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A chuva cai. O barulho sobre o telhado é abafado pelos meus pensamentos, que falam alto. Eles clamam teu nome. Quando foi, exatamente, que...

A chuva cai. O barulho sobre o telhado é abafado pelos meus pensamentos, que falam alto. Eles clamam teu nome. Quando foi, exatamente, que isso começou? Existe uma verdade por trás de nossa história. Destino ou acaso? Nunca acreditei em destino. Nunca acreditei que houvesse, de fato, um caminho traçado para cada pessoa. Mas tem sido obras do acaso? De fato, uma verdade.

A chuva cai. Enquanto observo o namoro da água com o solo, pela janela, vejo você... não sei de onde surgiu, mas lá está você. O telefone me coloca de volta à realidade. Uma mensagem. É você. É sempre você. E meu coração sorri. Mais uma vez.

Quando brigamos, um pedaço de mim se fere. Quando estamos longe, só conto os minutos para poder estar com você. Quando estamos perto, só desejo que esse momento se repita por muitas e muitas vezes. Você é meu vício, não por ser um caso amoroso, mas, principalmente, por ser a pessoa com quem compartilho bons e maus momentos, por ser a pessoa com quem gosto de caminhar, por ser a pessoa com quem quero, sempre, chamar de amiga, acima de tudo.

Meu vício. Meu vício eterno. Quando foi que isso começou? Eu mentiria se dissesse que 'tudo são flores'. Não são. Longe disso. Longe da perfeição. Ela nem existe. Mas ainda assim, você é o meu vício. Aquele que não quero largar. Aquele que remédio algum seria capaz de curar. Meu vício para todas as horas. Meu vício em tudo. Só você. 

         Sorria. Abriu a janela do ônibus com o cuidado de não criar suspense ao próprio coração: avistou as tão belas e distantes mon...



         Sorria. Abriu a janela do ônibus com o cuidado de não criar suspense ao próprio coração: avistou as tão belas e distantes montanhas que tantas vezes desenhava em seu caderno da infância;
         Observou o velho jardineiro, ao pé da casinha de madeira, cultivando as lindas rosas e petúnias que encantavam o caminha da antiga estrada de terra;
Sentiu o puro ar de vida no campo, que tantas vezes desejou enquanto respirava a poluição da cidade grande;
         Ouviu o canto dos pássaros no alto das arvores, ou voando em contraste com o perfeito céu azul, numa sintonia impecável e emocionante, bem distante da cinza vista da metrópole;
         Fechou os olhos e se viu, aos 18 anos, abandonando o paraíso que julgou ser inferno, prometendo a si mesmo nunca mais voltar.
         Havia encontrado o caminho de volta para casa, para seu eterno lar, onde tantos, com a saudade acompanhada da esperança de tê-la de volta como parte do interior, a aguardavam.
         As lágrimas brotaram em seus olhos, se transformando em arco-íris e provando que, quem parte, sempre volta para seu interior.

O sol bem ao centro do céu. O relógio marca exatamente 12h. A igreja, a três quadras dali, badala o sino em 12 longos toques. Baixinho...



O sol bem ao centro do céu. O relógio marca exatamente 12h. A igreja, a três quadras dali, badala o sino em 12 longos toques. Baixinho, o inspetor de 60 anos, simpático velhinho com o bondoso aspecto de vovô, varre o pátio da escola de fachada azul. Dona Maria, cozinheira há mais de 30 anos, prepara a merenda para as crianças da tarde. Cinthia e Gabriela, ajudantes de cozinha, esperam na saída com o carrinho carregado de mupy. Bate o sinal, as crianças que passaram a manhã com seus professores, correm para o portão, pegam os saquinhos de mupy e se dirigem aos braços de seus pais. Todas entre 3 e 12 anos. A maioria, 6, como eu.

***

Lembro-me perfeitamente os detalhes. Eu não tinha pressa em sair da sala. Sabia que meu pai ainda não estaria lá.  Ele me buscava sempre depois das 13h, em seu horário de almoço. Eu chegava a ver as crianças da tarde. Vários rostinhos novos, animados para mais uma tarde entre pinturas, futebol e as primeiras letras, os primeiros números. Não tinham nomes para mim. Apenas esse: “as crianças da tarde”. Exceto uma. A Ruivinha. Era assim que eu a chamava. Olhos castanhos claros, esverdeados. Olhar superior e uma beleza incomparável. Ela nunca falava comigo. Apenas me olhava intrigada. Eu retribuía o olhar.
Certa vez, minha professora, a Shirley, sentou-se à mesa de merenda, comigo, enquanto eu esperava meu pai e saboreava o delicioso mupy de maçã, meu preferido. Ela era a única que sabia do meu namoradinho secreto, o Caio. Coisa boba de criança. Eu nem sabia o que era namorar. Foi a ela que eu contei que Caio tentou me beijar. Era um absurdo crianças da nossa idade namorando. Beijando na boca, então... Shirley compreendeu e me incentivou a crescer, esperar alguns anos antes de aceitar o primeiro beijo. Ela me disse que deveria ser com um alguém especial. Hoje eu tenho vontade de encontrar minha professora e dizer “Shirley, você tinha razão. Deveria ser com alguém especial. E foi”.
No dia seguinte, no mesmo banco, a professora se sentou, bem ao meu lado. Perguntou-me se eu já havia rompido com o Caio. Antes que eu pudesse responder, a Ruivinha apareceu. Meia hora mais cedo que o normal. Teria passado direto e sentado na outra ponta do banco, não fosse o convite da professora para juntar-se a nós. Anna Luisa. Esse era seu nome. Ainda hoje fico avermelhada toda vez que me lembro de que a minha professora partilhou com a desconhecida o meu segredo. Ela queria que a Ruivinha, ou melhor, a Anna, me ajudasse a tomar uma decisão. No dia a seguinte, Anna estava lá, à minha espera, na saída. E assim passamos todos os dias daquelas três semanas seguintes. Dias antes de entrarmos em férias, Caio me contou que iria morar em São Paulo, com a família. Nunca mais nos vimos.
Em 98, Anna e eu já tínhamos criado laços. Nunca tive, até então, uma amiga como ela. Víamo-nos todos os dias, entre as 12 e as 13 horas. Eu estava completando 8 anos de idade. Ela, 10. No ano seguinte ela foi para o ginásio. Eu fui transferida para o colégio novo, perto de casa. Foi nossa primeira despedida. Passamos os dois anos seguintes sem contato. Na virada do século, desejei reencontrá-la. Mas não tinha nem seu telefone. Século novo, colégio novo, vida nova... um velho rosto. Lá estava a Ruivinha. Olhos castanhos esverdeados, olhar superior e uma beleza incomparável. Essa era a Anna. A minha pequena Anna Luisa.
Foi aos meus 13 anos, ela com 15, que tivemos a tal ‘conversa’. Ela confessou estar confusa. Logo pensei que fosse a relação com os pais. Não via a mãe desde que tinha 5 anos e estava brigando muito com o pai, nos últimos meses. Mas era um pouco mais complicado.
- Acho que não gosto de homem, como deveria gostar.
- Como assim, Lu?
- Tenho vontade de beijar garotas. Tenho vontade de andar de mãos dadas com uma garota, sabe? Sei lá. Não tenho vontade de ficar com um garoto. Queria que meu primeiro beijo fosse especial. E não me vejo com nenhum garoto. Não me vejo dando meu primeiro beijo com um garoto. Olha, não quero que nada mude entre a gente, mas não consigo mais esconder. Eu tenho vontade de beijar você. Você deve me achar muito estranha, agora, né?
Na verdade, não. Anna só tinha a coragem que eu achei que nunca teria. Falar sobre sentimentos, ainda mais sobre esses. Eu também tinha vontade de beijar uma garota. Não uma garota qualquer, mas ela. Aquele dia terminou como um ponto de interrogação. Eu não sabia o que dizer quando a visse novamente. E o beijo, seria no rosto? Ou melhor, um aperto de mão? Um aceno, talvez? Tudo tão confuso. Não nos víamos mais nos corredores do colégio. Acho que nós duas estávamos nos evitando. Era uma quinta-feira. Se me lembro bem, em outubro. Eu estava pegando minha bicicleta, quando ouvi chamar meu nome. Ela agiu como se nada tivesse acontecido. Queria me acompanhar até minha casa, como sempre fazia.
A rua era larga. O canteiro central estava coberto pelas palmeiras. As casas de veraneio, vazias. Gostávamos dali porque era calmo e silencioso. Havia um banco, embaixo do coqueiro da terceira casa da esquerda, na segunda quadra. Costumávamos sentar ali todas as tardes, esperando o sol do meio dia baixar. E então nos sentamos. Eu me lembro que, naquela tarde, conversamos sobre nossos planos, sobre faculdade, ter 18 anos, aproveitar a vida, viajar, conhecer a Itália, a Irlanda (a mãe dela é irlandesa). Falamos sobre nossos pais, sobre a escola, sobre os cursinhos, meu time de vôlei, o time dela de futsal... não houve um toque, não houve um olhar. Simplesmente aconteceu. Era nosso primeiro selinho, não era um beijo de verdade, mas era especial. A professora Shirley tinha razão.
Caminhamos duas quadras. Foi quando eu percebi que estava a uns três passos adiante dela. Ela estava inquieta, olhando para o chão, chutando pedregulhos da calçada, com um sorriso molhado e certa tristeza no olhar. Larguei a bicicleta e voltei os três passos. Ela levantou a cabeça, olhando nos meus olhos e perguntou:
- Promete não esquecer disso?
- Disso o quê?
- De tudo! De quando nos conhecemos, de quando brigamos, de quando contamos piadas, de quando eu pulo no seu colo, desse beijo...
- Se te conheço bem, você nunca me deixará esquecer – havia um sorriso na minha fala, tentando disfarçar o medo de perguntar o porquê daquela conversa e procurando aliviar a tensão. Mas ela não sorriu.
- Talvez eu não esteja aqui para te lembrar.
- Do que você está falando?
- Vou morar com minha mãe. Na Irlanda.
Aquela foi nossa segunda despedida. Não consegui dizer mais nada. Só abracei e chorei. E chorei tanto que as lágrimas não me permitiram vê-la partir. Mas eu sei que ela também chorava. Chorava muito. Saiu quase que correndo daquela rua.
Um ano se passou. Eu estava com quatorze anos quando dei meu segundo selinho. Namorei a Camila por oito meses. Ela tinha problemas com drogas e saiu da escola pouco depois que terminamos. Na verdade nem era, de fato, um namoro. Apenas estávamos juntas. Curtíamos uma a outra. Camila resolveu o problema com as drogas e engravidou aos dezesseis anos. Não cheguei a conhecer a filha dela. Recebi uma carta com uma foto, meses depois. Nesse tempo, minha vida havia voltado ao normal. Anna retornou da Irlanda em 2 de setembro de 2006. Lembro-me bem da data porque fizemos uma festa surpresa para dois colegas de sala que faziam aniversário. Ela simplesmente apareceu na festa, sem avisar.
Nos beijamos em 22 de setembro, mas eu já havia me apaixonado por outras pessoas. Ou melhor, por outra pessoa. Meu amado Ser, meu primeiro beijo de verdade, o que causou nossa terceira despedida. No início de 2008 voltamos a nos falar. Ela morando na capital. Eu, no litoral. No ano seguinte, entrei na faculdade e fui morar na capital. Estávamos começando a nos entender, quando tudo de repente acabou após uma traição e uma gestação. Foi a quarta despedida. Ela perdeu o bebê aos 4 meses. Pouco depois, perdeu a mãe. O pai, decepcionado, se isolou. 
Com o passar dos anos, as coisas foram melhorando. Os problemas, se revolvendo. A relação com o pai, se reestabelecendo. Aos poucos fui enxergando, novamente, a minha Ruivinha naquela Anna mais velha. Infelizmente não possuímos o poder de controlar a vida por completo. Aos 24 anos, Anna foi diagnosticada com LMA – leucemia mieloide aguda, um tipo de câncer com baixo índice de mortalidade. O tratamento correto, as sessões de quimioterapia indo bem. Eu a veria na segunda-feira, 3 de setembro de 2012, após a faculdade. O telefone toca às 11 horas. Anna se foi. E eu não dei meu último adeus.
***

Olha... veja só! Nossa primeira foto juntos. Já faz tanto tempo, não é mesmo? Quase me esqueci desse seu sorriso encabulado, ainda na dúvid...

Olha... veja só! Nossa primeira foto juntos.
Já faz tanto tempo, não é mesmo? Quase me esqueci desse seu sorriso encabulado, ainda na dúvida se me levaria pra dançar numa boate ou melhor seria um romântico jantar. E depois, quando finalmente decidimos passear pela avenida, observando as estrelas, um saxofonista parou-nos para dedicar ao 'casal apaixonado' uma romântica canção. Você gaguejou ao tentar dizer que não somos um casal, mas nem conseguiu completar a frase. Depois olhou-me, corado, ainda sem saber o que fazer em seguida. Estava esfriando, então você colocou sobre mim seu casaco macio. Ah, como amei aquele momento. Estivemos tão perto de um beijo... e seu perfume era tão bom, impregnado no casaco sobre mim!

Já faz tanto tempo, mas ainda posso me lembrar do cheiro da comida do restaurante que você me levou. Hoje passo por aquela avenida e vejo uma casa de shows no lugar daquele restaurante. As pessoas hoje pensam que são felizes ali, mas jamais sentirão o êxtase de felicidade que tive quando, entre a entrada e o prato principal, você disse que não parava de pensar em mim desde que viu meu sorriso pela primeira vez, quando lhe vendi aquele par de meias e as gravatas de seda coloridas. Inacreditável como em apenas duas semanas você precisou comprar 30 gravatas diferentes. Acho que você jamais as usou.

Já faz tanto tempo... e parece que não foi tempo suficiente para vivermos esse amor. Agora, que você se foi, tenho essas fotografias que me fazem chorar. Não de tristeza, mas pela certeza de ter vivido o melhor amor que eu poderia viver. Você se lembra, naquela noite, após o jantar? Você me deu o primeiro beijo e disse que havia uma grande chance de estar me amando desde antes de você entrar na loja e comprar aquelas gravatas. Aquela foi a primeira noite das milhares de noites felizes que tive ao longo desses 60 anos ao seu lado. E não teve uma noite sequer que tenhamos colocado as cabeças nos travesseiros sem dizer as palavras que hoje ecoam no meu coração: EU SEMPRE AMAREI VOCÊ!

Não sei como começar. Meu coração diz coisas que as palavras não são capazes de pronunciar. Meus medos compreendem o silêncio impreciso ...


Não sei como começar. Meu coração diz coisas que as palavras não são capazes de pronunciar. Meus medos compreendem o silêncio impreciso do meu coração. Não sei onde isso vai parar. Parece que essa palpitação é loucura. Espere! Este estado de loucura tomou conta do meu ser. Estou louca!  Uma loucura aguda. Ouvi dizer que chamam isso de paixão. Ah, doce paixão. Eis teu nome a palavra mais pronunciada pelo meu coração. Eis tua voz a sussurrar-me excitante canção. E quando fecho os olhos, mergulho fundo nos prazeres dessa emoção.

Teu corpo a enroscar-se no meu, teus lábios beijando-me por todas as partes do meu corpo. Tuas mãos... e carícias... e delírios... e prazer. Quero você por completo. Quero cada centímetro de ti. Quero deleitar-me neste sexo e esquecer o mundo lá fora. Se mil anos eu vivesse, mil anos viveria desse teu amor. E cada gota de suor valeria a pena. Ah, suor... o calor da paixão. Nunca pensei ser assim tão quente. Seja numa noite de verão, ou no mais frio entardecer do inverno. E mesmo a primavera, com toda a sua beleza em cores, as flores, sentiria inveja desse nosso bel prazer. E enquanto as folhas caíssem empalidecendo o outono, nossas chamas permaneceriam acessas até o fim. E que fim seria esse, se nossa vontade é insaciável, se nosso prazer não possui data de validade?

As curvas do teu corpo, já sei de cor. As pintas que te marcam, conheço todas. Percorro cada região do mapa do teu corpo. Meu parque de diversões. Minha, somente minha fonte de prazer. E retribuo com o mesmo afinco. Com o mesmo gosto, com o mesmo dom. E retribuo mais e mais. E quanto mais retribuo, mais inspirados voltamos. E começamos tudo de novo. E dessa vez são minhas mãos, minhas carícias em ti, delírios e prazer. Muito prazer. Todo prazer.

Em nosso clímax, delírio, loucura, sussurros, chamas, prazer... já não sabia meu nome. Já não sabia quem era eu. Mas ali queria contigo ficar. E queria mais. E mais. E muito mais. Meu erro foi não olhar nos teus olhos. Meu erro foi cair em delírios e esquecer-me de tudo. O erro foi meu. Em nosso clímax... o nome de outro eu pronunciei. 

Cena do filme  Imagine que o amor é possível, e todas as coisas boas nos acontecem. Imagine que não há barreiras, nem tristeza, nem acen...

Cena do filme 
Imagine que o amor é possível, e todas as coisas boas nos acontecem. Imagine que não há barreiras, nem tristeza, nem acenos de adeus eternos. Imagine que o mundo se resuma, pelo menos por alguns segundos, nesse amor entre você e eu.

Lena Headey e Peper Perabo estrelam este filme embalado por The Turtles, com a animada canção Happy Together. Contratada para enfeitar o cenário do casamento, a florista apaixona-se pela noiva, de forma pura, a noiva também se apaixona por sua florista.

Não apenas de dificuldades sociais, mas também familiares e estruturais é o que trata esse filme. Dificuldades superadas e transformadas em algo belo com o amor improvável que nasceu entre essas duas mulheres. 

Não há apelo sexual. Apenas amor. E compreensão.

Mais uma assinatura, e o ‘parto’, como o chamamos ao longo dos últimos seis meses, estaria finalizado. Pelo menos por um tempo. Em dezem...


Mais uma assinatura, e o ‘parto’, como o chamamos ao longo dos últimos seis meses, estaria finalizado. Pelo menos por um tempo. Em dezembro outro parto faremos, mas por hora, esse é o que tenho a dizer. 
As três cópias encadernadas foram devidamente entregues em papel envelope pardo. Enquanto aquela assinatura final marcava a parte direita do canto do papel, cenas dos últimos anos passavam pela minha cabeça. Desde o primeiro dia de aula, ainda indecisa, caminhando em direção ao auditório, me sentindo perdida frente ao mundo de conhecimento que estava à minha espera, até minutos antes, ainda na gráfica, observando a máquina imprimir página por página daquele trabalho.

Desses três anos, tenho muito que lembrar. Coisas boas, inesquecíveis. O tipo de história que eu contaria para meus netos, como aquela vez em que saí com o pessoal da faculdade para um tour pelo bairro da Liberdade. Ou daquela vez que atropelei um poste e escorreguei na calçada, no momento mais movimentado do dia. Lembro também de quando fomos ao MASP, ao Centro Cultural de São Paulo, ao Ibirapuera, ao Parque da Independência. As aulas de teatro, as oficinas, os simpósios e as apresentações. Inesquecível também nossas sextas-feiras do pastel, que virou tradição. Não seria sexta-feira se a galera não se reunisse e comesse pastel na feira. Outros momentos eu bem preferiria esquecer. Para quê desenterrar coisas que não valem a pena lembrar? Quantas discussões e desentendimentos bobos não tivemos ao longo desse tempo? Melhor deixar para trás.

Mas o que mais gosto de lembrar - e dividir aqui com vocês – é a riqueza , o conhecimento e a sabedoria que adquiri nesse período. E isso não somente no que diz respeito ao jornalismo, mas toda a experiência, positiva ou negativa, as relações, os valores éticos e morais, as desilusões... Aprendi que ninguém está salvo do erro, que ninguém é perfeito e ninguém sabe tudo. Há sempre algo a aprender. Aprendi que observar os mais velhos é a coisa mais sábia que posso fazer. Aprendi também que não devo me calar, mas saber o momento certo de falar. Também aprendi que tudo tem dois lados. Ou mais. Talvez não haja uma verdade absoluta, mas há várias verdades, que podem nos fazer chegar mais próximo da verdade mais pura. Aprendi que filosofia e matemática tem tudo a ver com tudo. E quantas relações de poder (Foucault) em encontrei por onde andei. Aprendi que não sou maior ou melhor que ninguém, não tenho poderes nem varinha mágica, mas da mesma forma como posso aprender, também posso ensinar. Aprendi que o mundo pode ser redondo, ou pode não ser. O que importa mesmo é que descobri que ele não gira à minha volta. Aprendi a amar as coisas simples e ver beleza no que pouco chama atenção. Aliás, aprendi a diferença entre belo e beleza. Aprendi o que é arte e o que é ponto de vista. Aprendi a pesquisar e também a argumentar. Aprendi e aprendi e aprendi e quanto mais eu viver, mais poderei aprender.

E não teria aprendido nada disso, não fossem os professores que jamais esquecerei. Afinal, quantas vidas vocês têm*? Eu tenho só uma e quero vivê-la por completo. Quero experimentar aprender um idioma por ano*. Quero fazer parte do projeto de Brasil*. Quero mensurar* meus próprios erros, concluir vários projetos de pesquisa*, quero saber identificar  a gestalt e o behaviorismo*, quero dar boas risadas* com o que vale a pena. Teeeeenso*, mas também quero receber puxões de orelha para o que deveria ser óbvio*. Ah, e esse parto foi apadrinhado. Pela madrinha mais fofis*.   

Não apenas no corpo docente, mas tantas pessoas incríveis que aqui encontrei. Alguns nomes foram substituídos por carinhosos apelidos. Outros não tão carinhosos assim. Aliás, vários outros. Dá até pra formar um coral. Mas chega de lero lero.

Hoje somos 12. A gota. Mas já fomos 13, 14... Acho que chegamos a 17, em algum momento. Mas se eu fosse reuni-los aqui, passaria dos 50. Não somente jornalista do Engula Isso, mas futuros comunicólogos que trago no lado esquerdo do peito. Alguns saíram. Outros apenas mudaram de horário. Mas jamais deixaremos de ser colegas. Amigos. Irmãos. Dificuldades que enfrentamos juntos, conquistas compartilhadas, risos trocados, palavras gentis e gestos de carinho. Eu aprendi, com tudo que vivi aqui, com todas essas incríveis pessoas, que o “essencial é invisível aos olhos” (SAINT-EXUPÉRY, pág. 38). Um dia eu os agradecerei por tudo que vocês representam em minha vida. A gota. É o que somos.  E aos participantes desse parto, parabéns e muito obrigado. Apesar de alguns deslizes e dificuldades, tivemos lindos filhotes. E eles serão muito bem aceitos na pré-banca.

Lá se vai o último ponto da assinatura. O envelope está sendo lacrado e entregue aos supervisores. Troca de olhares entre os pais. Momento de tensão, aflição, loucura e paixão. Quase posso ver lágrimas rolar por nossos olhos. Agora é só trabalhar. Assim como os pais trabalham duro para verem seus filhos crescerem. Assim trabalharemos. Com tal afinco e prazer. Assim conquistaremos. Assim seremos os melhores pais que poderíamos ser. Bem vindo ao mundo, TCC.



*Frases clássicas que lembram alguns dos nossos professores:
”...quantas vidas vocês têm?” –  Rovilson
“...idioma por ano” – Zamagna
“...projeto de Brasil” – Rodrigo
“mensurar” - Guaracy
“...projetos de pesquisa” – Helen Suzuki
“...gestalt e o behaviorismo” – Cleusa Sakamoto
“...boas risadas” - Caramez
“Teeeeenso” – Adriano Miranda
“...receber puxões de orelha para o deveria ser óbvio” – Wagner Belmonte
“Pela madrinha mais fofis” – Lilian Crepaldi

          Feriado prolongado. Isso só a faz lembrar uma coisa: praia. E é pra lá que Daniela Davanso vai. O Dobló  prata já passou pela r...



          Feriado prolongado. Isso só a faz lembrar uma coisa: praia. E é pra lá que Daniela Davanso vai. O Dobló  prata já passou pela revisão. Uma última parada na lanchonete antes da viagem. Agora será apenas ela, o carro e a estrada. Ah, sim, não poderia esquecer a trilha sonora. Marisa Monte será a responsável. Seu novo CD, O que você quer saber de verdade, ganhou de presente no Amigo Secreto da faculdade. Ainda não conseguiu ouvir.          

Um Ford velho azul cruzou o seu caminho. O motorista, um senhor com aparência hostil, barba mal feita, cabelos brancos e um cigarro caindo pelo canto esquerdo da boca, ultrapassa em local proibido e faz sinal obsceno para Daniela. No tumultuado trânsito da Capital, Daniela teria xingado, gritado, devolvido gestos igualmente hostis.  Mas aquele feriado seria de felicidade, nada iria impedi-la de aproveitar. Marisa, a cantora, dizia exatamente isso para ela: “Vai sem direção, vai ser livre. A tristeza não, não existe. Solte seus cabelos ao vento, não olhe pra trás.”. Era isso que ela iria fazer. Esquecer-se de olhar para trás, por pelo menos quatro dias. As últimas semanas foram complicadas. Ela não achou que gostar de alguém fosse tão complicado assim.
          

Enquanto passava pela divisa de São Bernardo e São Vicente, Marisa Monte falava sobre andar descalço no parque. Parecia que tudo o que Daniela sentia, Marisa cantava. “Pois a cada hora que passa leva comigo uma saudade de você, meu amor.” No pedágio, aquele olhar era tão parecido, mas nada se comparava à sua paixão. Uma fugaz lembrança daquela mesma cabine, meses atrás. Era uma viagem romântica. Uma segunda lua de mel.
          
Os túneis tamparam a visão da lua. Vários minutos se passaram enquanto o carro percorria aquele trecho. Estrada longa e lotada. À frente, um Sportage azul marinho com duas bicicletas em cima. Jovens recém-casados, provavelmente. A placa era de Embu das Artes. Ao lado, uma Saveiro branca transportava móveis antigos. Na outra faixa, um Crossfox vermelho. Igualzinho o carro de seu amor. Bandido amor. Até Marisa percebeu. “Depois de aceitarmos os fatos, de trocar seus retratos pelos de um outro alguém. Meu bem, vamos ter liberdade, para amar à vontade sem trair mais ninguém”. Lágrimas escorriam pela face da menina-mulher. Melhor seria trocar de faixa, mas Marisa não colabora. “Amar alguém só pode fazer bem, não há como fazer mal a ninguém. Mesmo quando existe um outro alguém, mesmo quando isso não convém”. Como poderia alguém amar duas pessoas ao mesmo tempo? É algo inaceitável, para um coração fiel. Daniela não podia aceitar. Não conseguiu aceitar. Sentiu-se traída, sentiu-se minimizada, hostilizada.
          

O equipamento de som do carro continuava funcionando, mesmo com a tentativa desenfreada de Daniela de calá-lo. Os botões não respondiam. A estrada estava ficando mais escura, mais perigosa. “A tarde estava fria. Frio também ficou meu coração ao compreender que ele partia. No branco lencinho, chorei sua traição.” Estava explicado porque Daniela evitara tanto aquele CD.
          

Marisa continuava falando para ser feliz. Ser feliz. Era óbvio. Tudo estava óbvio. Só Daniela não percebeu. Logo poderia cantar, com felicidade, a canção de Marisa. “O meu coração já estava aposentado. Sem nenhuma ilusão, tinha sido maltratado. Tudo se transformou. Agora você chegou, você que me faz feliz, você que me faz cantar, assim...”

           No alto da serra já era possível ver as luzes da baixada. Em poucos minutos estaria na casa dos pais, onde cresceu e passou os melhores anos de sua vida. “Para que ficar, mas pra onde ir? Todo lugar tem o seu aqui.” Daniela Davanso decidiu voltar para seu lar.

Há um caminho. E no caminho muitas curvas. E nas curvas o perigo. E no perigo o medo. E no medo a razão. Não sei há quanto tempo percor...




Há um caminho. E no caminho muitas curvas. E nas curvas o perigo. E no perigo o medo. E no medo a razão.

Não sei há quanto tempo percorro esse caminho, nem por quanto tempo hei de percorrê-lo ainda. Mas avisto, ao além, a mais nobre premiação dos amores que trago no peito. Desventuras incompletas, sê-lo por fazer a mais certa.

Não trago nada além da verdadeira paixão. Eis minha coroação.




Desde criança eu escondo meus medos. Inflijo a lei da sinceridade e minto à mim mesma. O alto de um morro ou a janela do apartamento do último andar me davam vertigens. Mas eu não podia demonstrar. Pelo contrário. Fazia questão de subir à mais alta pedra do morro, ou sentar-me à beira da janela do último andar.
Enfrentava meus medos, como se fossem esses meros lampejos. Não admitia qualquer receio.
Havia, certa vez, uma cobra d'água no caminho do colégio. Em meus 7 anos mal poderia diferenciar essa de uma cascavel. Mas meus olhos arregalaram-se de fato, meus lábios secaram, meu coração de um salto disparou. Mas algo impulsionou-me a enfrentar aquele medo. Pisoteei o animal sem dó.
Ainda hoje não suporto o fato de sentir o medo e não enfrentá-lo. Uma de minha atividades favoritas é pegar o carro com os amigos e ultrapassar os limites de velocidade. Quão prazer sinto com o disparo do coração ao descer íngremes ladeiras, ao voar pelas curvas, ao transformar a leve brisa na mais forte ventania.

E todos meus medos foram efêmeros. Indignos de qualquer sacrifício. Até que conheci você...

Tenho medo de dizer 'oi', e não ser respondida.
Tenho medo de desejar 'boa noite' numa noite vazia.
Tenho medo de dizer 'bom dia' quando você não puder me ouvir.
Tenho medo de lhe estender a mão enquanto meus braços forem curtos para lhe alcançar.
Tenho medo de lhe pedir ajuda quando você não puder ajudar.
Tenho medo de querer agradar e acabar por ser inconveniente.
Tenho medo de falar, quando deveria escutar.
Tenho medo de esperar o que não poderá vir.
Tenho medo de desenhar uma imagem que não há como ser verdadeira.
Tenho medo de lhe oferecer o mundo e não possuir nem a metade.
Tenho medo de te carregar ao horizonte e descobrir que não há como voltar.
Tenho medo de que meu nome um dia seja substituído por outro qualquer.
Mas acima de tudo, tenho medo que tudo o que sinto por ti, que posso dizer é mais forte que qualquer outra sensação que eu já tenha experimentado, acabe um dia.

E esses medos, minha cara, não posso enfrentar.
Tantas vezes planejei o momento de te encontrar, mas uma lista de medos e receios caiu sobre minhas mãos, e qualquer impedimento serviu como desculpa para adiar esse momento.
Tantas vezes digitei um 'olá', ou um 'bom dia', mas meus dedos deletaram cada caractere com receio do que pudesse vir como resposta, ou pior, da ausência de resposta tua.
Tantas vezes escrevi poemas simples, como aqueles que escrevia aos 12 anos, mas apaguei com medo de ser mal interpretada ou parecer infantil demais.

E a ideia sempre surpreende ao perceber que o final é o mesmo do início. Voltas e voltas e um de meus medos, que se une agora ao medo de admitir, é saber que um dia posso eu sentir o mesmo por outra pessoa. Disso sim, tenho medo e não consigo impedir-me de senti-lo.
Você diz temer que meu amor seja apenas em palavras. Eu temo que você possa estar certa, algum dia. E isso me corrói a alma a cada segundo, pois, se não é amor, que é isso que sinto então?

Mas o que mais destrói meu coração, é saber que não sou a pessoa certa para você. E tanto tenho medo de um dia te magoar. Não suportaria ver nos teus olhos o sofrimento causado pelos meus. E tanto tenho medo e medo maior de enfrentá-lo, que lá no fundo sinto um alívio ao saber que outra pessoa lhe faz feliz. E por estar feliz com outra pessoa, sei que está protegida de mim, e assim poderei estar sempre com você, ao teu lado, mesmo não estando perto, pois o medo maior que possuo é de um dia te perder...

Pela janela do carro, eu podia ver Anna do outro lado da rua, fechando a porta de casa. Seis horas da manhã. Edu, seu vizinho skatista, atra...



Pela janela do carro, eu podia ver Anna do outro lado da rua, fechando a porta de casa. Seis horas da manhã. Edu, seu vizinho skatista, atravessava a calçada em direção à escola. Dona Marta saía para passear com o cãozinho que ganhara do filho mais velho. Seu Adalto cumprimentou minha amiga. O entregador de jornal, atrasado, quase lhe acertou a testa ao lhe jogar as notícias. Anna não se importou em ler nenhuma. Ela encarava os papéis com o carimbo da clínica que estavam em suas mãos. Suas mãos trêmulas seguravam os exames. Várias letras miúdas e termos impossíveis de serem entendidos por uma designer. Positivo, negativo, medula óssea, mielóide, blastos, LMA... o que eram todas aquelas coisas? Deveria esperar mais duas horas até ser chamada pelo especialista. Deveria esperar mais duas horas para saber se estava com câncer ou não.
            Anna estava com medo, ansiosa, receosa. Ouviu depoimentos de pessoas que passaram pela doença. Depoimentos também de pessoas que perderam alguém para a doença. Viu casos na televisão. A novela apresentou o sofrimento da personagem. Do outro lado da rua, eu esperava no carro. Duas buzinas trouxeram Anna de volta. O que ela deveria fazer? Correr e chorar nos meus ombros? Ou melhor seria acalmar-se e ir confiante à clínica? Ao atravessar a rua, quase foi pega por uma moto acima do limite de velocidade. “Melhor seria morrer de uma vez, que passar pelo sofrimento de uma longa doença”, pensou.
            Anna Luisa Signorelli é designer, 23 anos, mora sozinha no apartamento de três quartos na Rua Sena Madureira, Vila Mariana, na zona sul de São Paulo. Não fala com o pai há dois anos. A mãe foi embora quando ela tinha 5. A única família que tem é seu irmão Kevin, que mora no Rio de Janeiro, e sua prima de terceiro grau Sophia, que passa longas férias em Barcelona. Aos primeiros sintomas, recorreu à única pessoa de confiança que poderia acompanhá-la em todos os exames: eu.
            O trajeto, que geralmente dura uma hora e meia, foi percorrido em quarenta minutos. Não havia trânsito, ou buzinas, ou pessoas xingando outras logo pela manhã. Ao chegar à clínica, Anna e eu fomos para a sala de espera, onde permaneceríamos por quase uma hora e meia, à espera da resposta. Éramos duas amigas sempre com assuntos pendentes, conversas para ‘botar em dia’, mas naquela manhã, o momento pedia silêncio. Um constrangedor silêncio. Eu não sabia o que fazer, se devia consolá-la, ou contar piadas. Não sabia se era hora de lembrar as cenas da nossa infância, episódios que prometemos jamais esquecer, ou isso iria soar dramático demais para a ocasião.  E ela já estava chorando.
            O fato é que eu estava com medo. Tanto quanto ela, tanto quanto não imaginei que pudesse estar. Meu medo aumentou, quando a ouvi dizer: “O que eu acho mais engraçado é que quando você está bem, ou parece estar bem, encontra mil e um motivos para reclamar da vida.” Lágrimas escorreram pela sua face, um momento de pausa antes de continuar a falar. A gagueira, que na adolescência chegava a ser um charme, naquele momento transmitia desespero. “Há sempre alguém, em algum momento, que diz que preferia estar morto, ou mesmo nem ter nascido. Mas quando algo do tipo acontece, é impossível controlar esse medo, essa angústia de dentro de você.” Um outro momento de pausa. O farol fechado. Rádio desligado. A avenida ainda vazia. Só o soluço de Anna irrompia o silêncio por alguns segundos.  Tentei dizer algo, mas uma vontade de chorar controlava minhas ações. Uma palavra, e eu gaguejaria tanto quanto ela. Melhor seria esperá-la falar. “Não é só o medo da morte que eu digo, mas o medo de não viver, de deixar de desfrutar da beleza da vida, de não mais poder tomar uma água gostosa, não mais sentir o cheiro de uma flor em meio a tantos espinhos, medo de não mais provar o sabor de uma nova especiaria culinária.”. Enquanto Anna falava, algumas cenas vinham à minha mente, como a primeira vez que fomos ao cinema, a lasanha que ela tanto havia prometido e acabou deixando queimar, a batida de maracujá, os livros que lia e fazia questão de resumi-los à mim e quando tomávamos banho de mangueira no quintal, num dia de verão. “O medo de não saber o que vai acontecer com os meus amigos, medo de nunca mais falar com meu pai, ou jamais encontrar minha mãe. Medo de nunca mais poder desenhar, nunca mais passar madrugadas terminando um trabalho para entregar nas primeiras horas do dia, ou ir à praia, jogar futebol no campinho molhado, sentir a chuva tirando o peso de um cansativo dia de trabalho. É disso que tenho medo. Não é do que pode vir após a morte, mas o que não virá depois dela.”. E uma última cena ficou marcada em minha memória até chegarmos à clínica, quando Anna e eu demos nosso primeiro beijo, sete anos atrás. “Nada de ruim vai acontecer com você, Anna. Eu prometo.” Foi tudo o que consegui lhe dizer, enquanto a lágrima caía, disfarçadamente, sobre meu rosto.
            O relógio branco acima da bancada da recepcionista confirmava: a longa espera se prolongaria por mais cinquenta minutos. Uma senhora, acompanhada da neta caçula, também esperava o resultado dos últimos exames. Tem sofrido com a doença há meses. Perdeu o cabelo, devido o tratamento de quimioterapia, perdeu o gosto pelas coisas. Desiludida, aguardava a sentença final.  A neta, uma jovem universitária, na certa com a mesma idade da Anna, desesperava-se com as duras palavras da mulher. O médico chamou a senhora. A neta a seguiu. Minha amiga prometeu-me que, com doença ou não, jamais faria pesar em seu peito, ou nas pessoas ao seu redor, a dor da desilusão. Prometeu-me ser forte, até o fim. A sala ficou silenciosa, exceto pelo discreto barulho do movimento dos ponteiros no relógio branco acima da bancada. Tic tac tic tac...
            Vinte minutos para o atendimento. Anna já havia folheado todas as 30 revistas da sala. A recepcionista acessava o Facebook. Uma muda TV ligada exibia o jornal matinal. Acidentes de trânsito, roubos e assaltos pela madrugada, tempo, dicas de saúde e eventos culturais. Anna estava impaciente. Olhava para a porta da sala do médico a cada cinco segundos. Seus olhos expressavam terror. Olhou em minha direção, com as lágrimas de volta em seu rosto. Dessa vez soluçava. Soluçava forte. Seu olhar pedia ajuda, pedia consolo. Só pude abraçá-la forte e dizer que tudo ficaria bem. Abraçamo-nos por cerca de 8 minutos, até sermos interrompidas por uma grave voz. O médico nos chamava.
            Anna entrou sentindo um forte calafrio percorrendo seu corpo. Tremia forte. As pernas balançavam. O médico, acostumado a lidar com situações difíceis, acalmou-a e ajudou-a a sentar na confortável cadeira.  Doutor Aurélio começou explicando os sintomas da minha amiga. Falta de ar, fadiga, hemorragia, as várias infecções... quanto mais ele falava, mais confusa Anna ficava. “Identificamos em seu sangue a presença de blastos que, acumulados na medula óssea, interferem na produção comum do seu sangue.” Ficamos mudas. Não entendemos bem a situação, ou tínhamos medo de raciocinar o que acabara de ser jogado em nossas mãos. “Doutor” – perguntou minha amiga – “o que isso significa?”. O médico me olhou com cautela, como que solicitando meu auxílio para apoiá-la naquele momento. Acenei positivamente com a cabeça, demonstrando meu entendimento. Anna, ao ver toda a movimentação, começou a chorar novamente.
“Você está com leucemia mieloide aguda, que chamamos de LMA. É um câncer presente nos glóbulos brancos. É mais comum em adultos, mas posso já lhe tranquilizar que as chances de cura são grandes.” O LMA é um câncer raro, mas ainda mais raro é o índice de mortalidade desse tipo de câncer. Anna deverá passar por sessões de quimioterapia e, se tudo der certo, estará livre de um transplante de medula óssea. Caso contrário o transplante será essencial, mas o oncologista afirmou que Anna não deveria se preocupar com essa fase, nesse momento. O mais importante era ela estar firme e segura durante o tratamento da quimioterapia. “É importante também você descansar, estar com amigos ou familiares. Você tem uma espera ainda maior, pela frente. O da cura. E ela depende exclusivamente de você.”. Com essas palavras, o médico entregou todos os exames e alguns medicamentos para iniciar o tratamento. Entregou também um pedido de alguns exames menores. Ele estava certo. O tratamento, agora, só depende dela. E ela vai esperar pela cura, vai batalhar por ela.