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Foto: Bruna Sousa. Cibratel II - Itanhaém, 17/01/13           Houve um tempo em que a minha rotina era acordar às 6h30 da manhã, tomar b...

Foto: Bruna Sousa. Cibratel II - Itanhaém, 17/01/13
          Houve um tempo em que a minha rotina era acordar às 6h30 da manhã, tomar banho, engolir rapidamente o achocolatado, pegar a bike e pedalar por 15 minutos até o colégio, no bairro vizinho. Durante o trajeto, sempre as mesmas pessoas: o velho jardineiro carregando, em sua Calói vermelha enferrujada, o mal tratado cortador de grama; a moça da casa de ração que caminhava do lado errado da calçada, sempre com uma calça preta, camiseta em tons claros e sapatilha que combinava com os brincos e demais acessórios; o velho casal da rua de baixo, que sempre subia vagarosamente as duas quadras e eram os primeiros a comprarem o pão do estabelecimento que era bar, lanchonete, padaria, restaurante, mercadinho e ponto de encontro dos aposentados do bairro, aqueles típicos lugares pequenos que todo bairro tem; o bonitão trancava o portão da velha casa amarela, onde morava com a idosa mãe, e corria até a academia do outro bairro; no mesmo instante em que os carros começam a circular, e não eram muitos, cerca de 10 ou quinze em toda a avenida, o ônibus das 6h50 levava os estudantes para a aula das 7h; trensinhos carregavam as poucas pessoas do bairro para mais um dia de trabalho no centro da cidade. Já quase chegando na divisa dos bairros, encontrava ela: naturalmente loira dos olhos verdes, grandes e marcantes olhos verdes e, na época, estava com os cabelos avermelhados. Ela, uma de minhas melhores amigas.
          Houve um tempo em que eu tinha duas melhores amigas. Não sei dizer se foi a melhor época da minha vida, mas, sem dúvida, inesquecível. Éramos inseparáveis. Conhecíamos uma a outra melhor do que a nós mesmas. Ríamos de modo sincero e espontâneo. Brincávamos de modo sério e divertido. Aqui não se encaixa a frase 'eu era feliz e não sabia'. Não, nós sabíamos sim. Nós aproveitávamos. Nós crescemos juntas, em muitos aspectos. Até que... nos separamos. E não por vontade própria, mas justamente por crescermos e seguirmos nosso caminho. Nos separamos e continuamos a crescer individualmente.
          Houve um tempo em que eu gostava de estar em casa. Na frente dela haviam dois balanços. As madeiras pintadas de azul e vermelho se destacavam no meio do verde dos coqueirais. Os balanços eram na praia. A areia fresca e quentinha marcava nossas pegadas. Quatro ou seis. Hoje são apenas duas, as minhas. Hoje não há mais balanço. Apenas o horizonte e eu. Apenas o nascer do sol e eu. As ondas do mar me perguntam onde elas estão. Fico em silêncio. Poderia responder, mas permaneço em silêncio. Olho para o relógio: 6h55. Se eu correr, encontro o jardineiro, a moça da casa de ração,  o velho casal da rua de baixo, o bonitão,  os mesmos carros, o ônibus e o trensinho. Mas não a encontro. O sol já está no alto do céu, mas não deixa de ser deslumbrante seu reflexo em alto mar. Observo por mais de meia hora. São 7h37 da manhã de um novo dia, de um novo ano, de uma nova vida. Bom dia, Itanhaém.

          Se, em janeiro de 2012, alguém me dissesse o que iria me acontecer durante todo o ano, na certa eu o chamaria de louco, gozaria...




          Se, em janeiro de 2012, alguém me dissesse o que iria me acontecer durante todo o ano, na certa eu o chamaria de louco, gozaria de ideias tão absurdas... mas tudo isso aconteceu. 2012 foi o ano em que eu conheci a sensação de estar feliz e incompleta, ao mesmo tempo. Foi o ano em que eu percebi que me sinto à vontade, sendo eu mesma. O ano em que tudo o que parecia importante passou a ser segundo plano. O ano em que me apaixonei pelo impossível.
          Não sei dizer quando surgiu, onde começou e nem o porquê. De repente eu estava enviando torpedos, ligando, marcando encontros. Eu estava imersa em um mundo nosso, só nosso e de mais ninguém. De repente eu estava entregue a um sentimento totalmente novo, para mim. Eu não precisava fingir felicidade. Ela estava ali, diante de mim, estampando o riso mais sincero nos meus lábios. 
          Infelizmente as coisas não duram para sempre. Eu sabia que aquele momento iria acabar, mas ainda não estava preparada. Acabou cedo demais. Acabou sem que eu pudesse dizer que aqueles poucos meses me fizeram crescer. Acho que finalmente saí da fase ‘namoro de adolescência’ para viver um romance de verdade. Ela me salvou. Salvou-me também ao me fazer perceber que nada dura para sempre. Nem as coisas boas, nem as coisas ruins. Salvou-me ao me libertar do que não valia a pena lutar. Salvou-me de viver uma vida vazia. Salvou-me em diversas formas, mas a forma mais bonita foi salvar-me da realidade, da areia movediça que se tornou a minha vida. Ela salvou-me de mim mesma.
          Uma verdadeira heroína. Heroína camuflada que não gosta de se mostrar, que ignora o quão bom é o seu coração, que não acredita em si mesma, que possui milhares de defeitos, mas é única e perfeita, para mim, que se esconde atrás de uma máscara de multipolaridade, que teme ser feliz, que demonstra secura, mas, lá no fundo, alimenta uma alma limpa e generosa, que coloca a família no mais alto pódio, que se diz não se preocupar com os outros, mas se preocupa com alguns 'outros' que ama. A minha heroína, cujo olhar me acompanhará por onde eu for, tuas mãos segurarão as minhas quando houver medo, teus lábios eu beijarei todas as noites, durante meus sonhos e, pela primeira vez em toda a minha vida, serei altruísta. Por mais que doa, em meu coração, sei que o melhor é você viver uma vida sem mim.

A chuva cai. O barulho sobre o telhado é abafado pelos meus pensamentos, que falam alto. Eles clamam teu nome. Quando foi, exatamente, que...

A chuva cai. O barulho sobre o telhado é abafado pelos meus pensamentos, que falam alto. Eles clamam teu nome. Quando foi, exatamente, que isso começou? Existe uma verdade por trás de nossa história. Destino ou acaso? Nunca acreditei em destino. Nunca acreditei que houvesse, de fato, um caminho traçado para cada pessoa. Mas tem sido obras do acaso? De fato, uma verdade.

A chuva cai. Enquanto observo o namoro da água com o solo, pela janela, vejo você... não sei de onde surgiu, mas lá está você. O telefone me coloca de volta à realidade. Uma mensagem. É você. É sempre você. E meu coração sorri. Mais uma vez.

Quando brigamos, um pedaço de mim se fere. Quando estamos longe, só conto os minutos para poder estar com você. Quando estamos perto, só desejo que esse momento se repita por muitas e muitas vezes. Você é meu vício, não por ser um caso amoroso, mas, principalmente, por ser a pessoa com quem compartilho bons e maus momentos, por ser a pessoa com quem gosto de caminhar, por ser a pessoa com quem quero, sempre, chamar de amiga, acima de tudo.

Meu vício. Meu vício eterno. Quando foi que isso começou? Eu mentiria se dissesse que 'tudo são flores'. Não são. Longe disso. Longe da perfeição. Ela nem existe. Mas ainda assim, você é o meu vício. Aquele que não quero largar. Aquele que remédio algum seria capaz de curar. Meu vício para todas as horas. Meu vício em tudo. Só você. 

         Sorria. Abriu a janela do ônibus com o cuidado de não criar suspense ao próprio coração: avistou as tão belas e distantes mon...



         Sorria. Abriu a janela do ônibus com o cuidado de não criar suspense ao próprio coração: avistou as tão belas e distantes montanhas que tantas vezes desenhava em seu caderno da infância;
         Observou o velho jardineiro, ao pé da casinha de madeira, cultivando as lindas rosas e petúnias que encantavam o caminha da antiga estrada de terra;
Sentiu o puro ar de vida no campo, que tantas vezes desejou enquanto respirava a poluição da cidade grande;
         Ouviu o canto dos pássaros no alto das arvores, ou voando em contraste com o perfeito céu azul, numa sintonia impecável e emocionante, bem distante da cinza vista da metrópole;
         Fechou os olhos e se viu, aos 18 anos, abandonando o paraíso que julgou ser inferno, prometendo a si mesmo nunca mais voltar.
         Havia encontrado o caminho de volta para casa, para seu eterno lar, onde tantos, com a saudade acompanhada da esperança de tê-la de volta como parte do interior, a aguardavam.
         As lágrimas brotaram em seus olhos, se transformando em arco-íris e provando que, quem parte, sempre volta para seu interior.

O sol bem ao centro do céu. O relógio marca exatamente 12h. A igreja, a três quadras dali, badala o sino em 12 longos toques. Baixinho...



O sol bem ao centro do céu. O relógio marca exatamente 12h. A igreja, a três quadras dali, badala o sino em 12 longos toques. Baixinho, o inspetor de 60 anos, simpático velhinho com o bondoso aspecto de vovô, varre o pátio da escola de fachada azul. Dona Maria, cozinheira há mais de 30 anos, prepara a merenda para as crianças da tarde. Cinthia e Gabriela, ajudantes de cozinha, esperam na saída com o carrinho carregado de mupy. Bate o sinal, as crianças que passaram a manhã com seus professores, correm para o portão, pegam os saquinhos de mupy e se dirigem aos braços de seus pais. Todas entre 3 e 12 anos. A maioria, 6, como eu.

***

Lembro-me perfeitamente os detalhes. Eu não tinha pressa em sair da sala. Sabia que meu pai ainda não estaria lá.  Ele me buscava sempre depois das 13h, em seu horário de almoço. Eu chegava a ver as crianças da tarde. Vários rostinhos novos, animados para mais uma tarde entre pinturas, futebol e as primeiras letras, os primeiros números. Não tinham nomes para mim. Apenas esse: “as crianças da tarde”. Exceto uma. A Ruivinha. Era assim que eu a chamava. Olhos castanhos claros, esverdeados. Olhar superior e uma beleza incomparável. Ela nunca falava comigo. Apenas me olhava intrigada. Eu retribuía o olhar.
Certa vez, minha professora, a Shirley, sentou-se à mesa de merenda, comigo, enquanto eu esperava meu pai e saboreava o delicioso mupy de maçã, meu preferido. Ela era a única que sabia do meu namoradinho secreto, o Caio. Coisa boba de criança. Eu nem sabia o que era namorar. Foi a ela que eu contei que Caio tentou me beijar. Era um absurdo crianças da nossa idade namorando. Beijando na boca, então... Shirley compreendeu e me incentivou a crescer, esperar alguns anos antes de aceitar o primeiro beijo. Ela me disse que deveria ser com um alguém especial. Hoje eu tenho vontade de encontrar minha professora e dizer “Shirley, você tinha razão. Deveria ser com alguém especial. E foi”.
No dia seguinte, no mesmo banco, a professora se sentou, bem ao meu lado. Perguntou-me se eu já havia rompido com o Caio. Antes que eu pudesse responder, a Ruivinha apareceu. Meia hora mais cedo que o normal. Teria passado direto e sentado na outra ponta do banco, não fosse o convite da professora para juntar-se a nós. Anna Luisa. Esse era seu nome. Ainda hoje fico avermelhada toda vez que me lembro de que a minha professora partilhou com a desconhecida o meu segredo. Ela queria que a Ruivinha, ou melhor, a Anna, me ajudasse a tomar uma decisão. No dia a seguinte, Anna estava lá, à minha espera, na saída. E assim passamos todos os dias daquelas três semanas seguintes. Dias antes de entrarmos em férias, Caio me contou que iria morar em São Paulo, com a família. Nunca mais nos vimos.
Em 98, Anna e eu já tínhamos criado laços. Nunca tive, até então, uma amiga como ela. Víamo-nos todos os dias, entre as 12 e as 13 horas. Eu estava completando 8 anos de idade. Ela, 10. No ano seguinte ela foi para o ginásio. Eu fui transferida para o colégio novo, perto de casa. Foi nossa primeira despedida. Passamos os dois anos seguintes sem contato. Na virada do século, desejei reencontrá-la. Mas não tinha nem seu telefone. Século novo, colégio novo, vida nova... um velho rosto. Lá estava a Ruivinha. Olhos castanhos esverdeados, olhar superior e uma beleza incomparável. Essa era a Anna. A minha pequena Anna Luisa.
Foi aos meus 13 anos, ela com 15, que tivemos a tal ‘conversa’. Ela confessou estar confusa. Logo pensei que fosse a relação com os pais. Não via a mãe desde que tinha 5 anos e estava brigando muito com o pai, nos últimos meses. Mas era um pouco mais complicado.
- Acho que não gosto de homem, como deveria gostar.
- Como assim, Lu?
- Tenho vontade de beijar garotas. Tenho vontade de andar de mãos dadas com uma garota, sabe? Sei lá. Não tenho vontade de ficar com um garoto. Queria que meu primeiro beijo fosse especial. E não me vejo com nenhum garoto. Não me vejo dando meu primeiro beijo com um garoto. Olha, não quero que nada mude entre a gente, mas não consigo mais esconder. Eu tenho vontade de beijar você. Você deve me achar muito estranha, agora, né?
Na verdade, não. Anna só tinha a coragem que eu achei que nunca teria. Falar sobre sentimentos, ainda mais sobre esses. Eu também tinha vontade de beijar uma garota. Não uma garota qualquer, mas ela. Aquele dia terminou como um ponto de interrogação. Eu não sabia o que dizer quando a visse novamente. E o beijo, seria no rosto? Ou melhor, um aperto de mão? Um aceno, talvez? Tudo tão confuso. Não nos víamos mais nos corredores do colégio. Acho que nós duas estávamos nos evitando. Era uma quinta-feira. Se me lembro bem, em outubro. Eu estava pegando minha bicicleta, quando ouvi chamar meu nome. Ela agiu como se nada tivesse acontecido. Queria me acompanhar até minha casa, como sempre fazia.
A rua era larga. O canteiro central estava coberto pelas palmeiras. As casas de veraneio, vazias. Gostávamos dali porque era calmo e silencioso. Havia um banco, embaixo do coqueiro da terceira casa da esquerda, na segunda quadra. Costumávamos sentar ali todas as tardes, esperando o sol do meio dia baixar. E então nos sentamos. Eu me lembro que, naquela tarde, conversamos sobre nossos planos, sobre faculdade, ter 18 anos, aproveitar a vida, viajar, conhecer a Itália, a Irlanda (a mãe dela é irlandesa). Falamos sobre nossos pais, sobre a escola, sobre os cursinhos, meu time de vôlei, o time dela de futsal... não houve um toque, não houve um olhar. Simplesmente aconteceu. Era nosso primeiro selinho, não era um beijo de verdade, mas era especial. A professora Shirley tinha razão.
Caminhamos duas quadras. Foi quando eu percebi que estava a uns três passos adiante dela. Ela estava inquieta, olhando para o chão, chutando pedregulhos da calçada, com um sorriso molhado e certa tristeza no olhar. Larguei a bicicleta e voltei os três passos. Ela levantou a cabeça, olhando nos meus olhos e perguntou:
- Promete não esquecer disso?
- Disso o quê?
- De tudo! De quando nos conhecemos, de quando brigamos, de quando contamos piadas, de quando eu pulo no seu colo, desse beijo...
- Se te conheço bem, você nunca me deixará esquecer – havia um sorriso na minha fala, tentando disfarçar o medo de perguntar o porquê daquela conversa e procurando aliviar a tensão. Mas ela não sorriu.
- Talvez eu não esteja aqui para te lembrar.
- Do que você está falando?
- Vou morar com minha mãe. Na Irlanda.
Aquela foi nossa segunda despedida. Não consegui dizer mais nada. Só abracei e chorei. E chorei tanto que as lágrimas não me permitiram vê-la partir. Mas eu sei que ela também chorava. Chorava muito. Saiu quase que correndo daquela rua.
Um ano se passou. Eu estava com quatorze anos quando dei meu segundo selinho. Namorei a Camila por oito meses. Ela tinha problemas com drogas e saiu da escola pouco depois que terminamos. Na verdade nem era, de fato, um namoro. Apenas estávamos juntas. Curtíamos uma a outra. Camila resolveu o problema com as drogas e engravidou aos dezesseis anos. Não cheguei a conhecer a filha dela. Recebi uma carta com uma foto, meses depois. Nesse tempo, minha vida havia voltado ao normal. Anna retornou da Irlanda em 2 de setembro de 2006. Lembro-me bem da data porque fizemos uma festa surpresa para dois colegas de sala que faziam aniversário. Ela simplesmente apareceu na festa, sem avisar.
Nos beijamos em 22 de setembro, mas eu já havia me apaixonado por outras pessoas. Ou melhor, por outra pessoa. Meu amado Ser, meu primeiro beijo de verdade, o que causou nossa terceira despedida. No início de 2008 voltamos a nos falar. Ela morando na capital. Eu, no litoral. No ano seguinte, entrei na faculdade e fui morar na capital. Estávamos começando a nos entender, quando tudo de repente acabou após uma traição e uma gestação. Foi a quarta despedida. Ela perdeu o bebê aos 4 meses. Pouco depois, perdeu a mãe. O pai, decepcionado, se isolou. 
Com o passar dos anos, as coisas foram melhorando. Os problemas, se revolvendo. A relação com o pai, se reestabelecendo. Aos poucos fui enxergando, novamente, a minha Ruivinha naquela Anna mais velha. Infelizmente não possuímos o poder de controlar a vida por completo. Aos 24 anos, Anna foi diagnosticada com LMA – leucemia mieloide aguda, um tipo de câncer com baixo índice de mortalidade. O tratamento correto, as sessões de quimioterapia indo bem. Eu a veria na segunda-feira, 3 de setembro de 2012, após a faculdade. O telefone toca às 11 horas. Anna se foi. E eu não dei meu último adeus.
***

Olha... veja só! Nossa primeira foto juntos. Já faz tanto tempo, não é mesmo? Quase me esqueci desse seu sorriso encabulado, ainda na dúvid...

Olha... veja só! Nossa primeira foto juntos.
Já faz tanto tempo, não é mesmo? Quase me esqueci desse seu sorriso encabulado, ainda na dúvida se me levaria pra dançar numa boate ou melhor seria um romântico jantar. E depois, quando finalmente decidimos passear pela avenida, observando as estrelas, um saxofonista parou-nos para dedicar ao 'casal apaixonado' uma romântica canção. Você gaguejou ao tentar dizer que não somos um casal, mas nem conseguiu completar a frase. Depois olhou-me, corado, ainda sem saber o que fazer em seguida. Estava esfriando, então você colocou sobre mim seu casaco macio. Ah, como amei aquele momento. Estivemos tão perto de um beijo... e seu perfume era tão bom, impregnado no casaco sobre mim!

Já faz tanto tempo, mas ainda posso me lembrar do cheiro da comida do restaurante que você me levou. Hoje passo por aquela avenida e vejo uma casa de shows no lugar daquele restaurante. As pessoas hoje pensam que são felizes ali, mas jamais sentirão o êxtase de felicidade que tive quando, entre a entrada e o prato principal, você disse que não parava de pensar em mim desde que viu meu sorriso pela primeira vez, quando lhe vendi aquele par de meias e as gravatas de seda coloridas. Inacreditável como em apenas duas semanas você precisou comprar 30 gravatas diferentes. Acho que você jamais as usou.

Já faz tanto tempo... e parece que não foi tempo suficiente para vivermos esse amor. Agora, que você se foi, tenho essas fotografias que me fazem chorar. Não de tristeza, mas pela certeza de ter vivido o melhor amor que eu poderia viver. Você se lembra, naquela noite, após o jantar? Você me deu o primeiro beijo e disse que havia uma grande chance de estar me amando desde antes de você entrar na loja e comprar aquelas gravatas. Aquela foi a primeira noite das milhares de noites felizes que tive ao longo desses 60 anos ao seu lado. E não teve uma noite sequer que tenhamos colocado as cabeças nos travesseiros sem dizer as palavras que hoje ecoam no meu coração: EU SEMPRE AMAREI VOCÊ!

Não sei como começar. Meu coração diz coisas que as palavras não são capazes de pronunciar. Meus medos compreendem o silêncio impreciso ...


Não sei como começar. Meu coração diz coisas que as palavras não são capazes de pronunciar. Meus medos compreendem o silêncio impreciso do meu coração. Não sei onde isso vai parar. Parece que essa palpitação é loucura. Espere! Este estado de loucura tomou conta do meu ser. Estou louca!  Uma loucura aguda. Ouvi dizer que chamam isso de paixão. Ah, doce paixão. Eis teu nome a palavra mais pronunciada pelo meu coração. Eis tua voz a sussurrar-me excitante canção. E quando fecho os olhos, mergulho fundo nos prazeres dessa emoção.

Teu corpo a enroscar-se no meu, teus lábios beijando-me por todas as partes do meu corpo. Tuas mãos... e carícias... e delírios... e prazer. Quero você por completo. Quero cada centímetro de ti. Quero deleitar-me neste sexo e esquecer o mundo lá fora. Se mil anos eu vivesse, mil anos viveria desse teu amor. E cada gota de suor valeria a pena. Ah, suor... o calor da paixão. Nunca pensei ser assim tão quente. Seja numa noite de verão, ou no mais frio entardecer do inverno. E mesmo a primavera, com toda a sua beleza em cores, as flores, sentiria inveja desse nosso bel prazer. E enquanto as folhas caíssem empalidecendo o outono, nossas chamas permaneceriam acessas até o fim. E que fim seria esse, se nossa vontade é insaciável, se nosso prazer não possui data de validade?

As curvas do teu corpo, já sei de cor. As pintas que te marcam, conheço todas. Percorro cada região do mapa do teu corpo. Meu parque de diversões. Minha, somente minha fonte de prazer. E retribuo com o mesmo afinco. Com o mesmo gosto, com o mesmo dom. E retribuo mais e mais. E quanto mais retribuo, mais inspirados voltamos. E começamos tudo de novo. E dessa vez são minhas mãos, minhas carícias em ti, delírios e prazer. Muito prazer. Todo prazer.

Em nosso clímax, delírio, loucura, sussurros, chamas, prazer... já não sabia meu nome. Já não sabia quem era eu. Mas ali queria contigo ficar. E queria mais. E mais. E muito mais. Meu erro foi não olhar nos teus olhos. Meu erro foi cair em delírios e esquecer-me de tudo. O erro foi meu. Em nosso clímax... o nome de outro eu pronunciei. 

Cena do filme  Imagine que o amor é possível, e todas as coisas boas nos acontecem. Imagine que não há barreiras, nem tristeza, nem acen...

Cena do filme 
Imagine que o amor é possível, e todas as coisas boas nos acontecem. Imagine que não há barreiras, nem tristeza, nem acenos de adeus eternos. Imagine que o mundo se resuma, pelo menos por alguns segundos, nesse amor entre você e eu.

Lena Headey e Peper Perabo estrelam este filme embalado por The Turtles, com a animada canção Happy Together. Contratada para enfeitar o cenário do casamento, a florista apaixona-se pela noiva, de forma pura, a noiva também se apaixona por sua florista.

Não apenas de dificuldades sociais, mas também familiares e estruturais é o que trata esse filme. Dificuldades superadas e transformadas em algo belo com o amor improvável que nasceu entre essas duas mulheres. 

Não há apelo sexual. Apenas amor. E compreensão.

Mais uma assinatura, e o ‘parto’, como o chamamos ao longo dos últimos seis meses, estaria finalizado. Pelo menos por um tempo. Em dezem...


Mais uma assinatura, e o ‘parto’, como o chamamos ao longo dos últimos seis meses, estaria finalizado. Pelo menos por um tempo. Em dezembro outro parto faremos, mas por hora, esse é o que tenho a dizer. 
As três cópias encadernadas foram devidamente entregues em papel envelope pardo. Enquanto aquela assinatura final marcava a parte direita do canto do papel, cenas dos últimos anos passavam pela minha cabeça. Desde o primeiro dia de aula, ainda indecisa, caminhando em direção ao auditório, me sentindo perdida frente ao mundo de conhecimento que estava à minha espera, até minutos antes, ainda na gráfica, observando a máquina imprimir página por página daquele trabalho.

Desses três anos, tenho muito que lembrar. Coisas boas, inesquecíveis. O tipo de história que eu contaria para meus netos, como aquela vez em que saí com o pessoal da faculdade para um tour pelo bairro da Liberdade. Ou daquela vez que atropelei um poste e escorreguei na calçada, no momento mais movimentado do dia. Lembro também de quando fomos ao MASP, ao Centro Cultural de São Paulo, ao Ibirapuera, ao Parque da Independência. As aulas de teatro, as oficinas, os simpósios e as apresentações. Inesquecível também nossas sextas-feiras do pastel, que virou tradição. Não seria sexta-feira se a galera não se reunisse e comesse pastel na feira. Outros momentos eu bem preferiria esquecer. Para quê desenterrar coisas que não valem a pena lembrar? Quantas discussões e desentendimentos bobos não tivemos ao longo desse tempo? Melhor deixar para trás.

Mas o que mais gosto de lembrar - e dividir aqui com vocês – é a riqueza , o conhecimento e a sabedoria que adquiri nesse período. E isso não somente no que diz respeito ao jornalismo, mas toda a experiência, positiva ou negativa, as relações, os valores éticos e morais, as desilusões... Aprendi que ninguém está salvo do erro, que ninguém é perfeito e ninguém sabe tudo. Há sempre algo a aprender. Aprendi que observar os mais velhos é a coisa mais sábia que posso fazer. Aprendi também que não devo me calar, mas saber o momento certo de falar. Também aprendi que tudo tem dois lados. Ou mais. Talvez não haja uma verdade absoluta, mas há várias verdades, que podem nos fazer chegar mais próximo da verdade mais pura. Aprendi que filosofia e matemática tem tudo a ver com tudo. E quantas relações de poder (Foucault) em encontrei por onde andei. Aprendi que não sou maior ou melhor que ninguém, não tenho poderes nem varinha mágica, mas da mesma forma como posso aprender, também posso ensinar. Aprendi que o mundo pode ser redondo, ou pode não ser. O que importa mesmo é que descobri que ele não gira à minha volta. Aprendi a amar as coisas simples e ver beleza no que pouco chama atenção. Aliás, aprendi a diferença entre belo e beleza. Aprendi o que é arte e o que é ponto de vista. Aprendi a pesquisar e também a argumentar. Aprendi e aprendi e aprendi e quanto mais eu viver, mais poderei aprender.

E não teria aprendido nada disso, não fossem os professores que jamais esquecerei. Afinal, quantas vidas vocês têm*? Eu tenho só uma e quero vivê-la por completo. Quero experimentar aprender um idioma por ano*. Quero fazer parte do projeto de Brasil*. Quero mensurar* meus próprios erros, concluir vários projetos de pesquisa*, quero saber identificar  a gestalt e o behaviorismo*, quero dar boas risadas* com o que vale a pena. Teeeeenso*, mas também quero receber puxões de orelha para o que deveria ser óbvio*. Ah, e esse parto foi apadrinhado. Pela madrinha mais fofis*.   

Não apenas no corpo docente, mas tantas pessoas incríveis que aqui encontrei. Alguns nomes foram substituídos por carinhosos apelidos. Outros não tão carinhosos assim. Aliás, vários outros. Dá até pra formar um coral. Mas chega de lero lero.

Hoje somos 12. A gota. Mas já fomos 13, 14... Acho que chegamos a 17, em algum momento. Mas se eu fosse reuni-los aqui, passaria dos 50. Não somente jornalista do Engula Isso, mas futuros comunicólogos que trago no lado esquerdo do peito. Alguns saíram. Outros apenas mudaram de horário. Mas jamais deixaremos de ser colegas. Amigos. Irmãos. Dificuldades que enfrentamos juntos, conquistas compartilhadas, risos trocados, palavras gentis e gestos de carinho. Eu aprendi, com tudo que vivi aqui, com todas essas incríveis pessoas, que o “essencial é invisível aos olhos” (SAINT-EXUPÉRY, pág. 38). Um dia eu os agradecerei por tudo que vocês representam em minha vida. A gota. É o que somos.  E aos participantes desse parto, parabéns e muito obrigado. Apesar de alguns deslizes e dificuldades, tivemos lindos filhotes. E eles serão muito bem aceitos na pré-banca.

Lá se vai o último ponto da assinatura. O envelope está sendo lacrado e entregue aos supervisores. Troca de olhares entre os pais. Momento de tensão, aflição, loucura e paixão. Quase posso ver lágrimas rolar por nossos olhos. Agora é só trabalhar. Assim como os pais trabalham duro para verem seus filhos crescerem. Assim trabalharemos. Com tal afinco e prazer. Assim conquistaremos. Assim seremos os melhores pais que poderíamos ser. Bem vindo ao mundo, TCC.



*Frases clássicas que lembram alguns dos nossos professores:
”...quantas vidas vocês têm?” –  Rovilson
“...idioma por ano” – Zamagna
“...projeto de Brasil” – Rodrigo
“mensurar” - Guaracy
“...projetos de pesquisa” – Helen Suzuki
“...gestalt e o behaviorismo” – Cleusa Sakamoto
“...boas risadas” - Caramez
“Teeeeenso” – Adriano Miranda
“...receber puxões de orelha para o deveria ser óbvio” – Wagner Belmonte
“Pela madrinha mais fofis” – Lilian Crepaldi

          Feriado prolongado. Isso só a faz lembrar uma coisa: praia. E é pra lá que Daniela Davanso vai. O Dobló  prata já passou pela r...



          Feriado prolongado. Isso só a faz lembrar uma coisa: praia. E é pra lá que Daniela Davanso vai. O Dobló  prata já passou pela revisão. Uma última parada na lanchonete antes da viagem. Agora será apenas ela, o carro e a estrada. Ah, sim, não poderia esquecer a trilha sonora. Marisa Monte será a responsável. Seu novo CD, O que você quer saber de verdade, ganhou de presente no Amigo Secreto da faculdade. Ainda não conseguiu ouvir.          

Um Ford velho azul cruzou o seu caminho. O motorista, um senhor com aparência hostil, barba mal feita, cabelos brancos e um cigarro caindo pelo canto esquerdo da boca, ultrapassa em local proibido e faz sinal obsceno para Daniela. No tumultuado trânsito da Capital, Daniela teria xingado, gritado, devolvido gestos igualmente hostis.  Mas aquele feriado seria de felicidade, nada iria impedi-la de aproveitar. Marisa, a cantora, dizia exatamente isso para ela: “Vai sem direção, vai ser livre. A tristeza não, não existe. Solte seus cabelos ao vento, não olhe pra trás.”. Era isso que ela iria fazer. Esquecer-se de olhar para trás, por pelo menos quatro dias. As últimas semanas foram complicadas. Ela não achou que gostar de alguém fosse tão complicado assim.
          

Enquanto passava pela divisa de São Bernardo e São Vicente, Marisa Monte falava sobre andar descalço no parque. Parecia que tudo o que Daniela sentia, Marisa cantava. “Pois a cada hora que passa leva comigo uma saudade de você, meu amor.” No pedágio, aquele olhar era tão parecido, mas nada se comparava à sua paixão. Uma fugaz lembrança daquela mesma cabine, meses atrás. Era uma viagem romântica. Uma segunda lua de mel.
          
Os túneis tamparam a visão da lua. Vários minutos se passaram enquanto o carro percorria aquele trecho. Estrada longa e lotada. À frente, um Sportage azul marinho com duas bicicletas em cima. Jovens recém-casados, provavelmente. A placa era de Embu das Artes. Ao lado, uma Saveiro branca transportava móveis antigos. Na outra faixa, um Crossfox vermelho. Igualzinho o carro de seu amor. Bandido amor. Até Marisa percebeu. “Depois de aceitarmos os fatos, de trocar seus retratos pelos de um outro alguém. Meu bem, vamos ter liberdade, para amar à vontade sem trair mais ninguém”. Lágrimas escorriam pela face da menina-mulher. Melhor seria trocar de faixa, mas Marisa não colabora. “Amar alguém só pode fazer bem, não há como fazer mal a ninguém. Mesmo quando existe um outro alguém, mesmo quando isso não convém”. Como poderia alguém amar duas pessoas ao mesmo tempo? É algo inaceitável, para um coração fiel. Daniela não podia aceitar. Não conseguiu aceitar. Sentiu-se traída, sentiu-se minimizada, hostilizada.
          

O equipamento de som do carro continuava funcionando, mesmo com a tentativa desenfreada de Daniela de calá-lo. Os botões não respondiam. A estrada estava ficando mais escura, mais perigosa. “A tarde estava fria. Frio também ficou meu coração ao compreender que ele partia. No branco lencinho, chorei sua traição.” Estava explicado porque Daniela evitara tanto aquele CD.
          

Marisa continuava falando para ser feliz. Ser feliz. Era óbvio. Tudo estava óbvio. Só Daniela não percebeu. Logo poderia cantar, com felicidade, a canção de Marisa. “O meu coração já estava aposentado. Sem nenhuma ilusão, tinha sido maltratado. Tudo se transformou. Agora você chegou, você que me faz feliz, você que me faz cantar, assim...”

           No alto da serra já era possível ver as luzes da baixada. Em poucos minutos estaria na casa dos pais, onde cresceu e passou os melhores anos de sua vida. “Para que ficar, mas pra onde ir? Todo lugar tem o seu aqui.” Daniela Davanso decidiu voltar para seu lar.