos, parados, conversando, o burburinho aumentando, risos frouxos ou contidos, alguns reclamões nossos de cada dia e todos cansados por mais um dia na rotineira cidade da capital. Eu os observava atentamente, até que avistei, parcialmente, um rosto conhecido, um velho amigo.

Uma bolsa, no meio do caminho, pertencente a uma senhora moça vestida de branco e sapatilhas azuis, interrompia boa parte do rosto do garoto, mas reconheci a sobrancelha, alinhada da mesma forma que a do meu amigo. A orelha esquerda tinha o mesmo tamanho e formato. O cabelo igualava o corte recém adotado pelo meu velho conhecido. O tom da pele não poderia ser outro. Até mesmo a forma de mexer a parte de trás do cabelo me fez ter a certeza: era ele! E a roupa? Uma camiseta qualquer coberta por um colete marrom: sem dúvida era ele!

Mas então... por um instante, a certeza mudou de forma: avistei uma de suas mãos. Definitivamente, não era a mão dele! Não poderia ser! As mãos do meu amigo possuem os dedos longos, finos, tortuosos, por assim dizer. Bem diferentes daquela que eu avistava. A moça de vestido branco e sapatilhas azuis pegou a sacola da Brooksfield que o rapaz de colete marrom e mãos pesadas segurava. Aguardei a próxima estação com certa ansiedade: queria que ela saísse logo da frente de minha visão. Não para constatar se aquele era meu amigo ou não, mas eu queria saber se minha teoria sobre suas mãos estava certa. De fato, estava: não era meu amigo.

Tal caso levou-me de súbito à uma estranha revelação sobre mim mesma: reparo nas mãos das pessoas. Comecei a mapear, mentalmente, as mãos dos mais próximos a mim. Dedos finos, longos, grossos, tortos, curtos, com cicatrizes, manchas, pintas... pintas! As mãos de alguém, em especial, que passeavam pelas minhas lembranças, chamou-me a atenção.

Não vejo aquelas mãos há alguns meses, mas posso desenhar perfeitamente seu contorno. Em seu anelar da mão direita, há uma pinta. Correndo o olhar, subindo o braço, outra pinta completa o mapa, com cerca de um palmo aberto de distância entre uma e outra. Um lindo desenho perfeitamente simétrico. As mãos em si são finas, dedos longos, até um pouco tortuosos, também, mas não como as do meu amigo. Há uma característica única naquelas mãos que ainda não sou capaz de identificar, mas saberia reconhece-las em qualquer lugar. 

E sentir, também.

Ainda posso sentir aqueles dedos finos entrelaçarem-se aos meus enquanto caminhávamos pelas ruas, ou parávamos em frente a uma vitrine para namorar algum produto. Ou no ônibus, quando ela encostava sua cabeça em meu ombro, e, por vezes, chegava a dormir. E nossas mãos permaneciam entrelaçadas durante todo o trajeto. Ou então apoiava sobre minhas pernas. 

E me lembro também da temperatura. Mudava conforme o humor. Geralmente, eram quentes, como seu forte gênio. Suas mãos esfriavam apenas quando estava triste, ou desanimada, ou carente. Eu as esquentava com minhas mãos quentes. O que era estranho, pois eu sempre tive as mãos frias, mas ali, ao lado dela, parece que meu corpo em tudo se adaptava para ela, por ela. 

O rapaz que parece meu amigo, mas possui mãos diferentes, levantou e despertou-me de tantos devaneios. Devaneios bons, devo confessar. Quase lhe sorri como forma de agradecimento, quando ele passou por mim para sair do trem. Retornei o olhar para o lugar onde ele estivera sentado antes. Uma moça ocupava o banco. Cabelos longos, castanho escuro, óculos vinho transparente, jaqueta jeans azul por cima de camiseta branca, all star branco com desenhos coloridos. Tão parecida em alguns aspectos, mas... Mãos branquelas e dedos curtos. Sem graça. Próxima estação: Jabaquara. Hora de ir para casa. 

"Difícil pedir bebida aqui, 'né'?", perguntou. Olhei para o lado. Sabia que havia alguém ali, mas não havia p...



"Difícil pedir bebida aqui, 'né'?", perguntou. Olhei para o lado. Sabia que havia alguém ali, mas não havia percebido que era ele: o cara que chamou a minha atenção ao subir as escadas, vinte minutos antes. Desviei o olhar, ainda tímida, mas deixei que ele percebesse meu sorriso e, sem demonstrar muita importância, respondi que melhor assim, afinal poderíamos acreditar, com o grande número de pessoas interessadas, que a bebida era realmente boa. Ele riu. Concordou comigo. Perguntou o que eu iria beber. "Qualquer coisa com Jack Daniel's", respondi. Ele se ofereceu para pagar, mas mostrei o cartão brinde que eu tinha. Ele sorriu novamente e pediu que eu escolhesse a bebida para ele. "Que tal Sex On The Beach?", sugeri. "Sex On The Beach, por favor". Ele me agradeceu e esperou que o drink ficasse pronto. Sorri e deixei o balcão, com a minha bebida na mão. Estávamos no terceiro andar.

Enquanto descia as escadas, em direção à pista, onde meus amigos me esperavam, deparei com um deles, que me perguntou algo, mas não consegui entender, pois, na mesma hora, o rapaz do Sex On The Beach já havia me alcançado. "Já que você me sugeriu essa bebida, acho que devo dividir com você", disse ele. Meu amigo, nada discreto, olhou para mim e para minha nova companhia. Sorriu maliciosamente e continuou subindo os degraus. Experimentei a bebida, ainda que não gostasse de vodka, e ofereci a minha. Ele apreciou a escolha que eu fiz. As duas escolhas. Ou pelo menos foi simpático ao dizer que sim.

Descemos para o segundo piso e devolvemos a bebida um para o outro. Nossos olhares se comunicavam mais rápido que nossos lábios, mas por pouco tempo. Descansamos nossos copos em alguma mesa qualquer que encontramos no caminho e nos beijamos. Um beijo doce, misturado com whisky, vodka, laranja e maracujá. Pelo hálito agradável, logo pude perceber que o cigarro não é um de seus vícios. O que me deixou contente.

Ele falou, baixinho, ao meu ouvido: "gostei bastante de você". Dei-lhe um último beijo e me afastei, pedindo, com o olhar, desculpas pela mudança repentina no clima. Desci para a pista, último andar, esperançosa de perdê-lo por entre os milhares de dançarinos da agitada noite paulistana. Encontrei minhas amigas e juntei-me ao grupo com os passos da música eletrônica. Dois minutos depois ele passou por mim, agradeceu, não sei se pela indicação da bebida ou pelo beijo, e continuou a adentrar a pista de dança.

Minhas amigas olhavam-me curiosas. Pelo meu olhar, elas já sabiam o que havia acontecido. E nesse instante senti um leve arrependimento por tê-lo deixado na pista de cima. E então ele voltou, com a desculpa de que havia perdido os amigos. Perguntou o meu nome. Eu perguntei o dele. Lucas. 23 anos. Último semestre de engenharia civil. Não ouvi o nome da faculdade. Ele sorriu. Percebeu que eu já havia me distanciado de seu olhar. Disse adeus e se foi. Não o vi mais durante toda a noite.

Imagem: Silvia Navarro Despedidas. Nunca parece ser algo bom. Sempre que possível, não escolha despedidas. Entenda como um ...

Imagem: Silvia Navarro


Despedidas.

Nunca parece ser algo bom.

Sempre que possível, não escolha despedidas. Entenda como um 'até logo'. Ou faça parecer assim. Ele demonstra ser o menos pior possível. Com o 'até logo' você sabe que a pessoa continuará pensando em você. E você, nela. O 'até logo' permite que um esteja na porta de saída, esperando pelo outro, qualquer dia desses, após a aula ou o expediente. Permite, também, que uma ligação seja dada, uma carta, mesmo que virtual, seja enviada. Nesse mundo tão conectado, há os modernos 'orkuts', da vida: Facebook, Twitter, Instagram, Whats App... basta ter a coragem de enviar a mensagem. Pode ser um "tô com saudade", um "você faz falta" ou até mesmo aquele "parabéns pela belíssima derrota do seu time, hahaha". Apenas envie.

***

As nove pessoas já estavam à mesa. Seus olhares tristes denunciavam a despedida que viria pela frente, o "até logo", melhor dizer. As mãos do dizente, trêmulas, tentavam, uma à outra, disfarçar a emoção que ele já encontrava nos semblantes ao seu redor. Tentativa frustrada, pois a caneta, pendente entre o indicador, o polegar e o papel, anunciava com vasta exatidão as lágrimas que logo beirariam seus olhos. E que procurou segurar até o fim.

A voz... ah, a voz! Eis a parte que mais gostaria de ter descrito, no momento. A voz, rouca, sumia conforme as palavras precisavam serem ditas. "Eu vou continuar por aqui", repetia ele, sorrindo, tentando encontrar forças para provar que sempre seria um 'porto seguro' aos seus pupilos. Mas a voz sumia, aos poucos. Com tamanho carisma, o tom alternava de inseguro para triste, de triste para alegre, de alegre para confiante, de confiante para docemente melancólico e então voltava a ficar inseguro, e triste, e alegre, e confiante...

Então não apenas o seu próprio olhar, mas todos os outros mareavam-se diante do discurso do fim. Ou não seria, este, o fim? Se não há despedida, não há final. Ceto? O 'até logo', transformou o fim em recomeço, em segundo passo, em um novo momento de colocar o pé na estrada com a possibilidade de olhar pelo retrovisor, almoçar no pit stop, encontrar atalhos para o retorno, mas seguir em frente, sempre. E não há problema se o vento o acompanhar. Afinal, da mesma forma com que ele pode fazer um cisco cair em seu olho, ele também pode fazer com que esse mesmo cisco saia.

***

Siga em frente. Que seguiremos você!


Quatro e quarenta e cinco de uma tarde de verão. O Astro Sol ainda quente, queimando, borbulhando os ossos com o mais alto grau de temp...

Quatro e quarenta e cinco de uma tarde de verão. O Astro Sol ainda quente, queimando, borbulhando os ossos com o mais alto grau de temperatura que a cidade já vivera naquele horário. Ela saia da empresa e guardava o crachá na bolsa, quando, ao longe, o avistou... no mesmo lugar em que o vira pela última vez, três dias antes.

Ele a encara com a mesma intensidade. Como se a qualquer momento fosse ataca-la, novamente. Ela, de forma inconsciente, procurava nos céus quaisquer resquícios da sexta-feira: a tempestade inquietante, a chuva forte, o vento arrebatador, o som das árvores chacoalhando para um lado e para o outro, tentando manter-se firmes presas ao solo concretado da metrópole paulista.

Não há sinal do vento, ou da tempestuosa ventania que a pegou desprevenida em outro momento, deixando-a em meio ao nada, correndo risco de tornar-se mais uma vítima de tragédia natural, mas o receio de reviver aquelas cenas a acompanhava.

E ele estava lá. Parado no mesmo lugar. Olhando para ela: ele, o galho da árvore, que a atingira na última semana, durante a tempestade, estava no ponto de ônibus, onde ela deveria estar. Ela caminhou até o próximo ponto.

“Eu te amo”, ela disse, ainda trêmula, entre soluços, sem a convicção de que aquele era o momento certo. E, de fato, não era. ...

“Eu te amo”, ela disse, ainda trêmula, entre soluços, sem a convicção de que aquele era o momento certo. E, de fato, não era.

A frase saiu como um canto em sustenido: difícil, triste e doído. Dor sentida não apenas pelo cantor, mas também pelo ouvinte. Uma ópera italiana clássica, assistida em companhia do vinho mais seco.

Tais palavras, ditas com veemência e nesta ordem para alguém por quem se apaixonou, eram inéditas nos lábios da garota. Uma ópera em que ela deixou de ser plateia para ser protagonista.

Meio segundo após pronunciar, um calafrio de arrependimento invadiu sua alma. Não por achar que tal sentimento era fraco ou irreal, mas por ter, agora, a tal convicção que procurou segundos antes: não era o momento oportuno. E a certeza esteve revelada pelos olhos do interlocutor. Aquelas palavras o atingiram. Se de forma positiva ou negativa, nem ele poderia dizer.

Eis a magia da ópera: encanta, mexe com a alma, imersa os envolvidos à verdade dos sentimentos mais profundos... e machuca.

Dois segundos em silêncio e um turbilhão de imagens invadiam aquelas mentes: lembranças de um passado não tão distante, bom e [quase] perfeito: um mundo paralelo.

Não esperava um ‘eu te amo também’, mas desejava ardentemente um sorriso que dissesse por si só, um abraço quente e aconchegante, ou apenas a retribuição plena e satisfatória do carinho representado pelo terno e encantador olhar.

Reprodução: Madame Butterfly, de Giacomo Puccini
Porém a nota aguda sufocou a solista em bel canto, um Puccini linda e tragicamente interpretado pela vida real. O lírico, por fim, recebeu a resposta que tanto temia: “os sentimentos mudam”.


A ópera da sua vida nunca mais foi a mesma. 



Imagem: Andrade Jorge O obstáculo era maior que o salto que poderia dar. Teimou. Tentou. Caiu. Quebrou. E nunca mais foi o mesmo. Seu ...

Imagem: Andrade Jorge
O obstáculo era maior que o salto que poderia dar. Teimou. Tentou. Caiu. Quebrou. E nunca mais foi o mesmo. Seu coração era cristal. E, por tamanha fragilidade, decidiu não mais pular, não mais sofrer, não mais amar.

Os sonhos são bons por serem sonhos. Sabemos que, a qualquer momento, iremos acordar. Mesmo que seja durante uma queda após dar aquele pequeno salto menor que o obstáculo. A realidade às vezes machuca. E permanece. E repete. E entristece a alma. Foi uma alma assim que amei. Entristecida por uma realidade cruel. Uma alma que sonha e chora com seus próprios sonhos. Sofre com a exatidão do descaso, com ingratidão do sorriso.


A realidade a maltratou com incultas produções de grandes obstáculos. Ela, um frágil cristal, já quebrado e ‘inconcertável’, usou as próprias ataduras para esconder-se do mundo, fingir-se forte perante a maldade incontrolável da vida. Por fora, pontas afiadas do cristal. Por dentro, a imagem simplória e real da mais bela pétala de rosa cultivada no jardim mais bonito, pelas preciosas mãos apaixonadas. Ela, meu frágil cristal, minha rosa e meu amor... ela, que não sei onde está. 


A gente tinha tudo pra dar errado. E deu. Eu gostava de silêncio. Você era barulho. Eu fazia contas e você, poesia. Eu era o sol e você...


A gente tinha tudo pra dar errado. E deu.

Eu gostava de silêncio. Você era barulho. Eu fazia contas e você, poesia. Eu era o sol e você, a chuva. E de tantas diferenças, ficamos indiferentes à esta relação. Ela foi-se desgastando, desgostando, distanciando. E nos perdemos.
Lembra quando a gente planejou nosso casamento? Teríamos três filhos, um carro vermelho, um apartamento perto do trabalho e uma casa no campo. E depois você decidiu que o campo não era tão bom. Queria a praia. Depois decidiu que a praia não era tão boa. Preferia viajar todos os anos para a Europa. E nessa viagem sem sentido foi apenas você, em pensamentos. Deixando para trás tantos planos e a mim.
Lembra quando você decidiu que o maior sonho da sua vida seria escalar o Everest? Depois teimou que não poderia, pois tinha medo de altura, mas saltou de paraquedas. Assim como tinha medo de lugares abafados, mas adorava aquelas baladas pequenas lotadas de pessoas. Assim como tinha alergia e pavor de insetos, mas passou cinco dias em acampamento com seus amigos.
Eu guardo tudo isso e guardo com rancor, pois foram dias a menos com você. E você nem se importou. Fui te perdendo aos poucos e aos poucos deixava de te amar. Sem perceber. E então você foi embora.

Meu maior medo é você querer voltar enquanto eu ainda estou à sua espera.

Prometi que aquela seria a última dose. Vieram mais oito, depois disso. Florence and the Machine embalava a noite. O som alternativo da ba...


Prometi que aquela seria a última dose. Vieram mais oito, depois disso. Florence and the Machine embalava a noite. O som alternativo da banda me deixava ainda mais tonto. Cambaleei, totalmente embriagado, até o toalete, atravessando o salão pela pista de dança. Duas ou três moças tentaram me puxar. Alguns rapazes passaram a mão pelo meu corpo. Cheguei à porta sem bem me lembrar de como, exatamente, consegui me manter em pé. Passei o restante da noite deitado no sofá da boate. Acordei duas horas depois, ao som de Kuduro. Paguei a conta, saí à rua, vi o sol despontar além dos arranha-céus da capital e me deparei com a incerteza do meu rumo.
Atravessei o bairro, cheguei a outro, entrei no parque e adormeci. Sonhei com ela. Em seu vestido azul, ela sorria para mim, me chamava, me pedia para segui-la. Eu, bobo e apaixonado, assim como na vida real, fazia para agradá-la. Ela andava sem dizer palavra alguma, sem tomar rumo nenhum. Apenas caminhava sem parar, pois sabia que eu a seguia, mas então ela parou. Não olhou para trás, não fez gesto, não disse nada. Apenas parou e eu sabia que também deveria parar. Ela olhou por sobre os ombros. Havia uma corda ao meu lado. Entreguei-a. Ao me inclinar reparei que havia um abismo. Ela enrolou a corda no próprio pescoço e pulou.
Acordei com um chacoalhão do segurança do parque. Ainda um pouco tonto, não mais pela bebida e, sim, pelo sonho, voltei às ruas. Eu ainda tinha um pouco de dinheiro no bolso. Não era muito, mas o suficiente para pegar um ônibus até o litoral. Não tinha certeza se eu deveria ir, pois foi lá onde tudo aconteceu, mas talvez fosse minha única chance de afastar os fantasmas que me assombram há anos. Ou deixá-los ainda mais próximos de mim, a ponto de me levarem consigo.
Eu era o único sem bagagem, sem ao menos uma mochila. Apenas a roupa do corpo e a carteira. Sentei à janela. Cada árvore no caminho, cada túnel, cada lanchonete, cada posto de gasolina me fazia lembrar, com uma terrível dor no peito, a última viagem. Eu dirigia e ela sorria, contente com os planos para o feriado. Casaríamos em breve e ela dizia que deveríamos ter uma casa de praia e que levaríamos nossos filhos durante as férias. Senti uma lágrima escorrer quando essas últimas lembranças vieram à minha mente. Eu perdi a mulher que eu amava. Eu matei a mulher que eu amava.
Foi em nossa terceira noite na praia. Voltávamos embriagados de uma festa. Ela dirigia. Chegamos ao estacionamento do hotel e eu pedi para que déssemos mais uma volta pela cidade. Ela estava cansada, queria dormir.  Eu insisti e ela, enfim, aceitou. Insisti, também, para que eu dirigisse. Peguei o carro e saí em alta velocidade. No começo, ela achou divertido, mas logo o sorriso deu lugar ao medo. Ela parecia saber o que estava prestes a acontecer. Gritou, chorou, insistiu para que eu parasse e eu não dei ouvidos. Subi a estrada que levava para o alto de um morro. Mais uma vez ela esbravejou, implorou e então eu parei o carro. Ela desceu e disse, olhando por cima do ombro, que voltaria a pé para o hotel. Eu mandei que voltasse e ela negou. Furioso, arranquei o motor e, assim como no sonho, percebi que estava à beira do abismo. Era tarde demais. Eu havia jogado o carro contra ela, fazendo-a cair no morro e desaparecendo no mar. Eu matei a mulher que eu amava.
Lá estava eu, novamente, à beira do mesmo abismo. A culpa e a dor permaneciam em mim. Aumentavam com o tempo. Queimavam por dentro. A marca do pneu não estava mais lá, mas ainda pude vê-la, assim como vejo aquele vestido azul cair sobre as águas. Ela gostava quando a minha gravata combinava com a roupa dela. Olhei para o meu peito. Minha gravata azul. Sorri. Momento de dançarmos nossa última valsa. Minha hora de cair.

***
Acordei. Mais um pesadelo sem sentido dentre tantos que tive desde que acordei do sonho mais lindo: o sonho da vida real, aquele que eu destruí pelo simples fato de querer vive-lo para sempre. Vários rostos, várias histórias, mas sempre com um trágico fim. Ela sempre aparece em meus sonhos. E nem em sonhos podemos viver esse amor que eu cativo em silêncio nesse meu inquieto coração...

         Sorria. Abriu a janela do ônibus com o cuidado de não criar suspense ao próprio coração: avistou as tão belas e distantes mon...



         Sorria. Abriu a janela do ônibus com o cuidado de não criar suspense ao próprio coração: avistou as tão belas e distantes montanhas que tantas vezes desenhava em seu caderno da infância;
         Observou o velho jardineiro, ao pé da casinha de madeira, cultivando as lindas rosas e petúnias que encantavam o caminha da antiga estrada de terra;
Sentiu o puro ar de vida no campo, que tantas vezes desejou enquanto respirava a poluição da cidade grande;
         Ouviu o canto dos pássaros no alto das arvores, ou voando em contraste com o perfeito céu azul, numa sintonia impecável e emocionante, bem distante da cinza vista da metrópole;
         Fechou os olhos e se viu, aos 18 anos, abandonando o paraíso que julgou ser inferno, prometendo a si mesmo nunca mais voltar.
         Havia encontrado o caminho de volta para casa, para seu eterno lar, onde tantos, com a saudade acompanhada da esperança de tê-la de volta como parte do interior, a aguardavam.
         As lágrimas brotaram em seus olhos, se transformando em arco-íris e provando que, quem parte, sempre volta para seu interior.

O sol bem ao centro do céu. O relógio marca exatamente 12h. A igreja, a três quadras dali, badala o sino em 12 longos toques. Baixinho...



O sol bem ao centro do céu. O relógio marca exatamente 12h. A igreja, a três quadras dali, badala o sino em 12 longos toques. Baixinho, o inspetor de 60 anos, simpático velhinho com o bondoso aspecto de vovô, varre o pátio da escola de fachada azul. Dona Maria, cozinheira há mais de 30 anos, prepara a merenda para as crianças da tarde. Cinthia e Gabriela, ajudantes de cozinha, esperam na saída com o carrinho carregado de mupy. Bate o sinal, as crianças que passaram a manhã com seus professores, correm para o portão, pegam os saquinhos de mupy e se dirigem aos braços de seus pais. Todas entre 3 e 12 anos. A maioria, 6, como eu.

***

Lembro-me perfeitamente os detalhes. Eu não tinha pressa em sair da sala. Sabia que meu pai ainda não estaria lá.  Ele me buscava sempre depois das 13h, em seu horário de almoço. Eu chegava a ver as crianças da tarde. Vários rostinhos novos, animados para mais uma tarde entre pinturas, futebol e as primeiras letras, os primeiros números. Não tinham nomes para mim. Apenas esse: “as crianças da tarde”. Exceto uma. A Ruivinha. Era assim que eu a chamava. Olhos castanhos claros, esverdeados. Olhar superior e uma beleza incomparável. Ela nunca falava comigo. Apenas me olhava intrigada. Eu retribuía o olhar.
Certa vez, minha professora, a Shirley, sentou-se à mesa de merenda, comigo, enquanto eu esperava meu pai e saboreava o delicioso mupy de maçã, meu preferido. Ela era a única que sabia do meu namoradinho secreto, o Caio. Coisa boba de criança. Eu nem sabia o que era namorar. Foi a ela que eu contei que Caio tentou me beijar. Era um absurdo crianças da nossa idade namorando. Beijando na boca, então... Shirley compreendeu e me incentivou a crescer, esperar alguns anos antes de aceitar o primeiro beijo. Ela me disse que deveria ser com um alguém especial. Hoje eu tenho vontade de encontrar minha professora e dizer “Shirley, você tinha razão. Deveria ser com alguém especial. E foi”.
No dia seguinte, no mesmo banco, a professora se sentou, bem ao meu lado. Perguntou-me se eu já havia rompido com o Caio. Antes que eu pudesse responder, a Ruivinha apareceu. Meia hora mais cedo que o normal. Teria passado direto e sentado na outra ponta do banco, não fosse o convite da professora para juntar-se a nós. Anna Luisa. Esse era seu nome. Ainda hoje fico avermelhada toda vez que me lembro de que a minha professora partilhou com a desconhecida o meu segredo. Ela queria que a Ruivinha, ou melhor, a Anna, me ajudasse a tomar uma decisão. No dia a seguinte, Anna estava lá, à minha espera, na saída. E assim passamos todos os dias daquelas três semanas seguintes. Dias antes de entrarmos em férias, Caio me contou que iria morar em São Paulo, com a família. Nunca mais nos vimos.
Em 98, Anna e eu já tínhamos criado laços. Nunca tive, até então, uma amiga como ela. Víamo-nos todos os dias, entre as 12 e as 13 horas. Eu estava completando 8 anos de idade. Ela, 10. No ano seguinte ela foi para o ginásio. Eu fui transferida para o colégio novo, perto de casa. Foi nossa primeira despedida. Passamos os dois anos seguintes sem contato. Na virada do século, desejei reencontrá-la. Mas não tinha nem seu telefone. Século novo, colégio novo, vida nova... um velho rosto. Lá estava a Ruivinha. Olhos castanhos esverdeados, olhar superior e uma beleza incomparável. Essa era a Anna. A minha pequena Anna Luisa.
Foi aos meus 13 anos, ela com 15, que tivemos a tal ‘conversa’. Ela confessou estar confusa. Logo pensei que fosse a relação com os pais. Não via a mãe desde que tinha 5 anos e estava brigando muito com o pai, nos últimos meses. Mas era um pouco mais complicado.
- Acho que não gosto de homem, como deveria gostar.
- Como assim, Lu?
- Tenho vontade de beijar garotas. Tenho vontade de andar de mãos dadas com uma garota, sabe? Sei lá. Não tenho vontade de ficar com um garoto. Queria que meu primeiro beijo fosse especial. E não me vejo com nenhum garoto. Não me vejo dando meu primeiro beijo com um garoto. Olha, não quero que nada mude entre a gente, mas não consigo mais esconder. Eu tenho vontade de beijar você. Você deve me achar muito estranha, agora, né?
Na verdade, não. Anna só tinha a coragem que eu achei que nunca teria. Falar sobre sentimentos, ainda mais sobre esses. Eu também tinha vontade de beijar uma garota. Não uma garota qualquer, mas ela. Aquele dia terminou como um ponto de interrogação. Eu não sabia o que dizer quando a visse novamente. E o beijo, seria no rosto? Ou melhor, um aperto de mão? Um aceno, talvez? Tudo tão confuso. Não nos víamos mais nos corredores do colégio. Acho que nós duas estávamos nos evitando. Era uma quinta-feira. Se me lembro bem, em outubro. Eu estava pegando minha bicicleta, quando ouvi chamar meu nome. Ela agiu como se nada tivesse acontecido. Queria me acompanhar até minha casa, como sempre fazia.
A rua era larga. O canteiro central estava coberto pelas palmeiras. As casas de veraneio, vazias. Gostávamos dali porque era calmo e silencioso. Havia um banco, embaixo do coqueiro da terceira casa da esquerda, na segunda quadra. Costumávamos sentar ali todas as tardes, esperando o sol do meio dia baixar. E então nos sentamos. Eu me lembro que, naquela tarde, conversamos sobre nossos planos, sobre faculdade, ter 18 anos, aproveitar a vida, viajar, conhecer a Itália, a Irlanda (a mãe dela é irlandesa). Falamos sobre nossos pais, sobre a escola, sobre os cursinhos, meu time de vôlei, o time dela de futsal... não houve um toque, não houve um olhar. Simplesmente aconteceu. Era nosso primeiro selinho, não era um beijo de verdade, mas era especial. A professora Shirley tinha razão.
Caminhamos duas quadras. Foi quando eu percebi que estava a uns três passos adiante dela. Ela estava inquieta, olhando para o chão, chutando pedregulhos da calçada, com um sorriso molhado e certa tristeza no olhar. Larguei a bicicleta e voltei os três passos. Ela levantou a cabeça, olhando nos meus olhos e perguntou:
- Promete não esquecer disso?
- Disso o quê?
- De tudo! De quando nos conhecemos, de quando brigamos, de quando contamos piadas, de quando eu pulo no seu colo, desse beijo...
- Se te conheço bem, você nunca me deixará esquecer – havia um sorriso na minha fala, tentando disfarçar o medo de perguntar o porquê daquela conversa e procurando aliviar a tensão. Mas ela não sorriu.
- Talvez eu não esteja aqui para te lembrar.
- Do que você está falando?
- Vou morar com minha mãe. Na Irlanda.
Aquela foi nossa segunda despedida. Não consegui dizer mais nada. Só abracei e chorei. E chorei tanto que as lágrimas não me permitiram vê-la partir. Mas eu sei que ela também chorava. Chorava muito. Saiu quase que correndo daquela rua.
Um ano se passou. Eu estava com quatorze anos quando dei meu segundo selinho. Namorei a Camila por oito meses. Ela tinha problemas com drogas e saiu da escola pouco depois que terminamos. Na verdade nem era, de fato, um namoro. Apenas estávamos juntas. Curtíamos uma a outra. Camila resolveu o problema com as drogas e engravidou aos dezesseis anos. Não cheguei a conhecer a filha dela. Recebi uma carta com uma foto, meses depois. Nesse tempo, minha vida havia voltado ao normal. Anna retornou da Irlanda em 2 de setembro de 2006. Lembro-me bem da data porque fizemos uma festa surpresa para dois colegas de sala que faziam aniversário. Ela simplesmente apareceu na festa, sem avisar.
Nos beijamos em 22 de setembro, mas eu já havia me apaixonado por outras pessoas. Ou melhor, por outra pessoa. Meu amado Ser, meu primeiro beijo de verdade, o que causou nossa terceira despedida. No início de 2008 voltamos a nos falar. Ela morando na capital. Eu, no litoral. No ano seguinte, entrei na faculdade e fui morar na capital. Estávamos começando a nos entender, quando tudo de repente acabou após uma traição e uma gestação. Foi a quarta despedida. Ela perdeu o bebê aos 4 meses. Pouco depois, perdeu a mãe. O pai, decepcionado, se isolou. 
Com o passar dos anos, as coisas foram melhorando. Os problemas, se revolvendo. A relação com o pai, se reestabelecendo. Aos poucos fui enxergando, novamente, a minha Ruivinha naquela Anna mais velha. Infelizmente não possuímos o poder de controlar a vida por completo. Aos 24 anos, Anna foi diagnosticada com LMA – leucemia mieloide aguda, um tipo de câncer com baixo índice de mortalidade. O tratamento correto, as sessões de quimioterapia indo bem. Eu a veria na segunda-feira, 3 de setembro de 2012, após a faculdade. O telefone toca às 11 horas. Anna se foi. E eu não dei meu último adeus.
***

Olha... veja só! Nossa primeira foto juntos. Já faz tanto tempo, não é mesmo? Quase me esqueci desse seu sorriso encabulado, ainda na dúvid...

Olha... veja só! Nossa primeira foto juntos.
Já faz tanto tempo, não é mesmo? Quase me esqueci desse seu sorriso encabulado, ainda na dúvida se me levaria pra dançar numa boate ou melhor seria um romântico jantar. E depois, quando finalmente decidimos passear pela avenida, observando as estrelas, um saxofonista parou-nos para dedicar ao 'casal apaixonado' uma romântica canção. Você gaguejou ao tentar dizer que não somos um casal, mas nem conseguiu completar a frase. Depois olhou-me, corado, ainda sem saber o que fazer em seguida. Estava esfriando, então você colocou sobre mim seu casaco macio. Ah, como amei aquele momento. Estivemos tão perto de um beijo... e seu perfume era tão bom, impregnado no casaco sobre mim!

Já faz tanto tempo, mas ainda posso me lembrar do cheiro da comida do restaurante que você me levou. Hoje passo por aquela avenida e vejo uma casa de shows no lugar daquele restaurante. As pessoas hoje pensam que são felizes ali, mas jamais sentirão o êxtase de felicidade que tive quando, entre a entrada e o prato principal, você disse que não parava de pensar em mim desde que viu meu sorriso pela primeira vez, quando lhe vendi aquele par de meias e as gravatas de seda coloridas. Inacreditável como em apenas duas semanas você precisou comprar 30 gravatas diferentes. Acho que você jamais as usou.

Já faz tanto tempo... e parece que não foi tempo suficiente para vivermos esse amor. Agora, que você se foi, tenho essas fotografias que me fazem chorar. Não de tristeza, mas pela certeza de ter vivido o melhor amor que eu poderia viver. Você se lembra, naquela noite, após o jantar? Você me deu o primeiro beijo e disse que havia uma grande chance de estar me amando desde antes de você entrar na loja e comprar aquelas gravatas. Aquela foi a primeira noite das milhares de noites felizes que tive ao longo desses 60 anos ao seu lado. E não teve uma noite sequer que tenhamos colocado as cabeças nos travesseiros sem dizer as palavras que hoje ecoam no meu coração: EU SEMPRE AMAREI VOCÊ!

          Feriado prolongado. Isso só a faz lembrar uma coisa: praia. E é pra lá que Daniela Davanso vai. O Dobló  prata já passou pela r...



          Feriado prolongado. Isso só a faz lembrar uma coisa: praia. E é pra lá que Daniela Davanso vai. O Dobló  prata já passou pela revisão. Uma última parada na lanchonete antes da viagem. Agora será apenas ela, o carro e a estrada. Ah, sim, não poderia esquecer a trilha sonora. Marisa Monte será a responsável. Seu novo CD, O que você quer saber de verdade, ganhou de presente no Amigo Secreto da faculdade. Ainda não conseguiu ouvir.          

Um Ford velho azul cruzou o seu caminho. O motorista, um senhor com aparência hostil, barba mal feita, cabelos brancos e um cigarro caindo pelo canto esquerdo da boca, ultrapassa em local proibido e faz sinal obsceno para Daniela. No tumultuado trânsito da Capital, Daniela teria xingado, gritado, devolvido gestos igualmente hostis.  Mas aquele feriado seria de felicidade, nada iria impedi-la de aproveitar. Marisa, a cantora, dizia exatamente isso para ela: “Vai sem direção, vai ser livre. A tristeza não, não existe. Solte seus cabelos ao vento, não olhe pra trás.”. Era isso que ela iria fazer. Esquecer-se de olhar para trás, por pelo menos quatro dias. As últimas semanas foram complicadas. Ela não achou que gostar de alguém fosse tão complicado assim.
          

Enquanto passava pela divisa de São Bernardo e São Vicente, Marisa Monte falava sobre andar descalço no parque. Parecia que tudo o que Daniela sentia, Marisa cantava. “Pois a cada hora que passa leva comigo uma saudade de você, meu amor.” No pedágio, aquele olhar era tão parecido, mas nada se comparava à sua paixão. Uma fugaz lembrança daquela mesma cabine, meses atrás. Era uma viagem romântica. Uma segunda lua de mel.
          
Os túneis tamparam a visão da lua. Vários minutos se passaram enquanto o carro percorria aquele trecho. Estrada longa e lotada. À frente, um Sportage azul marinho com duas bicicletas em cima. Jovens recém-casados, provavelmente. A placa era de Embu das Artes. Ao lado, uma Saveiro branca transportava móveis antigos. Na outra faixa, um Crossfox vermelho. Igualzinho o carro de seu amor. Bandido amor. Até Marisa percebeu. “Depois de aceitarmos os fatos, de trocar seus retratos pelos de um outro alguém. Meu bem, vamos ter liberdade, para amar à vontade sem trair mais ninguém”. Lágrimas escorriam pela face da menina-mulher. Melhor seria trocar de faixa, mas Marisa não colabora. “Amar alguém só pode fazer bem, não há como fazer mal a ninguém. Mesmo quando existe um outro alguém, mesmo quando isso não convém”. Como poderia alguém amar duas pessoas ao mesmo tempo? É algo inaceitável, para um coração fiel. Daniela não podia aceitar. Não conseguiu aceitar. Sentiu-se traída, sentiu-se minimizada, hostilizada.
          

O equipamento de som do carro continuava funcionando, mesmo com a tentativa desenfreada de Daniela de calá-lo. Os botões não respondiam. A estrada estava ficando mais escura, mais perigosa. “A tarde estava fria. Frio também ficou meu coração ao compreender que ele partia. No branco lencinho, chorei sua traição.” Estava explicado porque Daniela evitara tanto aquele CD.
          

Marisa continuava falando para ser feliz. Ser feliz. Era óbvio. Tudo estava óbvio. Só Daniela não percebeu. Logo poderia cantar, com felicidade, a canção de Marisa. “O meu coração já estava aposentado. Sem nenhuma ilusão, tinha sido maltratado. Tudo se transformou. Agora você chegou, você que me faz feliz, você que me faz cantar, assim...”

           No alto da serra já era possível ver as luzes da baixada. Em poucos minutos estaria na casa dos pais, onde cresceu e passou os melhores anos de sua vida. “Para que ficar, mas pra onde ir? Todo lugar tem o seu aqui.” Daniela Davanso decidiu voltar para seu lar.

Pela janela do carro, eu podia ver Anna do outro lado da rua, fechando a porta de casa. Seis horas da manhã. Edu, seu vizinho skatista, atra...



Pela janela do carro, eu podia ver Anna do outro lado da rua, fechando a porta de casa. Seis horas da manhã. Edu, seu vizinho skatista, atravessava a calçada em direção à escola. Dona Marta saía para passear com o cãozinho que ganhara do filho mais velho. Seu Adalto cumprimentou minha amiga. O entregador de jornal, atrasado, quase lhe acertou a testa ao lhe jogar as notícias. Anna não se importou em ler nenhuma. Ela encarava os papéis com o carimbo da clínica que estavam em suas mãos. Suas mãos trêmulas seguravam os exames. Várias letras miúdas e termos impossíveis de serem entendidos por uma designer. Positivo, negativo, medula óssea, mielóide, blastos, LMA... o que eram todas aquelas coisas? Deveria esperar mais duas horas até ser chamada pelo especialista. Deveria esperar mais duas horas para saber se estava com câncer ou não.
            Anna estava com medo, ansiosa, receosa. Ouviu depoimentos de pessoas que passaram pela doença. Depoimentos também de pessoas que perderam alguém para a doença. Viu casos na televisão. A novela apresentou o sofrimento da personagem. Do outro lado da rua, eu esperava no carro. Duas buzinas trouxeram Anna de volta. O que ela deveria fazer? Correr e chorar nos meus ombros? Ou melhor seria acalmar-se e ir confiante à clínica? Ao atravessar a rua, quase foi pega por uma moto acima do limite de velocidade. “Melhor seria morrer de uma vez, que passar pelo sofrimento de uma longa doença”, pensou.
            Anna Luisa Signorelli é designer, 23 anos, mora sozinha no apartamento de três quartos na Rua Sena Madureira, Vila Mariana, na zona sul de São Paulo. Não fala com o pai há dois anos. A mãe foi embora quando ela tinha 5. A única família que tem é seu irmão Kevin, que mora no Rio de Janeiro, e sua prima de terceiro grau Sophia, que passa longas férias em Barcelona. Aos primeiros sintomas, recorreu à única pessoa de confiança que poderia acompanhá-la em todos os exames: eu.
            O trajeto, que geralmente dura uma hora e meia, foi percorrido em quarenta minutos. Não havia trânsito, ou buzinas, ou pessoas xingando outras logo pela manhã. Ao chegar à clínica, Anna e eu fomos para a sala de espera, onde permaneceríamos por quase uma hora e meia, à espera da resposta. Éramos duas amigas sempre com assuntos pendentes, conversas para ‘botar em dia’, mas naquela manhã, o momento pedia silêncio. Um constrangedor silêncio. Eu não sabia o que fazer, se devia consolá-la, ou contar piadas. Não sabia se era hora de lembrar as cenas da nossa infância, episódios que prometemos jamais esquecer, ou isso iria soar dramático demais para a ocasião.  E ela já estava chorando.
            O fato é que eu estava com medo. Tanto quanto ela, tanto quanto não imaginei que pudesse estar. Meu medo aumentou, quando a ouvi dizer: “O que eu acho mais engraçado é que quando você está bem, ou parece estar bem, encontra mil e um motivos para reclamar da vida.” Lágrimas escorreram pela sua face, um momento de pausa antes de continuar a falar. A gagueira, que na adolescência chegava a ser um charme, naquele momento transmitia desespero. “Há sempre alguém, em algum momento, que diz que preferia estar morto, ou mesmo nem ter nascido. Mas quando algo do tipo acontece, é impossível controlar esse medo, essa angústia de dentro de você.” Um outro momento de pausa. O farol fechado. Rádio desligado. A avenida ainda vazia. Só o soluço de Anna irrompia o silêncio por alguns segundos.  Tentei dizer algo, mas uma vontade de chorar controlava minhas ações. Uma palavra, e eu gaguejaria tanto quanto ela. Melhor seria esperá-la falar. “Não é só o medo da morte que eu digo, mas o medo de não viver, de deixar de desfrutar da beleza da vida, de não mais poder tomar uma água gostosa, não mais sentir o cheiro de uma flor em meio a tantos espinhos, medo de não mais provar o sabor de uma nova especiaria culinária.”. Enquanto Anna falava, algumas cenas vinham à minha mente, como a primeira vez que fomos ao cinema, a lasanha que ela tanto havia prometido e acabou deixando queimar, a batida de maracujá, os livros que lia e fazia questão de resumi-los à mim e quando tomávamos banho de mangueira no quintal, num dia de verão. “O medo de não saber o que vai acontecer com os meus amigos, medo de nunca mais falar com meu pai, ou jamais encontrar minha mãe. Medo de nunca mais poder desenhar, nunca mais passar madrugadas terminando um trabalho para entregar nas primeiras horas do dia, ou ir à praia, jogar futebol no campinho molhado, sentir a chuva tirando o peso de um cansativo dia de trabalho. É disso que tenho medo. Não é do que pode vir após a morte, mas o que não virá depois dela.”. E uma última cena ficou marcada em minha memória até chegarmos à clínica, quando Anna e eu demos nosso primeiro beijo, sete anos atrás. “Nada de ruim vai acontecer com você, Anna. Eu prometo.” Foi tudo o que consegui lhe dizer, enquanto a lágrima caía, disfarçadamente, sobre meu rosto.
            O relógio branco acima da bancada da recepcionista confirmava: a longa espera se prolongaria por mais cinquenta minutos. Uma senhora, acompanhada da neta caçula, também esperava o resultado dos últimos exames. Tem sofrido com a doença há meses. Perdeu o cabelo, devido o tratamento de quimioterapia, perdeu o gosto pelas coisas. Desiludida, aguardava a sentença final.  A neta, uma jovem universitária, na certa com a mesma idade da Anna, desesperava-se com as duras palavras da mulher. O médico chamou a senhora. A neta a seguiu. Minha amiga prometeu-me que, com doença ou não, jamais faria pesar em seu peito, ou nas pessoas ao seu redor, a dor da desilusão. Prometeu-me ser forte, até o fim. A sala ficou silenciosa, exceto pelo discreto barulho do movimento dos ponteiros no relógio branco acima da bancada. Tic tac tic tac...
            Vinte minutos para o atendimento. Anna já havia folheado todas as 30 revistas da sala. A recepcionista acessava o Facebook. Uma muda TV ligada exibia o jornal matinal. Acidentes de trânsito, roubos e assaltos pela madrugada, tempo, dicas de saúde e eventos culturais. Anna estava impaciente. Olhava para a porta da sala do médico a cada cinco segundos. Seus olhos expressavam terror. Olhou em minha direção, com as lágrimas de volta em seu rosto. Dessa vez soluçava. Soluçava forte. Seu olhar pedia ajuda, pedia consolo. Só pude abraçá-la forte e dizer que tudo ficaria bem. Abraçamo-nos por cerca de 8 minutos, até sermos interrompidas por uma grave voz. O médico nos chamava.
            Anna entrou sentindo um forte calafrio percorrendo seu corpo. Tremia forte. As pernas balançavam. O médico, acostumado a lidar com situações difíceis, acalmou-a e ajudou-a a sentar na confortável cadeira.  Doutor Aurélio começou explicando os sintomas da minha amiga. Falta de ar, fadiga, hemorragia, as várias infecções... quanto mais ele falava, mais confusa Anna ficava. “Identificamos em seu sangue a presença de blastos que, acumulados na medula óssea, interferem na produção comum do seu sangue.” Ficamos mudas. Não entendemos bem a situação, ou tínhamos medo de raciocinar o que acabara de ser jogado em nossas mãos. “Doutor” – perguntou minha amiga – “o que isso significa?”. O médico me olhou com cautela, como que solicitando meu auxílio para apoiá-la naquele momento. Acenei positivamente com a cabeça, demonstrando meu entendimento. Anna, ao ver toda a movimentação, começou a chorar novamente.
“Você está com leucemia mieloide aguda, que chamamos de LMA. É um câncer presente nos glóbulos brancos. É mais comum em adultos, mas posso já lhe tranquilizar que as chances de cura são grandes.” O LMA é um câncer raro, mas ainda mais raro é o índice de mortalidade desse tipo de câncer. Anna deverá passar por sessões de quimioterapia e, se tudo der certo, estará livre de um transplante de medula óssea. Caso contrário o transplante será essencial, mas o oncologista afirmou que Anna não deveria se preocupar com essa fase, nesse momento. O mais importante era ela estar firme e segura durante o tratamento da quimioterapia. “É importante também você descansar, estar com amigos ou familiares. Você tem uma espera ainda maior, pela frente. O da cura. E ela depende exclusivamente de você.”. Com essas palavras, o médico entregou todos os exames e alguns medicamentos para iniciar o tratamento. Entregou também um pedido de alguns exames menores. Ele estava certo. O tratamento, agora, só depende dela. E ela vai esperar pela cura, vai batalhar por ela. 

Ela tentava olhar por entre as frestas da janela de madeira. A cortina foi fechada friamente. Não poderia haver espiões. A briga no interior...

Ela tentava olhar por entre as frestas da janela de madeira. A cortina foi fechada friamente. Não poderia haver espiões. A briga no interior da sala rompeu o silêncio com gritos assustadores. Insultos, palavras incertas, insônia.
A porta se abriu violentamente, formando uma rajada de vento que quase derrubou a menininha. Aquela última briga, ela jamais iria querer lembrar, mas seria impossível esquecer.

O tempo passou depressa. As noites de insônia só aumentaram. Nunca houve brilhantismo em teu caminho. Poucos sabiam teu nome. Muitos a odiavam. Ninguém lhe amava. Era infeliz e não sabia. Nunca havia experimentado o amor. Já tivera outrora algumas paixões. Acabaram tão rápido quanto começaram. Não era feliz.

Do espaço houve espaço para lançar-lhe a dor. Em um momento de raiva jogou tudo para o alto e sumiu. Os poucos que a conheciam, nunca mais souberam sobre a menina. Mais um corte brusco no tempo trouxe aos ausentes a enxurrada de calor. Ela voltou com o outono. Uma fria folha seca com a jovialidade estampando seu sorriso. O distante fez-lhe bem. A então menininha dos olhos assustados hoje seduz e reúne enamorados. Mas ainda não sabe o que é felicidade.

          Vez ou outra algumas cenas marcantes passam pela minha cabeça. A primeira vez que cortei meus pequenos cachos num salão, a fo...



          Vez ou outra algumas cenas marcantes passam pela minha cabeça. A primeira vez que cortei meus pequenos cachos num salão, a forte onda me puxando na beira do mar, a sensação de voar pelos braços de meu pai, derramar o sorvete em toda minha roupinha rosa de babado, o primeiro dia de aula, as primeiras palavras escritas, os primeiros amigos, o primeiro beijo, as viagens em família, meu primeiro encontro, andar de patins pelo calçadão, as fotos com as melhores amigas, enterrar os pés na areia, minha primeira lágrima de amor, as baladas da adolescência, paixões de uma noite, minha primeira viagem com os amigos, a formatura do colégio, o vestibular, a vida nova como universitária, a chegada de novos amigos, os desencontros com os antigos, ou até mesmo os reencontros, um novo amor, aquela sensação de que é verdadeiro, o primeiro emprego, as despedidas...
          Vez ou outra algumas cenas avulsas passam pela minha cabeça. Um brinquedo que eu nem gostava, um momento em frente ao espelho, um passeio pelo shopping, a construção de um edifício na rua de casa, os meninos empinando pipa, a dona Vera lavando a calçada, seu Raimundo cuidando da padaria, a segurança local vigiando o bairro... e aqueles olhos. Nunca descobri seu nome, mas seu olhar me acompanhou por toda a minha adolescência.

Imagem Google            Um amor não deveria ser discriminado. É tão lindo ver duas pessoas se olhando, se curtindo, se querendo e se amando...


Imagem Google

          Um amor não deveria ser discriminado. É tão lindo ver duas pessoas se olhando, se curtindo, se querendo e se amando. Mas como vencer as barreiras se o preconceito existe dentro do próprio lar? Meus pais nunca aceitaram minha sexualidade. Cresci com o conceito de que mulher deveria gostar de homem e homem de mulher, que era errado e vergonhoso duas pessoas do mesmo sexo se amarem. Sociedade hipócrita que comete os mais absurdos erros e os camufla atacando inocentes amantes como nós. Eu amei e não pude viver este amor. Pedi a ela que saísse da minha vida.
          Com o tempo percebi que minha felicidade não dependia do julgamento alheio. Meus pais continuavam contra, mas eu já não podia esconder minha verdadeira identidade. Na festa de formatura da faculdade decidi viver minha própria vida. No dia seguinte viajaria os 120 km que nos separava. Meu pai disse que se eu saísse, seria para nunca mais voltar. Mesmo com aquela dor no coração, eu já havia tomado a decisão. Peguei o velho Ford e segui à Santos, com uma pouca bagagem e bastante determinação.
- Minha irmã está no Rio.
- Rio de Janeiro? Mas porque ela foi embora?
- Depois que você a mandou para fora da tua vida, muita coisa aconteceu. Perdeu o emprego, não conseguia mais estudar, depois veio a morte do meu pai. Ela brigava direto com minha mãe, e então decidiu ir. Disse que iria para São Paulo mesmo, mas não sei por que mudou de ideia.
- Sabe como posso encontrá-la?
- Entre, vou pegar o telefone.
          A casa era a mesma, só os móveis estavam em disposições diferentes. Os troféus de natação ainda sobre a estante. Enquanto ele procurava pelo número de telefone, fui até seu quarto. O mesmo quarto lilás, cobertas claras sobre a cama, a janela ainda emperrada, o abajur da Disney, a pilha de CDs importados e os DVDs românticos. Na parede principal, o painel de fotografias. Eu estava em quase todas. Dentro da gaveta semiaberta, todas as cartas que lhe escrevi. Nosso amor de verão se tornou eterno.
- Está tudo exatamente igual!
- Sim. Minha mãe, apesar da mágoa, ainda acha que ela irá voltar. Bem, aqui está o endereço, telefone, a faculdade em que ela estuda e o endereço de onde ela trabalha.
- Valeu, Carlos. Te devo essa!
- Bianca, eu nunca me dei muito bem com minha irmã, mas eu quero o melhor para ela. Aqui está o endereço, mas é importante que você saiba – Ele parecia procurar as palavras certas, mas estava com receio em dizê-las – a Laura está feliz, com outra pessoa. Ela sofreu muito quando você foi embora. Se você ainda a ama, não estrague essa felicidade que ela recuperou!
          Aquilo me destruiu. Eu a mandei embora da minha vida, porque tinha que estar tão surpresa por ela já ter outro alguém? Peguei meu carro e rodei por toda a cidade. Os verões mais lindos foram ali, ao lado dela. Parei na orla da praia e deitei na areia. Aquela lua que observamos tantas vezes juntas parecia tão triste quanto eu. Os sons das ondas do mar eram minhas lágrimas silenciosas. Arrependo-me de ter dito adeus, de não ter aproveitado mais os momentos ao seu lado. Não havia como voltar atrás. Eu não iria fazê-la infeliz pela segunda vez.
- Algo me disse que te encontraria aqui!
 - Pai?
- O Carlinhos me contou o que houve. Você realmente a ama?
- Olha, pai... eu sei que o senhor não acredita nessas coisas, que tem vergonha de mim, mas...
- Eu acredito! Sempre acreditei e admirei quem tivesse coragem o suficiente para admitir, mas isso quando era longe de mim. É a primeira vez que acontece tão próximo. Eu sempre via as pessoas sofrerem por causa do preconceito, apanharem, serem discriminadas em todos os lugares. E você é minha garotinha, não queria isso para você. Mas percebi que você é muito mais corajosa e mais forte que eu imaginei. É até mais corajosa que eu. Não vou pedir que me perdoe, mas quero que saiba que o que eu sempre fiz, foi tentar te proteger.
- Pai, eu te amo!
          Nem é preciso dizer que me acabei em lágrimas. Voltei para casa seguindo o carro de meu pai. Sabia que não seria feliz sem ela, mas já era o suficiente ter o apoio dele. O tempo foi passando e aos poucos fui me acostumando com a dor. Passei um ano de intercâmbio na Austrália, depois mais seis meses no Canadá. Durante a viagem, enviei à ela um telegrama, com dedicatória e poucas palavras. Nunca recebi resposta. Quando voltei ao Brasil, comecei a trabalhar numa agência de Publicidade. 
          Dois anos se passaram desde que estive no litoral pela última vez. Meu pai queria a família reunida no natal. E partimos para a cidade praiana do meu amor de adolescência. Fotografando o calçadão da orla da praia, encontrei aquele rosto conhecido. Ela estava tão bem, sorrindo, sentada na areia, com mais alguns amigos, tomando água de coco. Petrifiquei-me ali mesmo, sem tirar os olhos dela, com vontade de correr e abraçá-la, mas sem encontrar coragem. E se ela me odiasse? Se nem se lembrasse de mim? Eu não tinha o direito de estragar sua diversão. Seria melhor ir embora e guardar, para sempre, aquela cena do seu lindo sorriso. Guardei a câmera e voltei para casa.
          Aquela noite fizemos um luau na praia. Peguei o violão e, em volta da fogueira, com minha família e amigos, cantei algumas canções. Alguém puxou aquela música que ela sempre cantava para mim. “Ela me faz tão bem, ela me faz tão bem, que eu também quero fazer isso por ela.” Acompanhei com alguns acordes. O refrão me machucou. Terminei de tocá-la, entreguei o violão ao meu primo e me levantei.
- Aonde vai?
- Dar uma volta.
- Sozinha?
- Sim. Não demoro. Só quero molhar os meus pés.
          Enquanto um pedaço de mim tocava uma parte mínima do grande Oceano Atlântico, eu pensava em como seria tê-la ao meu lado, naquele momento. O amor é assim mesmo? Acho que sim. Não tem idade, não tem sexo, nem distância ou barreiras que o faz acabar. O amor não tem limites nem medidas. O amor é assim, belo e formoso. Até sua dor, a mais forte de todas, é uma dor que você, no fundo do seu coração, gosta de sentir. O amor é masoquista. Quem nunca sentiu um amor tão forte assim, não deve ter sido feliz. Sou feliz só pela certeza de que existe, no mundo, alguém como ela, que me faz suspirar de paixão, que me faz tanto querer um bem a outro alguém, que faz dos meus sonhos os mais lindos, que me aquece de ternura nas noites de inverno e refresca meu coração nas tardes quentes de verão. O amor é isso e mais um pouco. Muito mais um pouco. Não sou capaz de descrevê-lo como se deve. Acho que ninguém nunca foi. Mas sou capaz de senti-lo. Um amor não deve ser esquecido e, quando verdadeiro, deve ser conquistado inúmeras vezes, cada dia, cada segundo. Eu não poderia desistir desse amor. Jamais. Fui até a casa dela, a pé mesmo, pela praia. As luzes noturnas eram tão belas, mas nada se comparava ao brilho da lua. Ela estava feliz e eu, confiante.
- Oi, Carlos! Sei que está um pouco tarde, mas eu preciso falar com a tua irmã!
- Oh, minha querida! Ela acaba de sair!
- Sabe para onde ela foi?
- Acredito que na Portuários. Hoje tem show de Lulu Santos.
          Peguei o primeiro táxi que passou e entrei na Portuários.  Lulu cantava Assim caminha a humanidade. Eu a procurei por toda a parte. A casa estava cheia. Ela sempre amou as canções do cara. Na certa estava na primeira fila. Com muito esforço, após três cotoveladas, cinco bate-cabelos, cheguei na metade da pista. Já estava em Aviso aos navegantes. Mais algumas pisadas no pé, aquele espirro nada agradável na minha direção, pessoas pulando e cantando com o cara.
          Cheguei à primeira fileira bem no momento em que ele canta AQUELA canção. “Ela me encontrou, eu ‘tava’ por aí, num estado emocional tão ruim...” Fiquei parada, sem reação, olhando para aquela interpretação, e me vinha à cabeça imagens de nós duas. A primeira vez que ela cantou essa música para mim foi no nosso primeiro verão. Eu a julguei me esquecer logo que as férias acabassem. Ela me prometeu que isso jamais aconteceria. Me pegou em seus braços, beijou meus lábios e começou a cantar. Em todas as cartas que me mandou, havia um trecho dessa canção. “De ser querer bem, de se querer quem se tem...” Eu já não mais a tinha. Havia fracassado, pela segunda vez, na tentativa de pedir perdão. Ela não estava por lá.
          Mas então uma luz iluminou a multidão, e pude encontrar seus olhos rasos d’agua, acompanhando a canção. Seu olhar encontrou o meu, e seguiram-se vários segundos sem que pudéssemos reagir. Parecia tão surreal. Pude sentir sua respiração forte, mesmo com o público pulando e o som ao vivo invadindo cada milímetro quadrado do ambiente. Ela desviou cinco pessoas que estavam em nosso caminho e pulou em meus braços. Como eu desejei poder sentir, novamente, esse abraço. Passamos o restante da canção assim, abraçadas, sentindo as batidas do coração uma da outra, sem dizer uma palavra. E pela primeira vez, em doze anos, eu disse que a amava.