Pela janela do carro, eu podia ver Anna do outro lado da rua, fechando a porta de casa. Seis horas da manhã. Edu, seu vizinho skatista, atra...

À espera do resultado

Por | 21:53


Pela janela do carro, eu podia ver Anna do outro lado da rua, fechando a porta de casa. Seis horas da manhã. Edu, seu vizinho skatista, atravessava a calçada em direção à escola. Dona Marta saía para passear com o cãozinho que ganhara do filho mais velho. Seu Adalto cumprimentou minha amiga. O entregador de jornal, atrasado, quase lhe acertou a testa ao lhe jogar as notícias. Anna não se importou em ler nenhuma. Ela encarava os papéis com o carimbo da clínica que estavam em suas mãos. Suas mãos trêmulas seguravam os exames. Várias letras miúdas e termos impossíveis de serem entendidos por uma designer. Positivo, negativo, medula óssea, mielóide, blastos, LMA... o que eram todas aquelas coisas? Deveria esperar mais duas horas até ser chamada pelo especialista. Deveria esperar mais duas horas para saber se estava com câncer ou não.
            Anna estava com medo, ansiosa, receosa. Ouviu depoimentos de pessoas que passaram pela doença. Depoimentos também de pessoas que perderam alguém para a doença. Viu casos na televisão. A novela apresentou o sofrimento da personagem. Do outro lado da rua, eu esperava no carro. Duas buzinas trouxeram Anna de volta. O que ela deveria fazer? Correr e chorar nos meus ombros? Ou melhor seria acalmar-se e ir confiante à clínica? Ao atravessar a rua, quase foi pega por uma moto acima do limite de velocidade. “Melhor seria morrer de uma vez, que passar pelo sofrimento de uma longa doença”, pensou.
            Anna Luisa Signorelli é designer, 23 anos, mora sozinha no apartamento de três quartos na Rua Sena Madureira, Vila Mariana, na zona sul de São Paulo. Não fala com o pai há dois anos. A mãe foi embora quando ela tinha 5. A única família que conhece é seu primo Kevin, que mora no Rio de Janeiro, e sua prima de terceiro grau Sophia, que passa longas férias em Barcelona. Aos primeiros sintomas, recorreu à única pessoa de confiança que poderia acompanhá-la em todos os exames: eu.
            O trajeto, que geralmente dura uma hora e meia, foi percorrido em quarenta minutos. Não havia trânsito, ou buzinas, ou pessoas xingando outras logo pela manhã. Ao chegar à clínica, Anna e eu fomos para a sala de espera, onde permaneceríamos por quase uma hora e meia, à espera da resposta. Éramos duas amigas sempre com assuntos pendentes, conversas para ‘botar em dia’, mas naquela manhã, o momento pedia silêncio. Um constrangedor silêncio. Eu não sabia o que fazer, se devia consolá-la, ou contar piadas. Não sabia se era hora de lembrar as cenas da nossa infância, episódios que prometemos jamais esquecer, ou isso iria soar dramático demais para a ocasião.  E ela já estava chorando.
            O fato é que eu estava com medo. Tanto quanto ela, tanto quanto não imaginei que pudesse estar. Meu medo aumentou, quando a ouvi dizer: “O que eu acho mais engraçado é que quando você está bem, ou parece estar bem, encontra mil e um motivos para reclamar da vida.” Lágrimas escorreram pela sua face, um momento de pausa antes de continuar a falar. A gagueira, que na adolescência chegava a ser um charme, naquele momento transmitia desespero. “Há sempre alguém, em algum momento, que diz que preferia estar morto, ou mesmo nem ter nascido. Mas quando algo do tipo acontece, é impossível controlar esse medo, essa angústia de dentro de você.” Um outro momento de pausa. O farol fechado. Rádio desligado. A avenida ainda vazia. Só o soluço de Anna irrompia o silêncio por alguns segundos.  Tentei dizer algo, mas uma vontade de chorar controlava minhas ações. Uma palavra, e eu gaguejaria tanto quanto ela. Melhor seria esperá-la falar. “Não é só o medo da morte que eu digo, mas o medo de não viver, de deixar de desfrutar da beleza da vida, de não mais poder tomar uma água gostosa, não mais sentir o cheiro de uma flor em meio a tantos espinhos, medo de não mais provar o sabor de uma nova especiaria culinária.”. Enquanto Anna falava, algumas cenas vinham à minha mente, como a primeira vez que fomos ao cinema, a lasanha que ela tanto havia prometido e acabou deixando queimar, a batida de maracujá, os livros que lia e fazia questão de resumi-los à mim e quando tomávamos banho de mangueira no quintal, num dia de verão. “O medo de não saber o que vai acontecer com os meus amigos, medo de nunca mais falar com meu pai, ou jamais encontrar minha mãe. Medo de nunca mais poder desenhar, nunca mais passar madrugadas terminando um trabalho para entregar nas primeiras horas do dia, ou ir à praia, jogar futebol no campinho molhado, sentir a chuva tirando o peso de um cansativo dia de trabalho. É disso que tenho medo. Não é do que pode vir após a morte, mas o que não virá depois dela.”. E uma última cena ficou marcada em minha memória até chegarmos à clínica, quando Anna e eu demos nosso primeiro beijo, sete anos atrás. “Nada de ruim vai acontecer com você, Anna. Eu prometo.” Foi tudo o que consegui lhe dizer, enquanto a lágrima caía, disfarçadamente, sobre meu rosto.
            O relógio branco acima da bancada da recepcionista confirmava: a longa espera se prolongaria por mais cinquenta minutos. Uma senhora, acompanhada da neta caçula, também esperava o resultado dos últimos exames. Tem sofrido com a doença há meses. Perdeu o cabelo, devido o tratamento de quimioterapia, perdeu o gosto pelas coisas. Desiludida, aguardava a sentença final.  A neta, uma jovem universitária, na certa com a mesma idade da Anna, desesperava-se com as duras palavras da mulher. O médico chamou a senhora. A neta a seguiu. Minha amiga prometeu-me que, com doença ou não, jamais faria pesar em seu peito, ou nas pessoas ao seu redor, a dor da desilusão. Prometeu-me ser forte, até o fim. A sala ficou silenciosa, exceto pelo discreto barulho do movimento dos ponteiros no relógio branco acima da bancada. Tic tac tic tac...
            Vinte minutos para o atendimento. Anna já havia folheado todas as 30 revistas da sala. A recepcionista acessava o Facebook. Uma muda TV ligada exibia o jornal matinal. Acidentes de trânsito, roubos e assaltos pela madrugada, tempo, dicas de saúde e eventos culturais. Anna estava impaciente. Olhava para a porta da sala do médico a cada cinco segundos. Seus olhos expressavam terror. Olhou em minha direção, com as lágrimas de volta em seu rosto. Dessa vez soluçava. Soluçava forte. Seu olhar pedia ajuda, pedia consolo. Só pude abraçá-la forte e dizer que tudo ficaria bem. Abraçamo-nos por cerca de 8 minutos, até sermos interrompidas por uma grave voz. O médico nos chamava.
            Anna entrou sentindo um forte calafrio percorrendo seu corpo. Tremia forte. As pernas balançavam. O médico, acostumado a lidar com situações difíceis, acalmou-a e ajudou-a a sentar na confortável cadeira.  Doutor Aurélio começou explicando os sintomas da minha amiga. Falta de ar, fadiga, hemorragia, as várias infecções... quanto mais ele falava, mais confusa Anna ficava. “Identificamos em seu sangue a presença de blastos que, acumulados na medula óssea, interferem na produção comum do seu sangue.” Ficamos mudas. Não entendemos bem a situação, ou tínhamos medo de raciocinar o que acabara de ser jogado em nossas mãos. “Doutor” – perguntou minha amiga – “o que isso significa?”. O médico me olhou com cautela, como que solicitando meu auxílio para apoiá-la naquele momento. Acenei positivamente com a cabeça, demonstrando meu entendimento. Anna, ao ver toda a movimentação, começou a chorar novamente.
“Você está com leucemia mieloide aguda, que chamamos de LMA. É um câncer presente nos glóbulos brancos. É mais comum em adultos, mas posso já lhe tranquilizar que as chances de cura são grandes.” O LMA é um câncer raro, mas ainda mais raro é o índice de mortalidade desse tipo de câncer. Anna deverá passar por sessões de quimioterapia e, se tudo der certo, estará livre de um transplante de medula óssea. Caso contrário o transplante será essencial, mas o oncologista afirmou que Anna não deveria se preocupar com essa fase, nesse momento. O mais importante era ela estar firme e segura durante o tratamento da quimioterapia. “É importante também você descansar, estar com amigos ou familiares. Você tem uma espera ainda maior, pela frente. O da cura. E ela depende exclusivamente de você.”. Com essas palavras, o médico entregou todos os exames e alguns medicamentos para iniciar o tratamento. Entregou também um pedido de alguns exames menores. Ele estava certo. O tratamento, agora, só depende dela. E ela vai esperar pela cura, vai batalhar por ela. 
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