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Há um caminho. E no caminho muitas curvas. E nas curvas o perigo. E no perigo o medo. E no medo a razão. Não sei há quanto tempo percor...




Há um caminho. E no caminho muitas curvas. E nas curvas o perigo. E no perigo o medo. E no medo a razão.

Não sei há quanto tempo percorro esse caminho, nem por quanto tempo hei de percorrê-lo ainda. Mas avisto, ao além, a mais nobre premiação dos amores que trago no peito. Desventuras incompletas, sê-lo por fazer a mais certa.

Não trago nada além da verdadeira paixão. Eis minha coroação.




Desde criança eu escondo meus medos. Inflijo a lei da sinceridade e minto à mim mesma. O alto de um morro ou a janela do apartamento do último andar me davam vertigens. Mas eu não podia demonstrar. Pelo contrário. Fazia questão de subir à mais alta pedra do morro, ou sentar-me à beira da janela do último andar.
Enfrentava meus medos, como se fossem esses meros lampejos. Não admitia qualquer receio.
Havia, certa vez, uma cobra d'água no caminho do colégio. Em meus 7 anos mal poderia diferenciar essa de uma cascavel. Mas meus olhos arregalaram-se de fato, meus lábios secaram, meu coração de um salto disparou. Mas algo impulsionou-me a enfrentar aquele medo. Pisoteei o animal sem dó.
Ainda hoje não suporto o fato de sentir o medo e não enfrentá-lo. Uma de minha atividades favoritas é pegar o carro com os amigos e ultrapassar os limites de velocidade. Quão prazer sinto com o disparo do coração ao descer íngremes ladeiras, ao voar pelas curvas, ao transformar a leve brisa na mais forte ventania.

E todos meus medos foram efêmeros. Indignos de qualquer sacrifício. Até que conheci você...

Tenho medo de dizer 'oi', e não ser respondida.
Tenho medo de desejar 'boa noite' numa noite vazia.
Tenho medo de dizer 'bom dia' quando você não puder me ouvir.
Tenho medo de lhe estender a mão enquanto meus braços forem curtos para lhe alcançar.
Tenho medo de lhe pedir ajuda quando você não puder ajudar.
Tenho medo de querer agradar e acabar por ser inconveniente.
Tenho medo de falar, quando deveria escutar.
Tenho medo de esperar o que não poderá vir.
Tenho medo de desenhar uma imagem que não há como ser verdadeira.
Tenho medo de lhe oferecer o mundo e não possuir nem a metade.
Tenho medo de te carregar ao horizonte e descobrir que não há como voltar.
Tenho medo de que meu nome um dia seja substituído por outro qualquer.
Mas acima de tudo, tenho medo que tudo o que sinto por ti, que posso dizer é mais forte que qualquer outra sensação que eu já tenha experimentado, acabe um dia.

E esses medos, minha cara, não posso enfrentar.
Tantas vezes planejei o momento de te encontrar, mas uma lista de medos e receios caiu sobre minhas mãos, e qualquer impedimento serviu como desculpa para adiar esse momento.
Tantas vezes digitei um 'olá', ou um 'bom dia', mas meus dedos deletaram cada caractere com receio do que pudesse vir como resposta, ou pior, da ausência de resposta tua.
Tantas vezes escrevi poemas simples, como aqueles que escrevia aos 12 anos, mas apaguei com medo de ser mal interpretada ou parecer infantil demais.

E a ideia sempre surpreende ao perceber que o final é o mesmo do início. Voltas e voltas e um de meus medos, que se une agora ao medo de admitir, é saber que um dia posso eu sentir o mesmo por outra pessoa. Disso sim, tenho medo e não consigo impedir-me de senti-lo.
Você diz temer que meu amor seja apenas em palavras. Eu temo que você possa estar certa, algum dia. E isso me corrói a alma a cada segundo, pois, se não é amor, que é isso que sinto então?

Mas o que mais destrói meu coração, é saber que não sou a pessoa certa para você. E tanto tenho medo de um dia te magoar. Não suportaria ver nos teus olhos o sofrimento causado pelos meus. E tanto tenho medo e medo maior de enfrentá-lo, que lá no fundo sinto um alívio ao saber que outra pessoa lhe faz feliz. E por estar feliz com outra pessoa, sei que está protegida de mim, e assim poderei estar sempre com você, ao teu lado, mesmo não estando perto, pois o medo maior que possuo é de um dia te perder...

Pela janela do carro, eu podia ver Anna do outro lado da rua, fechando a porta de casa. Seis horas da manhã. Edu, seu vizinho skatista, atra...



Pela janela do carro, eu podia ver Anna do outro lado da rua, fechando a porta de casa. Seis horas da manhã. Edu, seu vizinho skatista, atravessava a calçada em direção à escola. Dona Marta saía para passear com o cãozinho que ganhara do filho mais velho. Seu Adalto cumprimentou minha amiga. O entregador de jornal, atrasado, quase lhe acertou a testa ao lhe jogar as notícias. Anna não se importou em ler nenhuma. Ela encarava os papéis com o carimbo da clínica que estavam em suas mãos. Suas mãos trêmulas seguravam os exames. Várias letras miúdas e termos impossíveis de serem entendidos por uma designer. Positivo, negativo, medula óssea, mielóide, blastos, LMA... o que eram todas aquelas coisas? Deveria esperar mais duas horas até ser chamada pelo especialista. Deveria esperar mais duas horas para saber se estava com câncer ou não.
            Anna estava com medo, ansiosa, receosa. Ouviu depoimentos de pessoas que passaram pela doença. Depoimentos também de pessoas que perderam alguém para a doença. Viu casos na televisão. A novela apresentou o sofrimento da personagem. Do outro lado da rua, eu esperava no carro. Duas buzinas trouxeram Anna de volta. O que ela deveria fazer? Correr e chorar nos meus ombros? Ou melhor seria acalmar-se e ir confiante à clínica? Ao atravessar a rua, quase foi pega por uma moto acima do limite de velocidade. “Melhor seria morrer de uma vez, que passar pelo sofrimento de uma longa doença”, pensou.
            Anna Luisa Signorelli é designer, 23 anos, mora sozinha no apartamento de três quartos na Rua Sena Madureira, Vila Mariana, na zona sul de São Paulo. Não fala com o pai há dois anos. A mãe foi embora quando ela tinha 5. A única família que tem é seu irmão Kevin, que mora no Rio de Janeiro, e sua prima de terceiro grau Sophia, que passa longas férias em Barcelona. Aos primeiros sintomas, recorreu à única pessoa de confiança que poderia acompanhá-la em todos os exames: eu.
            O trajeto, que geralmente dura uma hora e meia, foi percorrido em quarenta minutos. Não havia trânsito, ou buzinas, ou pessoas xingando outras logo pela manhã. Ao chegar à clínica, Anna e eu fomos para a sala de espera, onde permaneceríamos por quase uma hora e meia, à espera da resposta. Éramos duas amigas sempre com assuntos pendentes, conversas para ‘botar em dia’, mas naquela manhã, o momento pedia silêncio. Um constrangedor silêncio. Eu não sabia o que fazer, se devia consolá-la, ou contar piadas. Não sabia se era hora de lembrar as cenas da nossa infância, episódios que prometemos jamais esquecer, ou isso iria soar dramático demais para a ocasião.  E ela já estava chorando.
            O fato é que eu estava com medo. Tanto quanto ela, tanto quanto não imaginei que pudesse estar. Meu medo aumentou, quando a ouvi dizer: “O que eu acho mais engraçado é que quando você está bem, ou parece estar bem, encontra mil e um motivos para reclamar da vida.” Lágrimas escorreram pela sua face, um momento de pausa antes de continuar a falar. A gagueira, que na adolescência chegava a ser um charme, naquele momento transmitia desespero. “Há sempre alguém, em algum momento, que diz que preferia estar morto, ou mesmo nem ter nascido. Mas quando algo do tipo acontece, é impossível controlar esse medo, essa angústia de dentro de você.” Um outro momento de pausa. O farol fechado. Rádio desligado. A avenida ainda vazia. Só o soluço de Anna irrompia o silêncio por alguns segundos.  Tentei dizer algo, mas uma vontade de chorar controlava minhas ações. Uma palavra, e eu gaguejaria tanto quanto ela. Melhor seria esperá-la falar. “Não é só o medo da morte que eu digo, mas o medo de não viver, de deixar de desfrutar da beleza da vida, de não mais poder tomar uma água gostosa, não mais sentir o cheiro de uma flor em meio a tantos espinhos, medo de não mais provar o sabor de uma nova especiaria culinária.”. Enquanto Anna falava, algumas cenas vinham à minha mente, como a primeira vez que fomos ao cinema, a lasanha que ela tanto havia prometido e acabou deixando queimar, a batida de maracujá, os livros que lia e fazia questão de resumi-los à mim e quando tomávamos banho de mangueira no quintal, num dia de verão. “O medo de não saber o que vai acontecer com os meus amigos, medo de nunca mais falar com meu pai, ou jamais encontrar minha mãe. Medo de nunca mais poder desenhar, nunca mais passar madrugadas terminando um trabalho para entregar nas primeiras horas do dia, ou ir à praia, jogar futebol no campinho molhado, sentir a chuva tirando o peso de um cansativo dia de trabalho. É disso que tenho medo. Não é do que pode vir após a morte, mas o que não virá depois dela.”. E uma última cena ficou marcada em minha memória até chegarmos à clínica, quando Anna e eu demos nosso primeiro beijo, sete anos atrás. “Nada de ruim vai acontecer com você, Anna. Eu prometo.” Foi tudo o que consegui lhe dizer, enquanto a lágrima caía, disfarçadamente, sobre meu rosto.
            O relógio branco acima da bancada da recepcionista confirmava: a longa espera se prolongaria por mais cinquenta minutos. Uma senhora, acompanhada da neta caçula, também esperava o resultado dos últimos exames. Tem sofrido com a doença há meses. Perdeu o cabelo, devido o tratamento de quimioterapia, perdeu o gosto pelas coisas. Desiludida, aguardava a sentença final.  A neta, uma jovem universitária, na certa com a mesma idade da Anna, desesperava-se com as duras palavras da mulher. O médico chamou a senhora. A neta a seguiu. Minha amiga prometeu-me que, com doença ou não, jamais faria pesar em seu peito, ou nas pessoas ao seu redor, a dor da desilusão. Prometeu-me ser forte, até o fim. A sala ficou silenciosa, exceto pelo discreto barulho do movimento dos ponteiros no relógio branco acima da bancada. Tic tac tic tac...
            Vinte minutos para o atendimento. Anna já havia folheado todas as 30 revistas da sala. A recepcionista acessava o Facebook. Uma muda TV ligada exibia o jornal matinal. Acidentes de trânsito, roubos e assaltos pela madrugada, tempo, dicas de saúde e eventos culturais. Anna estava impaciente. Olhava para a porta da sala do médico a cada cinco segundos. Seus olhos expressavam terror. Olhou em minha direção, com as lágrimas de volta em seu rosto. Dessa vez soluçava. Soluçava forte. Seu olhar pedia ajuda, pedia consolo. Só pude abraçá-la forte e dizer que tudo ficaria bem. Abraçamo-nos por cerca de 8 minutos, até sermos interrompidas por uma grave voz. O médico nos chamava.
            Anna entrou sentindo um forte calafrio percorrendo seu corpo. Tremia forte. As pernas balançavam. O médico, acostumado a lidar com situações difíceis, acalmou-a e ajudou-a a sentar na confortável cadeira.  Doutor Aurélio começou explicando os sintomas da minha amiga. Falta de ar, fadiga, hemorragia, as várias infecções... quanto mais ele falava, mais confusa Anna ficava. “Identificamos em seu sangue a presença de blastos que, acumulados na medula óssea, interferem na produção comum do seu sangue.” Ficamos mudas. Não entendemos bem a situação, ou tínhamos medo de raciocinar o que acabara de ser jogado em nossas mãos. “Doutor” – perguntou minha amiga – “o que isso significa?”. O médico me olhou com cautela, como que solicitando meu auxílio para apoiá-la naquele momento. Acenei positivamente com a cabeça, demonstrando meu entendimento. Anna, ao ver toda a movimentação, começou a chorar novamente.
“Você está com leucemia mieloide aguda, que chamamos de LMA. É um câncer presente nos glóbulos brancos. É mais comum em adultos, mas posso já lhe tranquilizar que as chances de cura são grandes.” O LMA é um câncer raro, mas ainda mais raro é o índice de mortalidade desse tipo de câncer. Anna deverá passar por sessões de quimioterapia e, se tudo der certo, estará livre de um transplante de medula óssea. Caso contrário o transplante será essencial, mas o oncologista afirmou que Anna não deveria se preocupar com essa fase, nesse momento. O mais importante era ela estar firme e segura durante o tratamento da quimioterapia. “É importante também você descansar, estar com amigos ou familiares. Você tem uma espera ainda maior, pela frente. O da cura. E ela depende exclusivamente de você.”. Com essas palavras, o médico entregou todos os exames e alguns medicamentos para iniciar o tratamento. Entregou também um pedido de alguns exames menores. Ele estava certo. O tratamento, agora, só depende dela. E ela vai esperar pela cura, vai batalhar por ela. 

Ela tentava olhar por entre as frestas da janela de madeira. A cortina foi fechada friamente. Não poderia haver espiões. A briga no interior...

Ela tentava olhar por entre as frestas da janela de madeira. A cortina foi fechada friamente. Não poderia haver espiões. A briga no interior da sala rompeu o silêncio com gritos assustadores. Insultos, palavras incertas, insônia.
A porta se abriu violentamente, formando uma rajada de vento que quase derrubou a menininha. Aquela última briga, ela jamais iria querer lembrar, mas seria impossível esquecer.

O tempo passou depressa. As noites de insônia só aumentaram. Nunca houve brilhantismo em teu caminho. Poucos sabiam teu nome. Muitos a odiavam. Ninguém lhe amava. Era infeliz e não sabia. Nunca havia experimentado o amor. Já tivera outrora algumas paixões. Acabaram tão rápido quanto começaram. Não era feliz.

Do espaço houve espaço para lançar-lhe a dor. Em um momento de raiva jogou tudo para o alto e sumiu. Os poucos que a conheciam, nunca mais souberam sobre a menina. Mais um corte brusco no tempo trouxe aos ausentes a enxurrada de calor. Ela voltou com o outono. Uma fria folha seca com a jovialidade estampando seu sorriso. O distante fez-lhe bem. A então menininha dos olhos assustados hoje seduz e reúne enamorados. Mas ainda não sabe o que é felicidade.

          Vez ou outra algumas cenas marcantes passam pela minha cabeça. A primeira vez que cortei meus pequenos cachos num salão, a fo...



          Vez ou outra algumas cenas marcantes passam pela minha cabeça. A primeira vez que cortei meus pequenos cachos num salão, a forte onda me puxando na beira do mar, a sensação de voar pelos braços de meu pai, derramar o sorvete em toda minha roupinha rosa de babado, o primeiro dia de aula, as primeiras palavras escritas, os primeiros amigos, o primeiro beijo, as viagens em família, meu primeiro encontro, andar de patins pelo calçadão, as fotos com as melhores amigas, enterrar os pés na areia, minha primeira lágrima de amor, as baladas da adolescência, paixões de uma noite, minha primeira viagem com os amigos, a formatura do colégio, o vestibular, a vida nova como universitária, a chegada de novos amigos, os desencontros com os antigos, ou até mesmo os reencontros, um novo amor, aquela sensação de que é verdadeiro, o primeiro emprego, as despedidas...
          Vez ou outra algumas cenas avulsas passam pela minha cabeça. Um brinquedo que eu nem gostava, um momento em frente ao espelho, um passeio pelo shopping, a construção de um edifício na rua de casa, os meninos empinando pipa, a dona Vera lavando a calçada, seu Raimundo cuidando da padaria, a segurança local vigiando o bairro... e aqueles olhos. Nunca descobri seu nome, mas seu olhar me acompanhou por toda a minha adolescência.

Imagem Google            Um amor não deveria ser discriminado. É tão lindo ver duas pessoas se olhando, se curtindo, se querendo e se amando...


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          Um amor não deveria ser discriminado. É tão lindo ver duas pessoas se olhando, se curtindo, se querendo e se amando. Mas como vencer as barreiras se o preconceito existe dentro do próprio lar? Meus pais nunca aceitaram minha sexualidade. Cresci com o conceito de que mulher deveria gostar de homem e homem de mulher, que era errado e vergonhoso duas pessoas do mesmo sexo se amarem. Sociedade hipócrita que comete os mais absurdos erros e os camufla atacando inocentes amantes como nós. Eu amei e não pude viver este amor. Pedi a ela que saísse da minha vida.
          Com o tempo percebi que minha felicidade não dependia do julgamento alheio. Meus pais continuavam contra, mas eu já não podia esconder minha verdadeira identidade. Na festa de formatura da faculdade decidi viver minha própria vida. No dia seguinte viajaria os 120 km que nos separava. Meu pai disse que se eu saísse, seria para nunca mais voltar. Mesmo com aquela dor no coração, eu já havia tomado a decisão. Peguei o velho Ford e segui à Santos, com uma pouca bagagem e bastante determinação.
- Minha irmã está no Rio.
- Rio de Janeiro? Mas porque ela foi embora?
- Depois que você a mandou para fora da tua vida, muita coisa aconteceu. Perdeu o emprego, não conseguia mais estudar, depois veio a morte do meu pai. Ela brigava direto com minha mãe, e então decidiu ir. Disse que iria para São Paulo mesmo, mas não sei por que mudou de ideia.
- Sabe como posso encontrá-la?
- Entre, vou pegar o telefone.
          A casa era a mesma, só os móveis estavam em disposições diferentes. Os troféus de natação ainda sobre a estante. Enquanto ele procurava pelo número de telefone, fui até seu quarto. O mesmo quarto lilás, cobertas claras sobre a cama, a janela ainda emperrada, o abajur da Disney, a pilha de CDs importados e os DVDs românticos. Na parede principal, o painel de fotografias. Eu estava em quase todas. Dentro da gaveta semiaberta, todas as cartas que lhe escrevi. Nosso amor de verão se tornou eterno.
- Está tudo exatamente igual!
- Sim. Minha mãe, apesar da mágoa, ainda acha que ela irá voltar. Bem, aqui está o endereço, telefone, a faculdade em que ela estuda e o endereço de onde ela trabalha.
- Valeu, Carlos. Te devo essa!
- Bianca, eu nunca me dei muito bem com minha irmã, mas eu quero o melhor para ela. Aqui está o endereço, mas é importante que você saiba – Ele parecia procurar as palavras certas, mas estava com receio em dizê-las – a Laura está feliz, com outra pessoa. Ela sofreu muito quando você foi embora. Se você ainda a ama, não estrague essa felicidade que ela recuperou!
          Aquilo me destruiu. Eu a mandei embora da minha vida, porque tinha que estar tão surpresa por ela já ter outro alguém? Peguei meu carro e rodei por toda a cidade. Os verões mais lindos foram ali, ao lado dela. Parei na orla da praia e deitei na areia. Aquela lua que observamos tantas vezes juntas parecia tão triste quanto eu. Os sons das ondas do mar eram minhas lágrimas silenciosas. Arrependo-me de ter dito adeus, de não ter aproveitado mais os momentos ao seu lado. Não havia como voltar atrás. Eu não iria fazê-la infeliz pela segunda vez.
- Algo me disse que te encontraria aqui!
 - Pai?
- O Carlinhos me contou o que houve. Você realmente a ama?
- Olha, pai... eu sei que o senhor não acredita nessas coisas, que tem vergonha de mim, mas...
- Eu acredito! Sempre acreditei e admirei quem tivesse coragem o suficiente para admitir, mas isso quando era longe de mim. É a primeira vez que acontece tão próximo. Eu sempre via as pessoas sofrerem por causa do preconceito, apanharem, serem discriminadas em todos os lugares. E você é minha garotinha, não queria isso para você. Mas percebi que você é muito mais corajosa e mais forte que eu imaginei. É até mais corajosa que eu. Não vou pedir que me perdoe, mas quero que saiba que o que eu sempre fiz, foi tentar te proteger.
- Pai, eu te amo!
          Nem é preciso dizer que me acabei em lágrimas. Voltei para casa seguindo o carro de meu pai. Sabia que não seria feliz sem ela, mas já era o suficiente ter o apoio dele. O tempo foi passando e aos poucos fui me acostumando com a dor. Passei um ano de intercâmbio na Austrália, depois mais seis meses no Canadá. Durante a viagem, enviei à ela um telegrama, com dedicatória e poucas palavras. Nunca recebi resposta. Quando voltei ao Brasil, comecei a trabalhar numa agência de Publicidade. 
          Dois anos se passaram desde que estive no litoral pela última vez. Meu pai queria a família reunida no natal. E partimos para a cidade praiana do meu amor de adolescência. Fotografando o calçadão da orla da praia, encontrei aquele rosto conhecido. Ela estava tão bem, sorrindo, sentada na areia, com mais alguns amigos, tomando água de coco. Petrifiquei-me ali mesmo, sem tirar os olhos dela, com vontade de correr e abraçá-la, mas sem encontrar coragem. E se ela me odiasse? Se nem se lembrasse de mim? Eu não tinha o direito de estragar sua diversão. Seria melhor ir embora e guardar, para sempre, aquela cena do seu lindo sorriso. Guardei a câmera e voltei para casa.
          Aquela noite fizemos um luau na praia. Peguei o violão e, em volta da fogueira, com minha família e amigos, cantei algumas canções. Alguém puxou aquela música que ela sempre cantava para mim. “Ela me faz tão bem, ela me faz tão bem, que eu também quero fazer isso por ela.” Acompanhei com alguns acordes. O refrão me machucou. Terminei de tocá-la, entreguei o violão ao meu primo e me levantei.
- Aonde vai?
- Dar uma volta.
- Sozinha?
- Sim. Não demoro. Só quero molhar os meus pés.
          Enquanto um pedaço de mim tocava uma parte mínima do grande Oceano Atlântico, eu pensava em como seria tê-la ao meu lado, naquele momento. O amor é assim mesmo? Acho que sim. Não tem idade, não tem sexo, nem distância ou barreiras que o faz acabar. O amor não tem limites nem medidas. O amor é assim, belo e formoso. Até sua dor, a mais forte de todas, é uma dor que você, no fundo do seu coração, gosta de sentir. O amor é masoquista. Quem nunca sentiu um amor tão forte assim, não deve ter sido feliz. Sou feliz só pela certeza de que existe, no mundo, alguém como ela, que me faz suspirar de paixão, que me faz tanto querer um bem a outro alguém, que faz dos meus sonhos os mais lindos, que me aquece de ternura nas noites de inverno e refresca meu coração nas tardes quentes de verão. O amor é isso e mais um pouco. Muito mais um pouco. Não sou capaz de descrevê-lo como se deve. Acho que ninguém nunca foi. Mas sou capaz de senti-lo. Um amor não deve ser esquecido e, quando verdadeiro, deve ser conquistado inúmeras vezes, cada dia, cada segundo. Eu não poderia desistir desse amor. Jamais. Fui até a casa dela, a pé mesmo, pela praia. As luzes noturnas eram tão belas, mas nada se comparava ao brilho da lua. Ela estava feliz e eu, confiante.
- Oi, Carlos! Sei que está um pouco tarde, mas eu preciso falar com a tua irmã!
- Oh, minha querida! Ela acaba de sair!
- Sabe para onde ela foi?
- Acredito que na Portuários. Hoje tem show de Lulu Santos.
          Peguei o primeiro táxi que passou e entrei na Portuários.  Lulu cantava Assim caminha a humanidade. Eu a procurei por toda a parte. A casa estava cheia. Ela sempre amou as canções do cara. Na certa estava na primeira fila. Com muito esforço, após três cotoveladas, cinco bate-cabelos, cheguei na metade da pista. Já estava em Aviso aos navegantes. Mais algumas pisadas no pé, aquele espirro nada agradável na minha direção, pessoas pulando e cantando com o cara.
          Cheguei à primeira fileira bem no momento em que ele canta AQUELA canção. “Ela me encontrou, eu ‘tava’ por aí, num estado emocional tão ruim...” Fiquei parada, sem reação, olhando para aquela interpretação, e me vinha à cabeça imagens de nós duas. A primeira vez que ela cantou essa música para mim foi no nosso primeiro verão. Eu a julguei me esquecer logo que as férias acabassem. Ela me prometeu que isso jamais aconteceria. Me pegou em seus braços, beijou meus lábios e começou a cantar. Em todas as cartas que me mandou, havia um trecho dessa canção. “De ser querer bem, de se querer quem se tem...” Eu já não mais a tinha. Havia fracassado, pela segunda vez, na tentativa de pedir perdão. Ela não estava por lá.
          Mas então uma luz iluminou a multidão, e pude encontrar seus olhos rasos d’agua, acompanhando a canção. Seu olhar encontrou o meu, e seguiram-se vários segundos sem que pudéssemos reagir. Parecia tão surreal. Pude sentir sua respiração forte, mesmo com o público pulando e o som ao vivo invadindo cada milímetro quadrado do ambiente. Ela desviou cinco pessoas que estavam em nosso caminho e pulou em meus braços. Como eu desejei poder sentir, novamente, esse abraço. Passamos o restante da canção assim, abraçadas, sentindo as batidas do coração uma da outra, sem dizer uma palavra. E pela primeira vez, em doze anos, eu disse que a amava.

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          Um senhor de barba branca estava mergulhado em seu jornal do dia. A moça de cabelos cacheados folheava a revista de moda. Pela plataforma brincava um menino de 6 anos. Sua mãe desistira de tentar segurá-lo. Um jovem trajando um terno fino estava pendurado em seu aparelho celular. Um rapaz de mochila nas costas mascava chiclete e não tirava os olhos da moça de cabelos cacheados. Tudo me soava tão familiar e tão estranho, ao mesmo tempo. Tanto desejei voltar. A velha estação de trem que levava para a cidade onde nasci ainda era a mesma. Tantos rostos desconhecidos, com propósitos diferentes, mas o mesmo destino. Eu ficava me perguntando o que uma moça moderna como aquela de cabelos cacheados, faria numa cidade do interior. O rapaz com o chiclete parecia um estudante explorando a região. A mãe e o menino poderiam estar indo visitar a casa dos avós. O rapaz de terno, na certa um empreendedor procurando expandir seus negócios no campo. E o senhor? Parecia-me um cidadão nativo, mas o que fazia, então, na cidade grande? Talvez fora visitar a família de seu filho. Era sempre assim. Os filhos saíam de suas casas para tentar vida melhor na cidade grande. Sou exemplo nato. Sonhava em algo maior que uma cidadezinha camponesa aonde todos conhecem a todos, em que o prefeito vai almoçar na casa do ‘compadre’. Confesso que aquela vida me fez muita falta, na capital.
          Há muito eu não voltava para aquela cidade. Desde a morte de meus pais. Eu estava em meu segundo ano da faculdade, quando meu pai, voltando de uma festa um pouco embriagado, entrou na contramão e colidiu com uma carreta. Minha mãe faleceu na hora. Ele ainda lutou, naquela cama do hospital, por mais três dias. Fiquei ao seu lado, e o vi morrer. No velório revi todos os parentes e amigos, pela última vez. Meus tios estavam mais interessados nas propriedades de meu pai. Tomaz, meu melhor amigo desde a infância, apareceu apenas para se gabar de sua vitória na política. Os vizinhos só buscavam saber o que eu fazia na capital. Laura foi quem realmente se preocupou comigo. Era a única que poderia me desprezar, já que abandonei nosso amor pelo meu sonho de estudar na cidade grande. Ela estava tão linda naquele vestido preto, realçando sua pele branca, seus olhos azuis e seus lábios vermelhos. Seu olhar era de ternura. Me abraçou e então percebi que eu só tinha a ela. Meu primeiro e único amor.
          Quando todos finalmente foram embora, Laura permaneceu ao meu lado. Queria se certificar de que eu estaria bem. Compartilhava comigo a tristeza. Eu a vi pegar no sono e comecei a pensar no futuro. No nosso futuro. Quando toda a tempestade passar, eu a pediria em casamento e construiria, ao lado dela, uma família, na capital. Ela sempre sonhou em ter nossos filhos. Eu já possuía emprego fixo, um apartamento confortável, uma vida por lá. Só precisava dela ao meu lado. Mas todos os meus sonhos de um futuro ao lado dela foram embora com a lua. Ao amanhecer, Laura me contou que estava noiva de outro rapaz. Eu não sabia distinguir se aquele olhar era de pena, por eu ser um cara jogado no mundo sem família e sem amigos, ou era arrependimento por não ter me esperado. Não posso julgá-la. Eu havia ido embora, deixando claro que não queria, jamais, voltar.
          Mas eu estava voltando. Assim como aquela mãe com seu filho, ou aquele senhor de barba branca, eu estava voltando para meu lar. Senti uma pontada forte no peito, ao ouvir o apito do trem. Ele estava chegando para levar-me de volta ao lugar de onde eu não deveria ter partido. Esperei que todos entrassem no vagão. Com passos lentos, fui o último passageiro. Sentei-me ao lado do senhor de barba branca. Ele guardou sem jornal na velha bolsa de couro marrom, com a fechadura enferrujada em formato de cruz. Pelas pontas dos dedos e dos cigarros, e também pelas constantes tosses, logo se percebe que era mais uma vítima do tabaco. Olhou-me com ar de sabedoria, e perguntou-me se eu havia me arrependido de ter ido embora.
- Um pouco – Respondi envergonhado.
- Eu também me arrependi. Faz muitos anos. Mas tive meu tempo de consertar tudo. Perdi muita coisa, inclusive o amor da minha bela Rosa, mas reencontrei a paz, pude recuperar o tempo perdido com meus pais, pude conhecê-los melhor. Não troco aquele lugar por nada. Não entendo porque vocês, jovens, ainda insistem em querer mudar as coisas. Deveriam aprender com os mais velhos, como eu, que a partida nem sempre é a melhor coisa. Mas vocês são teimosos, querem provar que nós estamos errados.
          Ele estava certo. Mas já era tarde para eu me arrepender. Meus pais já não me esperavam em casa e a ‘minha bela Rosa’ estava casada com outro. A moça de cabelos cacheados, sentada bem à nossa frente, parecia ter deixado de lado sua revista para refletir sobre o que o velho me dizia. O rapaz de terno, sentado ao seu lado, me encarava com curiosidade. Seguiram-se alguns minutos de silêncio, até que o senhor continuou:
- Você não é o filho de Rubens Castro?
- Sim, eu mesmo! Conheceu meu pai?
- E quem não conheceu o velho Rubens! Fomos amigos dos tempos do colégio e também colegas de faculdade em São Paulo.
- Em São Paulo?
- Sim. Eu e seu pai fomos morar um tempo na capital. Era o nosso plano desde nossos catorze anos. Apesar de ter feito sucesso com os brotos, tudo o que ele desejava era terminar o curso e voltar para se casar com a Lucinha. Eu iria ser seu padrinho de casamento, mas a vida lá me pegou de jeito. Depois, quando voltei, seu pai já era um homem de posses, influente. Me senti envergonhado por não ter conseguido nada na vida e nem o procurei. Acho que ele nunca soube que eu voltei, pois se soubesse, ele teria ido me procurar, mesmo sendo eu um cara qualquer. Ele era um grande homem!
          Ele era sim. Mesmo sendo contra minha partida, me apoiou e me deu uma grande quantia em dinheiro para me manter na cidade. Ele também convenceu minha mãe a deixar-me ir, pois sabia que eu aprenderia a lição e um dia voltaria para casa. Mas infelizmente o destino adiou meu retorno e o levou cedo demais.
          Eu já avistava os campos da pequena cidade, pela janela do trem. Tudo estava igual como era antes. As irrigações, os pastos, os agricultores, as grandes casas de fazenda, os rios e ribeirinhos, os pássaros e o sol atrás da colina. Cenário maravilhoso. Qualquer poeta ou pintor adoraria retratar tal imagem. O senhor ao meu lado, percebendo o brilho nos meus olhos, deixou-me a sós com meu encantamento. Mais alguns poucos quilômetros me separavam da propriedade de meu pai.O trem deu seu último apito, estava chegando à estação final. Após o desembarque, o rapaz de terno me perguntou:
- Você é Pedro Castro?
- Sim. Você é...?
- Lucas Sabin. Acredito que você não vá se lembrar...
- Claro que me lembro! Fizemos o colegial juntos.
- Sim, faz muito tempo! 
- Que tem feito da vida? Todo elegante!
- Sou economista especializado em zonas rurais. E você? Ainda inclinado às artes?
- Sim. Sou escritor, músico e ator.
- Assisti a um de seus espetáculos há dois anos. Brilhante atuação!
- Obrigado!
- Estou surpreso por te ver aqui! Ouvi dizer que você jurou jamais voltar para esta cidade depois...
- Depois da morte de meus pais, evitei vir aqui, por que sabia que eu ainda não estava preparado para conviver com tudo isso. Ainda mais quando soube do casamento da Laurinha.
- Está indo para casa?
- Sim.
- Aceite minha carona, é caminho para mim!
- Se é caminho, aceito sim, obrigado!
          Lucas estava atencioso, modesto e seguro, bem diferente daquele garoto franzino que conheci na infância. Nunca me imaginei trocando mais de duas palavras com o nerdzinho da turma. Ele me contou das mudanças na cidade, da nova Igreja construída em frente à praça, da reforma do coreto, do novo comércio da região, novos grandes proprietários de terras, a economia da cidade, a prisão do meu antigo amigo Tomaz, alguns antigos colegas nossos...
- Fiquei fora por oito anos, mas não imaginei que as coisas haviam mudado tanto assim!
- Pois é! A maioria de nós está casada e com pelo menos dois filhos. Eles me fazem lembrar muito aquela nossa época. Nunca fui de me enturmar com vocês, mas me lembro bem das puladas de cerca, das mangas roubadas no quintal do Seu Joaquim, os banhos de cachoeira... Esses garotos mantêm a tradição!
- Laura também teve filhos?
- Sim. O pequeno Juan. Faz jus ao nome, é o galãzinho dessa nova geração! Faz lembrar bastante o pai, quando moço.
- E quem é o pai?
- Chegamos. Deixe-me ajudar com suas malas!
          A velha casa estava igualzinha, a mesma pintura, com apenas alguns retoques, o mesmo peitoril, a escada com três degraus, o assoalho marrom, a velha cadeira de balanço de meu pai e as plantas por toda a varanda. João Pires e Dona Glória, os caseiros da propriedade desde minha infância, vieram me recepcionar. Eles possuíam uma procuração da propriedade e a mantiveram durante minha ausência. Periodicamente, enviava-lhe recursos financeiros e outros agrados que me eram possíveis. Estavam apenas um pouco mais velhos do que eu recordava, mas mantinham aquele ar de jovialidade, aqueles sorrisos tão familiares e olhares carismáticos. Sempre me trataram como um filho. Como eu pude esquecer esse carisma por tanto tempo?
          Lucas foi embora e pude contemplar melhor a propriedade. A sala de estar ainda com aquelas poltronas antigas, sofá desgastado, uma mesa de centro de vidro. Os móveis eram de alto bom gosto e feitos da melhor madeira do mercado. Ao lado esquerdo da sala, o pequeno bar, com importadas garrafas de vinho e outros drinks finos. No corredor aquele tictac de madeira, antigo, ainda funcionando. Meu quarto ainda era o mesmo. A parede azul celeste, os livros sobre a escrivaninha, os scripts de algumas peças teatrais, o violão no futon, as fotografias em preto e branco nos porta-retratos e os cartazes de alguns ídolos espalhadas por toda a parede. Um típico quarto de adolescente, com uma cama de casal. Os quartos de hóspedes ainda cheiravam a novos. Acho que nunca foram usados. Nem quando meus tios apareciam em casa. Eles sempre saíam antes do anoitecer, para felicidade de meu pai. No fim do corredor, a suíte principal. Hesitei bastante antes de abrir as portas. Tudo estava perfeitamente igual. A cama de casal, feita sob medida, no meio do quarto, a janela com visão para o jardim de mamãe, os livros de meu pai, sua velha caixa de óculos, o guarda-roupa organizado, as fotografias guardadas no pequeno baú ao pé da cama, os lençóis brancos que mamãe tanto amava e o paletó de meu pai, pendurado próximo à sua cabeceira. Eu poderia até sentir o perfume dos dois. Só havia uma coisa diferente, naquele quarto, além da ausência de seus donos. No criado-mudo de mamãe havia uma pequena caixinha preta, de veludo, com uma placa de ouro, escrito “Castro”. Ao abrir, encontrei as duas alianças de casamento e o colar que mamãe usara desde meu nascimento, com o pingente de menininho, que meu pai lhe dera. João entrou no quarto naquele momento, e me disse que preferiu manter tudo como estava, porque sabia que eu iria gostar de encontrar dessa forma. Ele tinha razão. Quase pude sentir a presença de meus pais, ali conosco. Eles estavam felizes pelo meu retorno, tenho certeza!
- Como está o pasto?
- Um pouco mais rentável que a última vez que lhe escrevi. Sete cabeças de gado a mais. Temos também mais três cavalos e o galinheiro continua com a mesma média.
- Algum cavalo brabo que saiba recepcionar um recém chegado da cidade grande?
- Sim. Você vai gostar do Ventania. Cria de Napoleão.
- Gostei do nome! E ele é tão valente quanto o pai?
- Até um pouco mais. Quer dar uma volta?
- Com certeza!
          Incrível a semelhança entre meu falecido Napoleão e o novato Ventania. Galopei por toda a fazenda e depois pelos pastos vizinhos. Reconheci alguns rostos no caminho. Outros me eram novos. A cidade estava realmente mudada. A igreja possuía uma arquitetura invejável. Beatas conversavam na entrada, cochichando sobre a minha volta. A pracinha que tanto brinquei na infância estava ainda mais bonita, os garotos corriam e se divertiam. As meninas apreciavam as flores e alguns jovens casais apaixonados dividiam os bancos. Me lembrei da minha Laura. Voltei para a estrada e passei em frente às propriedades de sua família. A fachada ainda era a mesma. Só a casa havia sofrido uma reforma que a descaracterizou por completo. Na cadeira de balanço, lendo um livro de Ítalo Calvino, um rosto conhecido, envelhecido. Sua expressão era de cansaço e suas rugas tornaram marcas de uma vida calejada. O tempo não parece ter-lhe feito muito bem.
- Coronel Fontes?
- Pedrinho? É você, meu filho?
- Eu mesmo, Coronel! Como tem passado?
- Bem, muito bem, meu rapaz! Venha, entre, dá cá um abraço neste velho!
- Como senti falta de extrema gentileza e hospitalidade!
- Fico feliz em te ver. Veio à passeio?
- Ainda não tenho certeza.
- Seja bem-vindo de volta, meu filho! Você fez muita falta a este lugar!
- E este lugar também me fez muita falta! Não faz ideia o quanto!
- Soube que fez nome e fortuna nas cidades grandes. Sempre leio algo sobre você nos jornais.
- Sim. Sou um pouco conhecido pelo meu trabalho.
- Laurinha ficará tão feliz em te ver. – E virando-se ao interior do casarão, gritou – Laura... Laurinha!
- Laura está aqui?  - Perguntei surpreso.
- Sim. E continua linda, prendada e atenciosa como sempre. Meu orgulho! Entre, ela deve estar no quarto, vou chamá-la!
- Não, tudo bem, eu espero aqui mesmo!
          Eu não podia acreditar! Será que o marido e o filho também estavam na casa? Eu estava ansioso. Queria vê-la, mas tinha receio do que poderia acontecer. Um garoto galopava na estrada. Podia-se ver seu talento com as rédeas de longe. Brincava com o animal como se estivesse brincando com um amigo. Entrou na fazenda e correu em direção a casa. Será ele o fruto dela, o pequeno Juan? Lucas tinha razão, ele era um verdadeiro gentleman. Aproximou-se de mim e, de modo bem cavalheiresco, perguntou-me em que poderia me ajudar.
- Imagino que você seja o Juan!
- E você é Pedro Castro!
- Como sabe sobre mim?
- Todos falam de você: o tio Tomaz, o tio Lucas, tia Bárbara, vovô, a dona Francisca, dona Glória... assisti algumas apresentações suas, em São Paulo. Gostei quando você encenou Shakespeare, mas prefiro as comédias que você fez. E tenho todos os seus livros. Você poderia autografá-los, se quiser!
- Fico lisonjeado! E autografo com prazer!
- Obrigado. Vou tomar um banho antes que mamãe me mate e já te trago os livros.
- Tudo bem, vai lá garoto! Ficarei esperando!
          As palavras de Lucas não saiam da minha mente. Faz lembrar bastante o pai, quando moço. Durante todos esses anos imaginei que talvez Laura tivesse se casado com Tomaz, mas aquele garoto estava longe de parecer o encrenqueiro do meu antigo melhor amigo. Tomaz era arteiro e mal educado. Seu cabelo era castanho escuro, tinha sobrancelhas grossas e feições mais cruas. Juan era mais loiro, branquelo, feições e sobrancelhas finas, bem educado e gentil.
- Pedro?
          Olhei para os olhos de Laura, ternos, meigos, brilhantes e azuis. Ainda era a minha bela Laurinha. Meu primeiro e único amor. Tentei dizer alguma coisa, mas gaguejei e então me calei.
- Ora, ora! O escritor não sabe o que falar?
- Está tão linda!
- E você não mudou em nada!
- Eu falo sério, Laura!
- Eu também! Continua sendo o charmoso Pedro, galanteador e lindo... Meu Don Juan!
- Ele é meu filho, não é? - Ela me olhou assustada. Chegou a abrir a boca para falar, mas logo se arrependeu e continuou em silêncio. Foi o próprio silêncio que confirmou. Juan era filho meu. Fruto de nosso amor. Quase poderia explodir de felicidade. – Foi aquela noite, após o funeral. Eu achei que você ficaria comigo para sempre, mas... Oh, Laurinha, apenas diz que sim. Eu já sei a verdade, mas preciso ouvir de você!
- Sim, é verdade! – Ela abaixou os olhos, e começou a chorar. – Eu pensei em te procurar e contar tudo, escrevi um telegrama, mas nunca tive coragem de lhe enviar. Eu fiquei com medo.
- Com medo de quê, Laurinha? – Segurei seu rosto com as duas mãos e puxei-o a mim, falando bem baixinho – Eu estou tão feliz! Perdi toda a sua infância, mas agora poderei acompanhá-lo crescer!
- Acompanhá-lo? – Ela se afastou de mim, rapidamente – Acompanhá-lo como? Juan não vai para São Paulo!
- Não, não precisa ir, se ele não quiser. Eu ficarei aqui!
- E seu trabalho?
- Larguei a maioria das minhas peças. Participarei de apenas algumas poucas temporadas. Dedicarei meu tempo à produção de mais livros, e isso posso fazer aqui mesmo! Esse já era meu plano antes mesmo... antes mesmo de saber sobre o... ele sabe sobre mim?
- Sim. Preferi contar a verdade desde o início.
- E seu marido?
- Ele também sabia de tudo, desde o início!
- Sabia?
- Tomaz e eu estamos divorciados há seis anos!  E você, não se casou?
- Eu tentei, mas não deu muito certo. Nunca tirei você do meu coração. Laura, eu sei que estou dez anos atrasado, mas... case-se comigo?



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          Você pode me julgar, se quiser, pode dizer que não passa de uma efêmera paixão, que daqui a algum tempo esquecerei tudo o que sinto, pois não há nada de verdadeiro nisso tudo e vivo uma ilusão ou que procuro evitar o convívio social com outras pessoas com receio de sofrer, mas eu não vou mentir. Apaixonei-me por uma pessoa que conheci na internet. Sei os riscos de conhecer uma pessoa assim. Há casos na TV, na delegacia, nos jornais... Mas sabe quando você conversa com a pessoa por alguns poucos minutos e então percebe que há mais entre vocês que um simples bate-papo online? Distância ingrata que não me permitia vê-la pessoalmente. Nos primeiros meses era apenas agradável a troca de mensagens. Temos tanto em comum. Falávamos de música, cinema, teatro, televisão, polêmicas do meio artístico, profissões, nosso dia-a-dia, futuro e tantas outras coisas que surgiam aleatoriamente. Dez meses depois descobri que estava apaixonada.
          Eu estudava Publicidade, na capital de São Paulo. Ela era estudante de Psicologia, no interior da Bahia. Planejei várias vezes encontrá-la, mas tudo me impedia. Ela também não podia visitar-me. Declarei meu amor. Ela não esperava que meus sentimentos fossem tão ternos assim. Encantou-se com minhas palavras, mas seu coração estava amargurado, pois já havia sofrido uma vez. Os anjos são testemunhas do quanto lutei por seu amor. Jurei-lhe lealdade, dei-lhe as mais belas flores, mandava-lhe as mais lindas cartas de amor e prometi-lhe romance eterno. Mas minhas paixões nunca duravam mais que alguns meses. Ela sabia disso e tinha receio de que minhas palavras não fossem verdadeiras. Este foi o maior obstáculo entre nós, maior até que a própria distância. Nada que eu pudesse fazer ou dizer a convenceria de que meu amor não era apenas palavras.
          Ao fim de cinco meses percebi que uma parte de seu coração já era meu. Só em saber que alguns segundos de seus pensamentos eram direcionados a mim, eu sentia a imensa felicidade entrando em meu coração. Esse misto de dor e alegria que contagia o peito quando se está amando é bom de sentir, viciante, até. Durante as festividades de fim de ano tive provas de um carinho recíproco, o melhor presente que eu poderia ganhar. Senti em sua voz um tom diferente, uma candura que sempre desejei, suas palavras estavam mais leves, mais doces. O que mais me deu a certeza da reciprocidade foram os ciúmes que ela demonstrava. Nada mais me importava durante aqueles dois meses. Minha vida era dela, para ela, só ela.
          Em março os ventos mudaram. Não respondia mais minhas mensagens, não atendia meus telefonemas. Procurei entender no que eu errei. Nada. Não havia feito nada para que tudo se transformasse. Das poucas vezes que nos falamos, ela dizia ser apenas uma impressão minha, quando eu lhe questionava sobre tais mudanças. Eu não conseguia mais trabalhar, perdi a concentração nos estudos, sempre encontrava motivos para pensar nela. As músicas que dedicamos uma para outra me faziam chorar. Os filmes que ela me indicou me deixavam para baixo. Numa certa tarde perguntei-lhe se estava apaixonada por outro alguém. Ela apenas respondeu sim. Não precisou dizer mais nada. Meu mundo acabou naquele mesmo instante. Depois disso nosso único contato foi um telegrama que ela me enviou, dizendo adeus. Nunca respondi.
          Foi um ano muito difícil. Perdi o amor da minha vida, perdi meu pai, perdi a união da minha família, já não conseguia mais entender as teorias da faculdade, já não era capaz de criar minhas peças publicitárias, minha carreira no teatro estava acabando. Senti-me um lixo, um objeto desvalorizado e esquecido em plena Praça da Sé, jamais tocado por alguém, amado por ninguém. As pessoas ao meu redor tinham pena de mim e receio de se aproximarem. Como se eu fosse alguma doença contagiosa que espalha tristeza e melancolia. Alguns se metiam a opinar sobre minha rotina, mas eu sempre dava um jeito de expulsá-los da minha vida. Outros pareciam não falar a mesma língua que eu. Não conseguiam compreender minha aflição e eu não era capaz de justificar. O amor é muito mais do que as pessoas julgam. Sempre me disseram que um amor cura outro. Pode ser verdade, mas pode não ser também. Nunca houve, para mim, outro amor que me curasse este primeiro, único e verdadeiro.
          Estou formada há três anos, mas não trabalho na área. Sou atriz teatral e viajo o país inteiro. Encontrei algumas pessoas especiais, mas nada que durasse por muito tempo, devido minha instabilidade. Não tenho família. Amigos, só os do teatro. Não me permito me apaixonar por ninguém. Não me permito entrar no coração de alguém. Amar é sofrer. As pessoas me chamam de fria, insensível, incapaz de amar. Sempre me questionam o motivo de tamanha negativa ao amor. Não sei responder. Na verdade, não posso responder. Ninguém me entenderia mesmo. Só o que faço é viver a minha vida teatral. Faço dos meus dias a mais efêmera peça encenada. Sou roteirista e atriz principal de minha própria vida.
          O espetáculo daquela noite foi na cidade do samba e carnaval. Salvador, Bahia. Só alguns poucos quilômetros me afastavam da... Não, devo esquecer.  Como já disse, não me permito mais sofrer. A casa estava cheia, o palco era agradável, os atores excelentes e o roteiro impecável. Sucesso na certa, com aqueles belos toques de improvisação. Como eu amo a arte do improviso! Nada melhor para fazer-me esquecer tanto sofrimento. A peça encenada foi Sonhos de uma Noite de Verão. Fui Hérmia, apaixonada por Lisandro. Por que, diabos, um amor sempre é contrariado ou há sempre alguém para tentar estragá-lo? Como eu queria ter uma poção do encanto! Aplausos, aplausos! Como eu amo esse som! Todos aplaudiram de pé! Foi um sucesso! Camarim cheio, pessoas pedindo autógrafos. Não sabia que nossa Companhia Teatral era tão famosa assim!
          Todos finalmente se foram. A Companhia inteira foi comemorar o sucesso em uma taberna ali perto. Um brinde ao nosso sucesso, ao nosso amor pelo teatro, à nossa dedicação e um brinde por termos uns aos outros, somente!
- Excelente interpretação!
          Ora, ora. Uma fã nos reconheceu. A companhia logo se animou ainda mais. Virei-me para cumprimentá-la e quase se foi uma taça ao chão. Não era  possível! Meus olhos realmente estavam vendo isso? Cabelos soltos, vestido lilás, com detalhes verde musgo, fazendo lembrar uma das mais belas flores, a petúnia. Era ela. Tão pura, bela e sensual. Tão somente ela, meu amor virtual. Apressei-me em tentar disfarçar, diante dos meus amigos, minha estonteante surpresa. Não queria que eles soubessem de minha fraqueza. Permiti-me falar apenas ao ter a certeza de que minha voz não sairia trêmula,
- Obrigada, senhorita!
          Ela parecia surpresa com a minha indiferença. Isso me perturbou completamente. Como poderia ela não compreender que estava apenas me fechando para não chorar? Seu sorriso logo se fez molhado, seus lábios tentaram pronunciar alguma coisa, mas se fecharam. Seu olhar era de tristeza, decepção. Mais uma vez tentou falar, e tudo que conseguiu dizer, após desviar o olhar de mim, foi um austero sucesso, a todos vocês! Ela se virou e caminhou em direção à saída. Outro rápido brinde com o elenco e fui atrás dela.
- Espera! Desculpe por aquilo. Fiquei surpresa ao te ver, não sabia como reagir.
- Você reagiu da forma correta! Eu é que não poderia esperar mais que isso depois... – Ela me encarou, esperando que eu completasse sua frase. Pelo meu silêncio, ela ficou ainda mais triste e constrangida e continuou -  Depois de tudo o que aconteceu.
- A gente chega a uma etapa da vida e já não sabe mais se agiu da forma correta ou completamente equivocada.
- Eu não quero te atrapalhar. Seus amigos estão te esperando!
- Aonde você vai?
- Voltar para casa da minha tia.
E foi-se desviando de mim, afastando-se aos poucos, até dar as costas e caminhar adiante.
- Sozinha? Está tarde para ficar andando sozinha por aí. E está começando a chover.
- Ela mora por perto. Não precisa se preocupar.
          Insisti para levar-lhe com o carro da produção. Após tanta reluta, ela aceitou. Não falamos nada, no caminho. Parei bem em frente à casa de sua tia e a esperei descer e se despedir com um seco tchau, mas ao invés disso ela pegou um CD da bolsa e respirou fundo.
- Esse CD possui uma única faixa. É uma canção que eu mesma compus. Eu quero que você, ao chegar em casa, escute-a enquanto estiver se preparando para dormir, deitada em sua cama, enquanto a chuva cai do lado de fora. Depois de ouvi-la, por favor, não me procure. Basta que você saiba.
          Guardei aquele CD e voltei para o bar. Uma parte de mim queria ouvi-lo na mesma hora. Outra parte me impedia. Apesar da curiosidade, eu estava com medo do que aquela letra poderia me dizer. Ao final da temporada no norte do país, seis semanas depois, voltei para meu apartamento em São Paulo. Ao desfazer as malas, me dei com aquele CD. Realmente só havia uma única faixa. A voz era dela. Excelente melodia! Quanto à letra, me destruiu por inteira.
Meu coração morreu quando lhe disse adeus
Por que eu te amo, sempre te amei, desde o primeiro instante.

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          Sentada sozinha neste aeroporto lotado, olhando a porta de embarque, esperando que ela volte aos meus braços. Perverso sentimento que me toma numa fria tarde de inverno e faz questão de trazer, junto à geada, lembranças que ferem e perfuram meu inocente coração. Não há fogueira que queime amargas recordações ou que seja possível aquecer este peito carregado de decepções! Não deveria tê-la deixado partir. As lágrimas já não me permitem enxergar com exatidão. Melhor seria eu sair desse lugar, respirar um pouco de ar puro e reencontrar forças para poder continuar.
          Do aeroporto meu pensamento voa ao Parque da Luz. Foi ali que nos conhecemos. Fotografando peixes e pássaros, as lentes da câmera encontraram os mais lindos olhos que já vi, a boca mais bela e o rosto mais perfeito, com o sorriso sincero e radiante. Encantei-me de tal forma que não poderia deixar passar. Ela entrou na Pinacoteca. Discretamente, eu a segui. E ali dentro, observando a exposição de Paula Rego, iniciou-se uma troca de olhares e, minutos depois, a mais embaraçada conversa. Britânica, seu nome era Laurie. Mestre em História da Arte pela Faculdade de Artes de Paris. Um café, um passeio para mostrar a cidade, troca de telefones, encontro marcado.
          Foi uma das noites mais belas. Marcamos outro encontro, e depois outro, e mais um, e quando percebi, estava apaixonada. Levei-a ao teatro, certa noite. E, ao fim do espetáculo, ela me olhou com aqueles lindos olhos brilhantes de felicidade, aquele sorriso ainda mais belo que o normal, aquelas bochechas rosadas e o cabelo louro esvoaçando com a brisa da rua. Ela não queria um táxi, disse que preferia voltar a pé, para aproveitar o momento ao meu lado. Peguei levemente em suas mãos e a puxei junto a mim. Beijei-a, permitindo ao desejo falar mais alto. Ela retribuiu cada segundo. Abracei-a bem forte.
Nossos dias eram de pura luz, calor e amor. As noites eram banhadas com a paixão mais intensa e aquela vontade de tê-la sempre ao meu lado. Depois de um tempo mudou-se para o meu apartamento. Foram os dias mais lindos que vivi.
          Mas então chegou o momento da despedida. Seu trabalho no país havia acabado. A oradora deveria voltar aos museus da Europa. Minha felicidade então se transformou em desespero. O dia da partida se aproximava. Na véspera ela me abraçou ainda mais forte que antes, e disse, baixinho, pela primeira vez, que me amava e um dia voltaria para mim. Fiquei sozinha, chorando pela sua partida, sem ninguém que pudesse me entender, me emprestar seu ombro amigo e me fazer entender que o dia do retorno chegaria.
Dois anos se passaram. Conversávamos uma vez por semana, ao menos. Mergulhada em trabalhos, pensava o menos possível em nós duas. Mas quando a noite chegava, era impossível não sentir a falta daquele meu pedaço de felicidade no travesseiro ao lado. Já não ia mais ao teatro, não frequentava a Pinacoteca, não fotografava mais o Parque da Luz. Evitei os lugares que me faziam lembrar seu perfume, nossos momentos, nossas vidas juntas. É difícil continuar quando a razão do teu viver aparece por um breve momento e se vai, deixando uma marca tão profunda. Às vezes penso que melhor seria se eu nunca a tivesse conhecido.
          Na agência, um telegrama. Nova proposta de trabalho. Irrecusável. Cobrir um evento cultural na Estação da Luz. Apesar de minha reluta interna, aceitei a proposta. Equipe reunida. Evento iniciado. Naquele cenário foi impossível não recordar a primeira troca de olhares, o primeiro toque. Enquanto montava o equipamento, ouço uma velha conhecida voz:
 - Que bom que você aceitou esse trabalho. Ouvi dizer que há tempos você evita essa área. Mas eu queria muito trabalhar com você!
- Marina?
- Eu insisti, queria apenas você para esse trabalho!
Marina era uma colega da época da faculdade. Uma antiga paixão. Nosso relacionamento terminou de forma bruta. Pouco antes da formatura, graças aos ciúmes exagerados de ambas as partes. Nunca mais nos vimos, tampouco nos falamos. A jornalista dos meus sonhos de juventude estava ainda mais bela que antes. Seus cabelos avermelhados, seu sorriso de malícia. Um pouco de alegria tomou conta de mim, coisa que não acontecia desde que meu grande amor me deixou.
          O que seria um sacrifício tornou-se o mais agradável trabalho. A doce Marina me fez esquecer as preocupações que me afligiam nos últimos dias. Relembrou cenas engraçadas da época da faculdade, de pessoas inesquecíveis. Confesso que seu retorno me fez bem. Mas eu estava ciente que nada mais poderia haver entre nós. Era apenas amizade. Uma linda amizade que pensávamos ter acabado ainda na faculdade. A vida tem dessas coisas irônicas, de aproximar dois corações amargurados em momentos nada prudentes, para fazê-los salvarem-se juntos destas decepções. Após 6 anos de casamento, ela estava tentando encarar essa nova vida de solteira.
          Era madrugada, quando fui acordada pelo toque do telefone. Marina. Aflita, insistia para que eu a encontrasse naquele mesmo horário. Preocupada, corri à sua procura. Ela estava num bar nada agradável, daqueles botecos de esquina, envolta a vários sujeitos mal encarados, completamente embriagada. Chega a ser irônica a forma como algumas pessoas se autodestroem quando um relacionamento acaba. Levei-a para minha casa, dei-lhe banho e a fiz dormir. Passei o restante da noite inteira observando seu sono. Como ela era bela! A minha vontade era de acordá-la com um beijo e tê-la novamente para mim. Controlei-me o máximo que pude e saí de casa, para ter a certeza de que não faria tal besteira. Não havia dado certo uma vez, não daria certo agora também.
          Passei o dia inteiro na agência, sem conseguir produzir nada. Eu queria voltar para casa, mas tinha medo de encontrá-la ainda na cama e não controlar minha vontade de agarrá-la. Por outro lado havia o medo de não encontrá-la e saber que, mais uma vez, ela preferiu sair da minha vida. Ao fim do dia retornei e a encontrei na cozinha, com minha camisola e um sorriso inocente.
- Desculpe-me por ontem à noite. Não sei o que deu em mim.
- Não precisa se desculpar. O importante é que você está bem, agora. – Ela se aproximou o suficiente para eu sentir sua respiração se misturar com a minha, a ponta de seu nariz encostando-se ao meu, suas mãos em minhas mãos.
- Graças a você. Obrigada!
          E me beijou. Não pude me defender, pois meu íntimo pedia por aquele beijo. Era exatamente como eu me lembrava. Aquele mesmo sorriso misturado ao beijo, a mesma doçura ao brincar com a língua. Me rendi. Beijei-a com ternura, com paixão, com desejo e me senti flutuar. Era tão boa sensação.
Ao acordar e vê-la ao meu lado, na cama, parei por alguns segundos para ter a certeza de que a noite realmente havia acontecido. Foi tudo tão maravilhoso. Fiz o melhor café da manhã e levei na cama. Ela disse que nunca havia me esquecido, que sabia que nossa história não havia terminado e um dia teria novamente meu amor. Era tudo o que eu precisava ouvir. Reviver uma antiga paixão é das sensações mais prazerosas que um ser humano pode ter.
          Tivemos quatro anos de felicidade. A empresa completava quinze de fundação. Ela me ajudou com os preparativos para a comemoração. Cerca de 2.000 convidados, com direito a discursos e aumento de salários. Tudo corria tão bem, eu estava completa, satisfeita com a profissão e, principalmente, em minha vida pessoal. Entre drinks e brindes, ela sentiu uma forte dor no peito. Disse que estava tudo bem, mas eu não confiei. No dia seguinte insisti para que fôssemos ao médico. Em poucas semanas descobriu-se um tumor. Passamos meses lutando contra a doença. Até que, no outono daquele mesmo ano, ela me deixou.
Tentei cumprir a promessa: continuar trabalhando, caminhando, continuar vivendo por ela. Mas era cada vez mais difícil. Um ano depois deixei a empresa nas mãos dos meus sócios e decidi viajar o mundo, conhecer os lugares que ela sempre quis conhecer. Pensei em parar e voltar, esperar pela minha morte sentada no sofá. Mas eu a decepcionaria se fizesse isso. Maldita mania de sempre sofrer por amor.
          Londres era a última cidade da lista. Meu inconsciente pedia para procurar pela Laurie. Eu relutava, mas de nada adiantou. Amei perdidamente a Marina, mas não podia deixar de lado o fato que Laurie me fez feliz também. Foi um amor que valeu a pena, cada minuto. Se for verdade que possa haver dois grandes amores em um mesmo coração, estes foram os meus. Minha paixão londrina ainda estava viva dentro de mim. Bastou um simples telegrama. Encontrei-a num café. Estava frio e ela com charmosa echarpe branca.
- Achei que nunca mais a veria!
- Laurie! Está ainda mais bela que antes!
- Bondade a sua. O tempo não me foi favorável.
- Está enganada! O tempo lhe fez muitíssimo bem e ainda soube preservar este seu olhar inocente e...
- E...?
- Tentador! - Ela sorriu timidamente, olhando para baixo, como sempre fazia quando estava envergonhada. – Soube que tens feito a curadoria de alguns artistas brasileiros.
- Sim, me especializei em obras latinas. A América do Sul, em especial o Brasil, tem produzido obras de artes de grande valor. Às vezes até me sinto uma brasileira representando um produto de minha nação, tamanho o orgulho!
          A conversa foi pouca, boba, apenas um ‘café da tarde’. Apesar de nutrir por ela um forte sentimento, ainda estava sofrendo pela perda da Mari. Na certa fui uma péssima companhia, um olhar vazio, um sorriso sem graça, uma perda de tempo para ela. Na manhã seguinte voltei ao Brasil. Aquela viagem havia-me feito muito bem. Voltei a trabalhar com mais disposição, não sentia mais o amargo de minha casa vazia tanto quanto antes. Os pais da Marina me visitavam com frequência, sempre gentis e atenciosos, me tratavam como filha.  Era algo que eu havia conquistado e, por mais que me doesse ver nos olhos desses a tristeza da perda de sua única filha, gostava de ter-lhes por perto. Eu havia perdido minha mãe muito cedo e não tinha uma boa comunicação com meu pai. Eles eram a única família que eu tinha. E eu os amava como se fossem meus pais. Até que um motoqueiro embriagado tirou de mim esse pedaço de felicidade. Sofri duas grandes perdas, no mesmo dia.
          Parecia que o mundo conspirava contra a minha felicidade. Vendi o apartamento e comprei uma casa menor, num bairro mais seguro, onde eu pude ter meu tão sonhado muro baixo e vizinhos simpáticos. Adquiri um lindo filhote de Labrador e um recém-nascido Pastor Alemão. Thor e Nero. Dois meses foram suficientes para eu me arrepender da aquisição, destruíram toda a casa. Mas eu já havia me apegado a eles. Certa manhã, lutando com Thor para pegar o jornal, ouço uma voz conhecida, bem no meu portão:
- Lindos cães!
- Laurie?
- Eu disse que voltaria! Quer dizer, se você ainda me aceitar!
- Mas... Como... Eu não entendo!
- Eu errei ao ir embora e lhe deixar. Eu só precisava de um tempo para terminar meus estudos. Mas eu deveria ter-lhe explicado direito. Quando pude, finalmente voltar, você já estava com a Marina. Depois, quando você me ligou de Londres, achei que poderíamos ser o que éramos antes. Mas percebi que você ainda não estava preparada. Eu te amo, Marcela. E mesmo que você não esteja preparada, eu quero ficar ao seu lado.
- Laurie, nunca deixei de te amar. Depois que você partiu eu sofri muito, mas reencontrei a Marina e meu coração viu novamente a luz. Eu a amei, mas ainda tinha você em meu coração. Não posso dizer que amei mais a ela, ou amei mais você, mas... nossa história já acabou!
- Marcela, não podemos acabar desse jeito. Eu te amo e sei que você ainda me ama. Não impeça a si mesma de ser feliz.
          E me abraçou com tanta força, como que não quisesse jamais me soltar. Não posso negar que aquele abraço quase me fez voltar atrás com minha palavra, mas eu tinha que colocar um ponto final. Levei-a ao aeroporto e aqui estou, olhando para a porta de embarque, com uma enorme tristeza dentro de mim. Não deveria tê-la deixado partir pela primeira vez. Um cristal quebrado jamais volta a ser igual e dizer adeus pela segunda vez foi a melhor coisa que eu poderia fazer... por mim, por ela. 

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          Depois de inúmeros ensaios e desencontros, eis que finalmente possuo tempo para escrever-lhe a tão prometida carta virtual. Peço que me perdoe pela demora em apressar-te tua curiosidade quanto aos meus dias vulneráveis, efêmeros e felizes nesta imensa cidade cinza, a metrópole paulistana. Como sabes tenho por aqui uma difícil vida dividida pelo tempo entre trabalho, faculdade, mulheres e bebida. Tenho saudade extrema da nossa tranquila e pacata cidade, assim como tenho uma doce, porém ao mesmo tempo, amarga saudade de você. Não quero prolongar por mais tempo este ensaio sobre minha cegueira, queria apenas deixar-lhe mais curiosa e impaciente, então passemos direto ao ponto. Ou tentemos. (risos)
          Meu coração ainda dói, quando penso naquele amor que me deixou, que por outra já suspira e vive este outro amor intensa e alegremente. Estou feliz por ela, acredite. Mas ainda possuo dentro de mim aquela egoísta esperança de que um dia ela voltará para mim. Não gosto desse meu sentimento, pois pensando assim desejo, interiormente, que ela se dê mal neste relacionamento e desejo mal à outra também. Para não mais pensar em tudo isso, ou desejar profundamente o mal de outra pessoa, aprendi, e ainda estou aprendendo, com imensa dificuldade, a refletir meus internos sentidos em boas causas e palavras bem ditas e benditas. Estou em processo de repelir a parte cinza de meu coração, parti-la em diversos fragmentos cristalinos e transformá-la em positividade refletida em meu ambiente de trabalho, de estudos, de vida amorosa, de vida calorosa e carpe diem. A poesia voltou aos meus ares. Aquela mesma poesia que me deixou em 2008. 
Fiz um balanço de toda a minha vida e percebi que a maior mudança que passei não foi o processo de sair de casa e ter uma vida nova, completamente diferente, numa faculdade, com milhares de pessoas desconhecidas, na cidade de São Paulo. A maior mudança ocorreu em 2006. Sim, em 2006. Como você deve se lembrar, em 2005 eu senti pela primeira vez a sensação de nostalgia, de “meus amigos me deixaram e estou completamente sozinha”. Tenho vergonha disso. Aliás, tenho vergonha de todo este meu passado. Como eu pude ser amiga daquelas pessoas? Confiar nelas?
          Wherever... em 2006 eu saí desta vida maligna e vergonhosa e descobri a verdadeira amizade ao teu lado. Pouco conversava com Manu, mas já possuía por ela esse amor fraterno em potencial. Foi o ano de minha libertação, de minha descoberta, de minha vontade de gritar quem sou aos quatro ventos. Orgulho GLBT!
Foi em 2007, precisamente, que comecei a descobrir o verdadeiro significado de amizade. Soubemos viver, soubemos compartilhar os melhores e também os piores momentos. O mundo inteiro podia rebelar-se contra nós, ou nós mesmas poderíamos nos rebelar contra o mundo inteiro, mas tínhamos umas às outras. Eu era feliz e não sabia. Sábias palavras da pessoa que as pronunciou pela primeira vez!
          Conhecemos a Juliana. Natacha passou a fazer parte da ‘gangue’. “E o que há de novo nisso?”. Há todo esse sentimentalismo entregue no mais profundo e perfeito amor, dentro de nossos corações. Seremos eternamente uma união fraterna, um amor incondicional, uma felicidade extrema. Agora estamos todas distantes. Eu, em São Paulo, você no litoral, Manu no interior, Juliana em Marrocos e Natacha perdida com aqueles amigos idiotas. A Amanda nós perdemos há muito tempo... mas tenho certeza de que estamos ainda uma no coração da outra. Já não somos mais aquelas menininhas, já não somos adolescentes inconsequentes, de atitudes aborrecentes. Somos mulheres e mulheres bem sucedidas, à medida de nossos esforços e oportunidade. Somos mulheres que resolveram seguir caminhos diferentes, mas jamais distantes para nossos corações. Somos eu e você. E para sempre eu, você e elas. Elas, você e eu. Ela, ela, ela, e ela, eu e você. Inseparáveis ‘nós’.
          Resumindo o que quero dizer-lhe nestes poucos sutis parágrafos acima, o que percebi, cara e amada amiga, é que fui moldada por estes laços que nos unem. Já não posso sem eles viver esta nova vida que aspiro. Preciso destes ares nossos mesmo que em pensamentos, e já não vivo um segundo sequer sem que me lembre de nossas tão amadas manhãs e finais de semanas em comunhão. Não é que eu viva em estado de nostalgia, mas percebi que me faz bem saber que, apesar de tantas desavenças e dificuldades que tenho passado na capital, há um lugar maravilhoso, gostoso, aconchegante, lindo, estonteante, de beleza pura e simplesmente perfeito. Este lugar é ali onde criamos nosso amor. Este lugar é aquela pontinha do céu com a mais linda nuvem. O vento pode desfazer esta nuvem. As tempestades podem desmanchá-la, mas ela sempre volta. E nós voltaremos. É isso que me move. A certeza de um futuro compartilhado com as melhores pessoas que já conheci.
          Fiz aqui amigos leais, maravilhosos. Três em especial. Tenho certeza de que você os amaria, se os tivesse conhecido melhor. Aliás, tenho certeza de que você e a nossa família de nome europeu amará conhecer estes meus amigos daqui. Bianca, Tomás e Gabriel formam minha alma. E minha alma busca o reencontro com as de vocês. E então sim, poderei dizer que sou feliz como jamais poderia ser. Sou feliz, pois amo de verdade. E sou amada.
          Sofri e confesso ainda sofrer um pouco por saber que meu amor não ama a mim, mas aprendi a repelir estes maus sentimentos dentro de mim, refletindo em minha alma as boas coisas que já vivi e que ainda tenho para viver. De certa forma, numa certa distância, foi essa família que construímos que ajudou meu coração a respirar sem dor. Sem muita dor. O ar poluído está se desmanchando para dar espaço ao ar mais puro de um coração quente. Obrigada, minha amiga. Obrigada por fazer parte de minha vida e me ensinar a viver.
          Em suma, por saber agora que não é preciso sofrer para aprender, ou que já sofri o bastante que nem foi tanto assim, para carregar valiosa lição de felicidade, sinto-me completamente satisfeita com minha vida e feliz. Sinto-me de bem comigo mesma e agora sei que a minha felicidade depende de mim, única e exclusivamente. Depende de mim manter essa amizade que nasceu entre nós, esse amor que compartilhamos, nossas confianças, nossos segredos e paixões. Depende de mim garantir que isso jamais morrerá.
Minha felicidade se completa ao perceber que não é preciso eu correr atrás de amor algum, pois quando tiver que ser, ele aparecerá, assim, como um milagre. Depois que meu relacionamento terminou com a jornalista, me envolvi com a designer. Não fui feliz em nenhum dos términos. E mesmo assim unia-se a tristeza do término de uma, a tristeza do término com outra e a tristeza com a separação de minha verdadeira amada que há muito me deixou. Mas agora que sei que pensar em quem não pensa em nós é besteira, passei a pensar em mim mesma. Uma ponta enorme de um iceberg de orgulho e egoísmo tomou conta de mim. Não é egoísmo exagerado, mas o suficiente para eu amar a mim mesma e me descobrir como mulher, como pessoa de grande potencial afetivo e capaz de também ser amada. Não estou saindo com mais ninguém. As garotas com as quais eu sempre sonhei estão aos meus pés. E é tão bom esse gostinho de poder, essa sensação maravilhosa de dispensar paixões. Quanto mais eu dispenso, mais aparecem. É como um imã. Quando eu perceber que estou preparada para um relacionamento maduro, poderei então startar essa nova fase da minha vida.
          Há uma publicitária, em meu caminho, que preenche meu retorno para casa de alegria. Ela é bonita e inteligente. Madura e astuta. Quer namorar comigo. Nada farei até ter a certeza de que nenhum coração sairá ferido. Há outra que me enche de mensagens amorosas, todos os dias. Sinto-me mais leve com cada palavra que ela me manda. Mas também não a vejo como futura senhora Gabriela Drummond, nem teria coragem de apenas ficar com a garota. Ela é perfeita demais para meus mimos. O passado voltou a assombrar meus dias. Rafa Castro (meu primeiro beijo) e Flávio Augusto (que se odeiam desde a infância e passaram a se odiar ainda mais depois de 2006, quando um passou a saber da existência do outro em minha vida), disputam minha atenção no Facebook, nos SMSs, no MSN e por e-mail. Algo me diz que ambos querem voltar. Ainda não sei. São apenas suposições, mas acho que é isso mesmo. Estou evitando ao máximo cruzar com a jornalista dos meus sonhos, mas ela insiste em ficar no meu caminho. Ela não mora mais aqui do lado, mas continua tentando me fazer ciúmes com o carinha por quem ela me deixou. É claro que já nem ligo mais, mas aquilo me incomoda. Há outros dois rapazes que insistem em querer minha atenção. Nem preciso dizer que jamais terão, não é? Há outra menina da faculdade também que é muito simpática e bonita. Está no último semestre. Confesso que sinto vontade de beijá-la, às vezes, mas não passa de uma efêmera vontade. Respiro fundo e logo passa.
          É de grande valia este sentimento que me preenche o peito. Estou focada em meus estudos, em meus livros, meus poemas e blogs, minha vida profissional e meu ócio criativo, em minha família e estou focada então nessa família que as coincidências de uma escola comum uniu e nada mais pôde separar, nem mesmo a distância. Estou focada num brilhante futuro.
          Estou, também, por ventura, beirando a loucura. Talvez aches graça desta carta. Mas é mais provável que arqueie uma de tuas sobrancelhas enquanto tenta entender o que aconteceu com aquela Gabriela, que está ainda mais complexa que antes. Ou talvez simplesmente não entenda nada que falei até aqui. Minhas ideias ainda estão embaralhadas, minhas palavras não são de vocabulário informal e tenho um nó nesta garganta sedenta, mas procurei escrever a verdade. E a verdade é que eu a amo, minha adorável amiga.