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O amor de verão Praia do Cibratel I - Itanhaém. Imagem: Bruna Sousa             Quem nunca viveu um romance de férias ou um amor d...


O amor de verão
Praia do Cibratel I - Itanhaém. Imagem: Bruna Sousa

            Quem nunca viveu um romance de férias ou um amor de verão não sabe o que é viver. Aquela alegria, a vontade de se jogar no mundo sem se preocupar com o amanhã, sem se preocupar com os horários do colégio ou da faculdade ou do trabalho, a certeza de estar fazendo o momento valer a pena, uma certa dúvida se a relação vai subir a serra ou não, mas sem deixar que afete o romance... Ah, sim. Eu tive um. Na verdade, não sei se posso definir como amor de praia, propriamente dito, era, na verdade, uma relação de amor e ódio nos verões da minha vida.
            Lembro-me como se tivesse acontecido no verão passado, mas já se foram seis. Todas as férias eram a mesma coisa: minha amiga Loira descia a serra e se hospedava no hotel ao lado da minha casa. Encontrávamos a nossa amiga Morena e passávamos o dia juntas: na praia, no quiosque, no shopping, na praça, no boliche, no biliar... éramos apenas nós três, mas aquele ano foi diferente. Minha irmã resolveu andar conosco. Numa certa tarde, caminhando na ciclovia com as meninas, de repente deixo de prestar atenção na conversa e observo, fixamente, uma garota Ruiva tomando uma ducha no quiosque. Ela estava acompanhada de um casal de japoneses. As meninas, ao perceberem meu silêncio, também notaram as três figuras que saíram do quiosque e atravessaram a avenida em direção ao bairro. Elas pareciam tão interessadas quanto eu, então sugeri: “Vamos seguir”. Indiscretas, deixamos a Ruiva e os japoneses notarem nossa presença. Tentamos, tardiamente, disfarçar, mas os perdemos de vista. Procuramos pelo bairro todo e nada de encontrá-los.
            No dia seguinte passamos pelo mesmo quiosque e eles estavam lá. A Ruiva olhava para nós. Nós olhávamos para ela. “Você viu primeiro! Vai falar com ela”, disse minha amiga Loira, empurrando-me de forma nada sutil. “Eu vou, mas vocês vão comigo”. Não lembro bem qual foi a primeira coisa que eu disse, mas lembro de ter comentado que nunca os vira por ali antes. De fato, era a primeira vez deles naquela praia. A Ruiva nos recebeu muito bem, mas logo de cara já me veio a primeira cócega na orelha... deixe-me explicar: sempre que estou nervosa ou encabulada, começo a coçar a ponta da orelha para me distrair. É como contar até dez para não socar uma pessoa. Funciona. A Ruiva disse que tinha certeza de que iríamos chegar nela. “Convencida” – pensei - “perdeu o encanto”. Nos apresentamos e ela disse que eram irmãos, mas ela era adotada. Não sei explicar o porquê, mas aquilo não me convenceu. A Loira os convidou para jogar sinuca no hotel conosco. Eles aceitaram, mas disseram que iam passam em casa, tomar banho e voltariam mais tarde. Não apareceram.
            No outro dia, minhas amigas e eu fomos caminhar na praia. Logo ouvimos nossos nomes ao longe: a Ruiva e os Japoneses. “Podemos acompanhar vocês?”, perguntou a Ruiva. “Claro”, respondeu a Morena. A Loira começou a fazer perguntas do tipo “o que vocês fazem?”, “de onde são?”, “estão hospedados em casa ou hotel?”, “namoram?”. Os Japoneses mal abriam a boca. Apenas concordavam ou discordavam e riam de alguns comentários, como se fossem anexos de nossas conversas. Eles não eram irmãos. Eram todos amigos de infância. “Foi uma piada”, disse a Ruiva. Não sou boa em piadas, mas não achei nada engraçada. Aliás, ela era cheia de piadas sem graça que só ela entendia. Minha orelha vivia coçando perto dela.
Voltamos para o quiosque, tomamos sorvete, jogamos sinuca no hotel, voltamos para a praia no fim de tarde e fomos à pizzaria à noite. Não foi preciso dizer, mas logo ficou implícito: a Ruiva e a Japonesa eram lésbicas e o Japonês era gay. Ele ficou bêbado com apenas um copo de cerveja e criou o que virou bordão do grupo: “por você eu viro hétero”. Havia uma mesa, próxima de nós, com pelo menos seis caras fortes e bonitos. Um deles, talvez o mais bonito de todos, chegou a nossa mesa nos convidando para juntarmos a eles. Outro bordão, dessa vez dito pela Loira: “é tudo gay! Menos ela, pode levar!”, apontando para a minha irmã, às gargalhadas. Envergonhado, o rapaz pediu desculpas pelo inconveniente e voltou para o lugar dele.
            Passamos o restante da semana nessa rotina: praia, bicicleta, skate, sinuca, praia, pizzaria, sinuca, praia de novo... eu não suportava a Ruiva, não suportava mais tantas histórias que ela contava, se gabando sobre cada conquista que fizera, sobre todas as ficadas, todos os foras que deu. Toda vez que minhas amigas e eu falávamos dela, ou quando ela se aproximava, cantávamos, carinhosamente: “eu tinha uma galinha que se chamava Marylou”... mas eu estava atraída por ela. Em uma tarde, ela pediu para acompanha-la à praia. “Qual é a da sua amiga Loira?”, perguntou. Respondi, de forma seca, que ela estava interessada na Japonesa. Ela riu. Por um minuto achou que eu estivesse brincando e disse que não achou que a Japonesa fizesse o tipo da Loira. E que ela estava interessada na minha amiga. Ao contar a conversa para minha amiga, me surpreendi com o ataque de riso dela. Após tomar fôlego, ela brincou: “que círculo maluco, meu! Você tá afim da Ruiva, que tá afim de mim, e eu tô afim da Japonesa, que tá afim de você! ‘Toim’ pra quem ficou de fora! Aposto que ninguém vai pegar ninguém nesse verão!”. As férias chegaram ao fim e minha amiga estava certa. Todos foram embora e acabei não me despedindo de ninguém.
             No ano seguinte, eu estava sentada na calçada da minha casa, triste, pois tinha acabado de falar com a Loira, por telefone, e ela só passaria dois dias comigo. Minha amiga Morena estava ocupada e só nos veríamos aos fins de semana. Minha irmã fez novos amigos e mal nos víamos. Os amigos da cidades estavam todos viajando, como sempre fazem nas férias. Meu primeiro verão completamente só. Eu estava distraída, pensando em como aproveitar meu tempo, quando ouço uma voz ao meu lado: “Senti saudade”. Era a Ruiva, com a pele ainda mais branca que eu me lembrava, o cabelo mais avermelhado que antes e um vestido leve bege. A Japonesa resolveu visitar a família no interior do Estado e o Japonês foi passar as férias nos Estados Unidos. Seríamos apenas a Ruiva e eu.
            Estávamos tomando água na cozinha da minha casa, após passar a tarde toda andando de bicicleta, quando a Ruiva me beijou. Quase deixamos as garrafinhas de água caírem ao chão. Ouvimos passos e disfarçamos. Não comentamos aquele beijo. À noite, nos encontramos com minha amiga Morena e minha irmã. Fomos ao cinema assistir Atividade Paranormal. A Ruiva sentou-se ao meu lado e passou o filme inteiro segurando a minha mão. No final, quando o filme quase se torna interessante, ela se assustou e me agarrou, com medo. Senti a troca de olhares e sorrisos entre minha irmã e minha amiga, do tipo: “huummmm”. Terminamos a noite na sorveteria e já não escondíamos mais: estávamos ‘ficando’.
            No Réveillon, ela tinha uma festa na casa da família dela e eu tinha uma festa fechada na casa de uns amigos, com o prefeito da cidade. Eu não poderia faltar a essa festa e não poderia levar ninguém de fora, também, então decidimos que cada uma marcaria presença em nossas respectivas festas e depois da virada do ano fugiríamos para a minha casa. Exatamente na hora marcada nos encontramos no portão da minha casa. Não vou contar aqui os detalhes daquela noite regada a muito champanhe, mas posso dizer que os fogos de artifício ainda explodiam lá fora, enquanto ali dentro uma paixão também explodia...
            Estava quase amanhecendo, eu deitada nos braços dela, no sofá da sala, quando a ouço dizer: “preciso te contar uma coisa”. Paranoica do jeito que sou, imaginei mil coisas antes dela completar a frase, mas eu não poderia adivinhar o que ela tinha para me dizer. Levantei-me e olhei em seus olhos, aguardando o fim da frase. “Eu namoro há quatro meses”, completou. Demorei alguns segundos para conseguir raciocinar direito, então, assim que compreendi o que de fato havia acontecido, pedi que fosse embora. Não que eu estivesse apaixonada ou fizesse planos para além das férias, mas traição é algo que eu não consigo compreender e aceitar.
            Dias depois, minha amiga Loira chegou. Eu não falava com a Ruiva há mais de uma semana, mas a minha amiga insistia para reunirmos as meninas e aproveitarmos os dois dias que ela tinha com a gente. Jogamos sinuca, fomos à praia, à sorveteria, ao cinema... A Ruiva e eu nos tratamos como no dia em que nos conhecemos: com vontade de estarmos ali, mas com certo receio de nos aproximarmos. Antes de partir, a Loira passou na minha casa para entender o que estava acontecendo. Contei a história para ela e logo a ouvi cantar: “eu tinha uma galinha que se chamava Marylou”. Não pude deixar de rir e entender que a Ruiva era exatamente daquele jeito e que se eu aceitei ficar com ela mesmo assim, não podia culpá-la por nada.
            Aquele foi nosso último verão juntas. Cada uma seguiu seu caminho. A Ruiva, os Japoneses, a Loira e eu entramos na faculdade. Minha irmã e a Morena começaram a trabalhar. Ainda nos falamos todos pelas redes sociais. Vez ou outra, quando passo pela Avenida Paulista, na capital, vejo, de longe, a Ruiva com seus novos amigos. Sei que, algumas vezes, ela também me vê, mas nunca nos cumprimentamos. No último verão, passei pela casa da família dela, na praia. A mãe e as tias, ao me verem, me cumprimentaram saudosamente. Por um momento pensei que ela estivesse ali, mas logo me lembrei que ela viajou com a namorada para as praias do nordeste. Sorrio ao lembrar. É a sétima namorada em quatro anos. “Eu tinha uma galinha que se chamava Marylou... um dia fiquei com fome e papei a Marylou”... 

            Ei, está ouvindo essa música? Lembra quando nos sentávamos à beira da praia e cantávamos juntos? Você me abraçava e dizia qu...


            Ei, está ouvindo essa música? Lembra quando nos sentávamos à beira da praia e cantávamos juntos? Você me abraçava e dizia que nosso amor seria como diziam os versos: eterno. Ao dizer isso, você me beijava suavemente, com aquela paixão impossível de descrever, mas que sentimos do fundo da alma. Você me olhava com ternura, e ficávamos sentados ali por horas, às vezes sem dizer nada, apenas apreciando a companhia um do outro. Não era preciso mais nada para ser felizes.
            Viu o filme que vai passar na TV? Assistimos juntos, no cinema. Dividimos a pipoca, o refrigerante, compartilhamos as risadas e até as lágrimas. No final, o mocinho fica com a mocinha. E você me beija melhor que os beijos cinematográficos dos personagens. Você diz que é como o mocinho, que passaria o filme inteiro da sua vida para que, no final, possa ficar comigo. Dizia também que eu era como a mocinha, que fazia qualquer mocinho apaixonado virar herói.
            Aquele DJ que você gosta vai tocar naquela balada que costumávamos ir, lembra? Você dizia que melhor que ele não há, pois ele cria a setlist perfeita para nós dois: as primeiras canções mais agitadas nos fazem sacudir o corpo e esquecer qualquer problema lá fora, depois as canções mais românticas que fazem a gente lembrar que existe amor e que somos feitos um para o outro.
            E no final do mês haverá apresentação daquele grupo de teatro que assistimos no ano passado. Já tenho dois ingressos. Seria bom rever a apresentação e sentar nos melhores lugares da plateia. Você sempre disse que sonhava em seguir a carreira teatral e vê-los no palco era como preencher um pouco esse antigo sonho, mas que assistir ao meu lado era sonhar ainda mais alto e de olhos abertos.
            Não gosto dessa música. Vai passar outra coisa mais interessante no mesmo horário do filme, em outro canal. O DJ agora só toca até o chão. Os ingressos do teatro estavam caríssimos e tive que vender. Não me importa mais o passado. Pra dizer bem a verdade... que passado? Nada disso foi real. Nada aconteceu. Você nem existe. Eu projetei você. Me apaixonei por uma máscara. Me enganei com seu rostinho bonito. Você não é aquela pessoa legal. Nem ao menos sabe sorrir. Não tem amigos, não tem sonhos, não valoriza a vida, não aprende a lição. Você foi apenas uma ilusão. Um sonho, talvez. E agora eu, finalmente, acordei. 

O cara perfeito Imagem: Google Essa é a história que não deveria ser escrita. Não sei se chegarei a publicar esse texto. Eu prom...


O cara perfeito

Imagem: Google
Essa é a história que não deveria ser escrita. Não sei se chegarei a publicar esse texto. Eu prometi não dedicar uma linha sequer sobre ‘nós’, mas não posso ignorar o que ele significou/significa em minha vida. Foi apenas um mês, mas talvez pelo momento, ou pelas coisas que passamos juntos, ou até mesmo pelas palavras que eu disse a ele durante um momento de frustração, foi intenso.
Eu trabalhava com captação de alunos, na faculdade, e realizava visitas com os candidatos. Em uma tarde de outono recebi a visita de um candidato de transferência. Duas horas e meia de visitação, que costuma durar, em média, apenas 30 minutos. Eu me sentia confortável, ao conversar com ele, como se já nos conhecêssemos e, de fato, já nos conhecíamos. Ele fez aulas de piano com uma de minhas amigas da infância e nos encontramos em algumas apresentações. Eu gostava de ouvi-lo tocar. Isso sempre me acalmou. Em uma das apresentações, ele tocou Love Story, de Francis Lai, música tema de um de meus filmes favoritos, de mesmo nome. E tocava tão bem quanto o original. Seus dedos dançavam pelo teclado de uma forma envolvente, apaixonante, como se a música fosse sua condição. Não nos víamos há pelo menos oito anos.
Nos encontramos, semanas depois, no apartamento da nossa amiga. Ela fez uma festa de despedida para ele, que resolveu morar em Londrina. Muitas cervejas depois, nos entregamos às conversas soltas: “Você seria a namorada perfeita para mim: sincera, mas sem deixar de ser sensível, bonita, inteligente, comunicóloga, gosta de música, escreve muito bem, transmite confiança com o olhar e não tem vergonha de admitir seus medos e seus erros”. Respondi na mesma toada: “Você também seria o cara perfeito para mim: gosta de música, de skate, sabe tocar piano e guitarra, tem uma banda, anda com o cabelo bagunçado e a barba mal feita e, o mais importante de tudo, vai morar longe, bem longe, o que nos impede de iniciar uma relação e, consequentemente, sofrer quando der errado”. Após alguns segundos em silêncio, ele me perguntou se eu achava mesmo que daria errado. “Sim, pois todas as relações dão errado, para alguém. Pode durar um mês, um ano ou décadas, mas algum dia dará errado e o tempo que foi bom quase será esquecido para dar espaço ao tempo que foi ruim”.  
Dois anos depois, já não tínhamos mais contato. Eu havia excluído minha primeira conta do Twitter, ele do Facebook, já não usávamos mais o Orkut e nem o MSN e troquei o número do meu celular. Seguimos caminhos totalmente diferentes, mas eu ainda tinha breves notícias dele trazidas pela minha amiga. Ele se apaixonou por uma garota, em Londrina, namorou durante os dois anos em que esteve lá, até descobrir a traição. Estava frágil. Eu também estava no auge do meu sentimentalismo, ainda chorando pelo fim do meu último relacionamento. Além disso, nós dois temos algo em comum: somos chorosos cancerianos, os personagens mais cheios de mimimi do horóscopo.
Recebi um email dele, o cara perfeito: “Ainda tem medo de se envolver e continua fugindo das relações?”. Fiquei um pouco surpresa. Mal me lembrava de nossa última conversa, demorei para conectar o assunto, e então, ao compreender, respondi: “Não há como fugir das relações. Se eu não me envolver, não serei feliz, certo? Sofrer é apenas uma consequência. Aprendi isso com o tempo”.
Trocamos e-mails por mais de uma semana. Ele entraria em férias em poucos dias e pretendia passar uma semana em São Paulo antes de viajar à Buenos Aires. Nos encontramos na praia. Caminhamos, tomamos açaí, rimos do passado, das coincidências da vida, dos nossos vários encontros e desencontros... eu estava comentando sobre a viagem, quando ele me beijou. Um beijo gelado, com gosto de açaí, misturado ao sorriso de garoto, de menino perfeito, que ele tem.
Durante todo o mês, ele ia para a casa dos pais, visitava os antigos amigos, foi à Buenos Aires, viajava para as cidades próximas, de carro, e toda vez que estávamos longe, brigávamos por alguma boba razão, mas sempre, no final do dia ou da semana, ele voltava para mim e todas as discussões deixavam de fazer sentido. Ele me fazia bem, não vou negar, mas também não posso ignorar o motivo. No fundo, eu estava usando-o para provar a mim mesma de que eu era capaz de me envolver rapidamente por outra pessoa, como se o último relacionamento não tivesse significado nada. O problema é que demorei a perceber isso.
Ele voltou a morar em São Paulo e já estava envolvido mais do que deveria. E eu estava me sentindo presa em mais uma relação. Tentei explicar a ele, mas a escolha de palavras que eu fiz não foi das mais felizes. Rompi nosso relacionamento, inclusive a amizade, e só então eu percebi que, mais uma vez, eu estava errada: eu também havia me envolvido mais do que deveria e trilhei apenas os caminhos mais errados. Não que haja um caminho certo, em se tratando de relacionamentos, mas deve haver algum que seja menos errado. Procurei por ele, pedi desculpas, aceitei as críticas, admiti meus erros e reconheci meus confusos sentimentos por ele, mas finalizei com um “Não podemos mais fazer isso, desculpa. E agora eu sei que a gente tem que lembrar que deu certo, por um tempo, e não que deu errado”. Ele me abraçou, disse entender meus motivos, ainda um pouco contrariado com minha decisão, mas respondeu: “Eu não estou desistindo de você, mas da dor que você me causa”. Quase pude ouvir as notas musicais enquanto ele dizia isso. A música Love Story me traz um pouco de dor, quando a ouço. Me faz lembrar as palavras dele...

          Eu queria reviver dois momentos, agora. Ou ter esses dois distintos momentos ao mesmo tempo, em um só lugar. Eu queria ter...


          Eu queria reviver dois momentos, agora. Ou ter esses dois distintos momentos ao mesmo tempo, em um só lugar. Eu queria ter aquele doce e espontâneo sorriso, novamente, ao lado da minha amiga ruivinha. Eu queria, também, receber aquele sincero abraço da minha querida ‘Atibaia’. Como nessas fotos...
          A turma era grande. Mais de 70 pessoas. Na lista, chegava a 90. Primeiro ano de faculdade. Éramos a ‘galera da rampa’, o grupo mais alegre e grande de toda a instituição. Não cabíamos todos no elevador. De escada, ninguém queria descer ou subir, então nossas risadas faziam eco nos corredores da rampa. Era possível saber quando estávamos chegando só pelos sons das nossas gargalhadas. Em meio a um imenso grupo, uma garota, a ‘minina de Atibaia', estudante de Publicidade, me conquistou de um jeito único. Não apenas na sala de aula, nem na rampa ou nos corredores, mas durante as tardes, em nosso vasto tempo livre, que usávamos para descobrir as belezas da cidade grande. Masp, Parque Trianon, Liberdade, museus, exposições. Estávamos sempre juntas. E quanto mais eu a conhecia, mais eu me apegava. Separadas por um período. Ela passou a estudar à noite e eu, triste, imaginei que o contato acabaria. Por felicidade do destino, foi justamente nesse período que eu percebi que a amizade, o carinho e a nossa relação estavam mais fortes e mais maduros.

          Trote: a vingança. Foi assim que eu conheci a ruivinha. Era meu segundo ano da faculdade e eu experimentei a incrível sensação de pintar os calouros. Ela era um deles. Por um segundo eu tive pena. Ela usava uma camisa nova xadrez clara. Lembro-me bem. E então a incrível sensação voltou. Não por acabar com a camisa dela, mas por ver a animação por toda a parte: calouros e veteranos. Eles, os calouros, eram inspiradores. Percebi que não seria nada difícil eu gostar, realmente, daquelas pessoas. Dela, em especial. No começo, apenas cumprimentos nos corredores, conversas em mesa de bar... depois, quando percebi, éramos amigas. E não apenas amigas, mas boas amigas, grandes amigas. Nasceu o nosso Ypiranga. Sorrisos, abraços, afetos, conselhos, lágrimas, mal entendidos, acertos, mais abraços e sorrisos. Só o fato de estar ao lado dela, me fazia feliz. Aliás, faz. A melhor amiga que encontrei ali. E que vou levar para o resto da vida.
          O que a 'minina' de Atibaia e a ruivinha tem em comum? Elas são publicitárias; eu as conheci na Fapcom; estudavam no período matutino e foram convidadas a integrar o noturno; são divertidas, alegres, sinceras; estão entre as poucas pessoas que convido para irem à minha casa; de uma forma única, individualmente, possuem os melhores lugares em meu coração; aniversariam no mesmo dia.
          Taty e Bel, eu amo vocês. Obrigada por integrarem esse meu imenso pedaço de felicidade. 

A Subcelebridade             Era o verão de 2008. Eu havia me formado no colégio e completaria, em alguns meses, a maioridade. Aprov...


A Subcelebridade
            Era o verão de 2008. Eu havia me formado no colégio e completaria, em alguns meses, a maioridade. Aproveitei cada minuto, desde o primeiro dia. Tive meu amor de verão, baladas aos fins de semana, tardes no cinema, compras no shopping, praia, shows, festas do pijama, festas na piscina, romances, encontros, desventuras, brigas e viagens. Um ano inteiro sem trabalhar. Um ano inteiro sem estudar. Era o meu ano de carpe diem, como eu costumava dizer. Nas horas vagas da diversão, eu ficava na internet. E passava madrugadas na internet. Foi quando eu conheci a Subcelebridade.
Na época, eu fazia parte de diversas comunidades do falecido Orkut e era ativa em duas, em especial: uma sobre a banda Paramore e outra voltada para o público GLBT (antigo GLS). A comunidade do Paramore estava agitada: teríamos, em breve, a Final Riot Tour no Brasil. Ingressos na mão, ansiedade no peito e a contagem regressiva. Fiz três grandes inimizades dentro da comunidade e, como adolescentes à flor da pele, levaríamos isso quando, finalmente, nos encontrássemos no show, mas também fiz uma amizade muito importante: a doce Mary. Era com ela que eu passava horas e horas, madrugada adentro, conversando pela internet. Combinamos que nos encontrar na fila do show, mas deveríamos esperar por meses. Ela morava no interior de SP e eu no litoral. Enquanto as rixas continuavam nessa comunidade, na outra, uma curiosidade: uma garota desabafava sobre recente traição, mas o que torna o caso curioso, é que o namorado dela a traiu com outro cara. Confusa, ela queria saber se esse tipo de coisa era normal, se um cara pode ser considerado gay por ter beijado outro cara ou apenas um ‘curioso’. Ela nunca teve contato com um homossexual e não sabia, exatamente, como era essa vida. Tudo o que sabia era o que a sociedade dizia: “ser gay é errado, é imoral. Todos são imorais, a desgraça da sociedade”.
O debate durou semanas e, por incrível que pareça, ela foi bem recebida por todos. Sua inocência sobre o que, exatamente, faz um gay, e sua sinceridade, conquistou a comunidade inteira, mas foi comigo que ela teve mais contato. Do Orkut ao MSN. A doce Mary passou a ter ciúmes da minha mais nova amiga e eu não via motivos para isso. A minha relação com a Mary estava mais para ‘amizade colorida da internet’, enquanto com a moça traída era realmente apenas amizade da internet. Ou pelo menos era, no começo de tudo.
Com o tempo descobri que minha mais nova amiga era, na verdade, uma celebridade da internet, uma Subcelebridade. Seu blog tinha milhares de seguidores. Nossa amizade foi crescendo, fortalecendo... e a Mary se distanciando de mim. Ou eu dela. Não sei dizer, exatamente, o que houve. Eu continuava frequentando o cinema, o shopping, a praia, as baladas, mas não via a hora de estar em casa para poder conversar com a moça. Volta e meia eu recebia uma mensagem: “tem publicação minha no jornal”. Eu corria para a banca e via a foto dela, a mesma do avatar do blog, na coluna do jornal.
Numa certa tarde de inverno, uma mensagem que me surpreendeu: “Eu quero conhecer você. Pessoalmente”. Ela morava em outro estado. Apesar de, no fundo, desejar isso, nunca imaginei que um dia pudesse acontecer. Conversamos e decidimos que nos encontraríamos em outubro, no show do Paramore. Depois de tudo acertado, aquela janelinha do MSN sobe: “Mary P está online”. Por uma porção de segundos, imaginei como seria no dia do show. A briga na fila, com minhas três inimizades da comunidade, parecia ser bem mais atraente que encontrar Mary e a Subcelebridade juntas. Mary a odiava. Eu deveria contar para ela ou esperar o dia se aproximar? Desliguei o computador e fui me deitar. Passei a apreciar mais o tempo no cinema, no shopping, na praia... quase não acessava mais a internet. “Você sumiu”, diziam as mensagens que eu recebia no celular. Duas semanas antes do show, resolvi contar sobre a Subcelebridade para a Mary. Foi exatamente como eu temia: ela xingou, esbravejou, admitiu que sentia ciúmes e disse que não queria mais me ver. E me bloqueou.
 Naquela mesma semana, a Subcelebridade me liga para avisar que teria uma prova na faculdade e não poderia perder. Não seria daquela vez que nos encontraríamos. Tentei falar com a Mary, mandar mensagem, deixei recado com a amiga dela, mas não obtive resposta. No dia do show, lá estava eu, na fila, sozinha. De longe eu pude ouvir: “olha ela lá!” e, na minha direção, caminhava sorridente uma das meninas, uma das minhas inimizades da internet, Tamiris, a garota com quem mais discuti nos fóruns. Ela e os outros estavam adiantados na fila e, surpreendentemente, fui convidada a me juntar a eles. Mais de dez horas na fila. Revezávamos para ir ao banheiro e comprar o lanche ou água, sentávamos na calçada, quando era possível, conversávamos e ríamos. Um garoto da comunidade havia prometido mergulhar na fonte invadir o palco do Credicard Hall, no dia do show. A galera olhava em volta, procurando por ele. Eu olhava em volta, procurando pela Mary. O show foi surpreendente. Ainda ouço a Hayley gritando, em português: EU AMO VOCÊ, SÃO PAULO. Ela começou a tocar e cantar When it rains no piano e então o público teve o momento romântico. Recebo uma mensagem no celular: ‘Olha pra trás”. Lá estava a Mary, a poucos metros de mim, mas não nos aproximamos. Apenas sorrimos.
Nas semanas seguintes fiquei fora da internet, desliguei o celular e aproveitei os meus últimos meses de ‘férias’. Eu estava me preparando para a faculdade. Quando me ‘reconectei’, milhares de mensagens deixadas pela Subcelebridade. Ela estaria em Santos dentro de 48h. E decidi que eu também. Nos encontramos no Museu de Pesca. Almoçamos num restaurante de frutos do mar, visitamos o porto e nos maravilhamos com os imensos navios que por ali passavam, atravessamos até Guarujá pela balsa e fizemos compras. Ela foi reconhecida por três pessoas, no shopping. Teve até fotos e autógrafo. Voltamos para Santos e decidimos terminar o dia assistindo DVD no apartamento que ela havia alugado. Closer, o filme preferido dela. Nós sabíamos o que estava prestes a acontecer, mas não sabíamos como iria acontecer. Quem daria o primeiro passo? Ela ou eu? Quem me conhece sabe o quão ‘parada’ eu sou nessa questão. Ela me beijou. Foram três dias de romance. Ela voltou para casa e eu para as minhas férias. Reencontrei meu amor de verão e revivemos tudo de novo. A Subcelebridade também encontrou alguns outros muitos amores pelo caminho. Deixou de ser aquela garota inocente, passou a frequentar baladas e a ter mais contato com o mundo homossexual. Não sei dizer se ela ficou com outras garotas, mas ela afirmava que não. Um ano depois ela me mandou uma mensagem dizendo que sentia falta de conversar comigo, de madrugada. Respondi que eu sentia falta, também, e que naquela noite eu estaria on para matar as saudades. Ela não apareceu.
Noite de domingo, intervalo do Fantástico. Uma chamada para o próximo Big Brother Brasil. Eu estava sentada no sofá, de frente para TV, distraída, rabiscando uns desenhos, quando ouço o nome de uma das participantes. Era ela. Olhei para a televisão e vi seu rosto. Era, realmente, ela. Assisti ao programa todos os dias em que ela participou. E passei o tempo inteiro querendo encontrar aquela inocente garota que conheci, mas eu não a enxergava. Ela havia mudado completamente. Saiu do reality com alto índice de rejeição. O blog perdeu a popularidade, mas ainda assim ela se achava A ESTRELA. Cheguei a tentar contato, mas nunca recebi respostas. Às vezes eu sinto falta dela. Sempre que passo pelo porto de Santos, lembro aquela tarde. Sempre que assisto Closer, lembro que este era seu filme favorito. E se alguém, na rua, passa por mim usando um Cacharel, lembro que este era o perfume que ela usava. Eu ainda tenho os contatos dela. Na agenda do celular, do email... Entrei outro dia no Skype e ela estava online. Não sei se devo puxar assunto ou deixar as coisas como estão. De qualquer forma, ainda sinto que esta é mais uma história inacabada...


Vinte e duas horas de uma noite vazia. Passei a quinta-feira escrevendo textos. Muitos textos. Sobre vários assuntos. Do trabalho, da ...



Vinte e duas horas de uma noite vazia. Passei a quinta-feira escrevendo textos. Muitos textos. Sobre vários assuntos. Do trabalho, da vida, do amor, das lembranças da minha adolescência... E, ainda assim, uma noite vazia. O telefone toca. Criei o hábito de ignorar qualquer ligação. Voltei para a tela do computador: outro um texto com mais de vinte mil caracteres. “Ninguém vai querer ler tudo isso em um blog, Bruna”, pensei. Guardei o texto. Reabri. Li. Deletei. O celular continuava tocando. Algumas mensagens carinhosas me pediam para atender: “Preciso falar com você, porra!”; “É urgente! Atende essa merda!”. Eu não queria atender ninguém. Outra mensagem: “Ok, é o seguinte: vc vai no Lollapalooza comigo! Te pego amanhã às 12h. Bjs”... Certo. Uma lição: quando alguém disser que é urgente, atenda ao telefone!
Já faz algum tempo que estive em um show pela última vez. Não me recordo se foi O Teatro Mágico ou Franz Ferdinand. Minto. Assisti aos shows de verão na praia, mas não é a mesma coisa. Sei que não estou mais acostumada a esse tipo de evento com muitas pessoas ao redor. Na verdade, inclusive, acho que comecei a desenvolver outra fobia, a sociofobia. O meu último ano na faculdade me transformou. Não sei se pela falta de tempo para acompanhar os shows, ou se foi pelo cansaço ou por outros motivos diversos, o fato é que não sou mais aquela mesma pessoa de quatro anos atrás. Acho que me cansei da diversão. Ou ela de mim.
O primeiro dia: a fila estava enorme, mesmo para quem já estava com os ingressos na mão. 52 mil pessoas estava lá. Assistimos o final de Of Monster and Men no palco Butantã. Ah, o folk e seus derivados: o gênero musical que eu mais amo, sem dúvida! Cheguei bem na hora de Little Talks. Giovanna, Pedro, Ivan e eu acompanhamos a canção com o hey, hey, hey... “We used to play outside when we were young, and full of life, and full of love”. De repente, me senti conectada à canção, ao show, ao ambiente, à diversão. Percebi que sim, talvez seja hora de voltar a ser jovem cheia de vida e amor. Como eu era... antes de 2012. Ao fim da apresentação, demos uma volta pelo Jockey Club. Passamos pelo show de Name the Band, mas não chegamos a assistir. Voltamos para o palco Butantã e esperamos a apresentação de Cake. Como sempre, o show foi muito bom, animado e agitou a plateia. Tocaram alguns antigos sucessos, mas o melhor momento, para mim, foi quando a banda fez cover de uma das melhores canções de Black Sabbath, War Pigs. Oh, Lord! Yeah! Do palco Butantã ao Cidade Jardim. The Flaming Lips é uma banda que não entra em minha playlist, mas gosto da canção Do you realize. Aparentemente, foi o único momento do show que a plateia curtiu, cheio de defeitos especiais e problemas técnicos. O público estava desanimado e então Wayne Coyne grita: “C’mon motherfuckers”. Não esperamos terminar o show e saímos de lá. No palco Butantã Deadmau5 apresentava seu eletrônico. Eu não o conhecia, até então. O DJ com máscara do Mickey arrebentou e agitou todo o público ao som de Rage Against The Machine. Difícil olhar para o lado e encontrar alguém parado. Uma descoberta muito bacana, para mim. Saímos tarde em direção ao palco Cidade Jardim onde, em poucos minutos, The Killers se apresentaria. Incapazes de conseguirmos um lugar decente, fomos embora... com muita lama no pé.
O segundo dia: após um segundo dia de fila sob o sol para entrar, chegamos bem a tempo para o início do show de Franz Ferdinand. Essa foi a terceira vez que vi os caras de perto. E cada vez me encanto mais com Alex Kapranos. O que incomodou na apresentação foi o som baixo. Logo depois, no palco Cidade Jardim, Queens Of Stone Age marca o início da noite com alguns hits antigos e novas composições. Sem dúvida, uma das melhores apresentações do dia. A velha Bruna animada estava completamente em sintonia. Enquanto A Perfect Circle se apresentava no palco Butantã, meus amigos e eu decidimos procurar algo para comer. Filas intermináveis para tudo. Perdemos o show inteirinho, então decidimos correr para o palco onde teria o headline do segundo dia de Lollapalooza: The Black Keys. Com uma setlist impecável, a dupla Patrick Carney e Dan Auerbach cantou a minha canção preferida: Little Black Submarines. A letra dessa canção parece até ter sido escrita para mim. Onde está o meu operador? Lonely Boy, a segunda melhor canção da dupla, também cantada no festival. “I got a love that keeps me waiting. I'm a lonely boy. Your mama kept you but your daddy left you and I should have done you just the same”... I’m a lonely girl… 55 mil pessoas estiveram no segundo dia do festival, no Jockey Club.
O terceiro dia: chegamos por volta das 14h. Conseguimos assistir o finalzinho de Vivendo do Ócio, um pedaço da Bahia no universo indie rock. Algumas horas caminhando por entre os shows, sem nenhum que nos interessasse, de fato. Pouco depois das 16h, Puscifer invadiu o palco Cidade Jardim com agitação, energia, som pesado, vinho e até Eddie Vedder, vocalista de Pearl Jam, subiu ao palco para fumar e beber. Do Cidade Jardim ao palco alternativo. Acompanhamos Vanguart, uma de minhas bandas nacionais favoritas. O folk, como sempre, me atraindo. “Viva a música brasileira!”, disse Helio Flander. Viva a poesia, viva o folk, viva a música, viva O mar, canção de Caymmi interpretada pelo grupo. Outros dois importantes momentos do show foi quando eles cantaram Mi vida eres tu e, uma de minhas preferidas, Semáforo: “Com olhos de anis, com asas de fogo e meus olhos cheios de mágoa então, hoje é terça-feira”. O que dizer do show de The Hives? Eu não esperava muita coisa. Me surpreendi com o som punk da banda sueca. Já tinha ouvido as músicas, mas assistir a apresentação pessoalmente é outra história. Segunda dica desse post: se tiver a oportunidade e assistir um show de The Hives, não a deixe passar! Perdi The Killers na noite anterior por não conseguir um bom lugar. Decidimos, então, não cometer o mesmo erro da primeira noite e ficamos no palco Cidade Jardim à espera do show de Pearl Jam. A noite mais cheia de todo o festival. Os 60 mil ingressos esgotados. Pancadaria na frente. Todos ansiosos para o último show do Lollapalooza 2013. Giovanna, os meninos e eu ficamos mais ou menos na metade do público, ao lado esquerdo do palco, em um pedaço relativamente tranquilo. Início do show. Coração disparado. A canção de abertura foi Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town. Eddie Vedder diz, em português: “Oi, São Paulo”. Tocaram Olé, Wishlist, Insignificance e outros sucessos da banda. Rolou até cover de Ramones, mas os melhores momentos se resumem com as canções Even Flow, Jeremy, Black e Better Man. Depois disso, não tenho mais o que falar. As canções falam por si só...
Even flow, thoughts arrive like butterflies
Oh, he don't know, so he chases them away
Someday yet, he'll begin his life again”
Jeremy spoke in class today (…)
Oh, but we unleashed a lion
Gnashed his teeth”
“All the pictures have all been washed in black, tattooed everything
All the love gone bad turned my world to black
Tattooed all I see, all that I am, all that I'll be, yeah
I know someday you'll have a beautiful life, I know you'll be a star
In somebody else's sky, but why can't it be, can't it be mine
We  belong together! Together!”
“She lies and says she's in love with him, can't find a better man

O garoto da janela Imagem: Google             Já faz algum tempo, mas lembro bem aquela época. Eu tinha 14 anos. Minha amiga Priscil...


O garoto da janela
Imagem: Google
            Já faz algum tempo, mas lembro bem aquela época. Eu tinha 14 anos. Minha amiga Priscila, 13. Morávamos no mesmo bairro e estudávamos na mesma escola, em bairro vizinho. Saíamos do colégio por volta das 12h. Sempre fazíamos o mesmo caminho. Conhecíamos de cor cada casa, cada árvore e cada pedregulho da calçada por onde andávamos. Inclusive o sobrado da janela redonda, o sobrado dos nossos sonhos. A casa nos chamou a atenção não pelo charme, com as portas trabalhadas em madeira maciça, ou pela Acácia que enfeitava o jardim da frente, e nem mesmo pelo Porsche preto ou o Jeep Willys verde na garagem, mas por um dos quartos atrás da grande varanda que dava de frente para a rua.
            O quarto era pequeno e bagunçado, mas se tornou nosso lugar preferido, mesmo nunca tendo entrado lá. Conhecíamos apenas dessa forma: pela vista da rua. Em um dos lados da parede, um quadro com a foto dos meus ídolos, The Beatles, em preto e branco. Ao lado, uma prateleira com os cinco primeiros livros de Harry Potter, todos que haviam sido publicados até então. Abaixo da prateleira de livros, um compensado com os melhores CDs das melhores bandas, as nossas preferidas, na época: The Beatles, Queen, Pink Floyd, Metallica, Rollings Stones, Poison, Nirvana, Guns’n Roses, 4 Non Blondes, Radiohead, Red Hot Chili Peppers etc. Do outro lado, perto da porta que dava para a varanda, uma bicicleta com frases de algumas canções dos Beatles. Ao lado da bicicleta, pendurados na parede, um skate e um par de patins, também com adesivos de frases. O guarda roupa era adesivado com os logos das bandas, a maioria de rock. Na porta, uma foto gigante de Alex Turner, vocalista e guitarrista da banda Arctic Monkeys. Pendurada na porta, uma guitarra bem parecida com a que Alex usava na foto. O lustre era em forma de caveira e era a coisa mais sensacional que eu já tinha visto até então. 
Priscila e eu admirávamos aquele quarto. Estávamos numa fase da adolescência muito peculiar: a descoberta da identidade. Tínhamos paixões por caras com skate no pé, cabelo bagunçado, roupas pretas e acessórios, de preferência membro de alguma banda. Ah, sim... e sempre pelos mais velhos, também. Éramos as típicas garotas que frequentavam a Galeria do Rock para conhecer os típicos caras que costumavam andar por lá, na época. Éramos estereótipos. Imaginávamos que o dono daquele quarto fosse justamente o dono do perfil dos nossos sonhos, mas nunca o havíamos visto. Sim! Nos apaixonamos por um garoto pelo seu quarto, sem nem ao menos conhecê-lo.   
Passávamos quase todos os dias, por meses, naquela rua. Arquitetamos planos para chamar a atenção e fazê-lo ir até a varanda: simulamos um acidente de bicicleta. Fingi derrapar na calçada e bater no pneu de trás da bicicleta da minha amiga. Ela caiu, mas não se feriu. Eu caí e esfolei meu joelho. Foi uma confusão. Os vizinhos saíram à rua oferecendo ajuda. Os pais do garoto da janela apareceram também. Na varanda, a esperança: o cachorrinho, um poodle branco e irritante, surgiu latindo sem parar. Atrás dele... uma senhora de 65 anos, aparentemente. Ainda esperamos por mais alguns minutos e então, frustradas (e envergonhadas) fomos embora.
Não contentes, deixamos passar alguns dias. Nossas amigas do colégio já sabiam do ocorrido e estavam dispostas a ajudar. Iríamos simular uma briga de garotas bem na frente da janela do rapaz. Dessa vez, ele deveria aparecer. Sete amigas nos acompanharam. Priscila e eu fazíamos teatro, então não foi difícil a atuação. Por um longo momento, inclusive, achei que a briga havia se estendido para a realidade. Recebi um soco no estômago e caí ao chão. Ao me levantar, ainda um pouco zonza, empurrei-a e logo em seguida puxei-a pelo cabelo. A menina caiu e uma boa quantidade de seu cabelo loiro encaracolado ficou entre os meus dedos. Em todo o momento, as outras meninas escandalizavam, como fazem em toda briga. Gritavam, pediam para pararmos e tentavam nos separar. Novamente, a presença dos vizinhos curiosos, dos pais, da irmã mais nova do garoto, do cachorro irritante e da avó, mas nenhum sinal do menino. Após um longo sermão do dono da casa da frente, aos poucos fomos dissipando. Nos encontramos na rua de trás e os olhos azuis da Priscila estavam pegando fogo, assim como seu rosto, que costuma ser pálido. “Chega de planos! Nunca mais eu faço isso”, disse minha amiga.
Um mês depois e lá estávamos nós, mais uma vez. Minha irmã caçula nos acompanhava. Não simulamos acidente ou briga, mas chamamos a atenção do irritante cachorro. Ele parou de latir e parecia gostar da nossa companhia. Em pouco tempo, a luz do quarto acendeu. O coração disparou, os olhos começaram a brilhar. “É ele!”, falou Priscila. Infelizmente, era a avó.
Quase um ano depois de ver aquele quarto pela primeira vez, Priscila e eu chegamos a uma conclusão: o garoto da janela, na verdade, não existia. O quarto não poderia ser da filha, pois ela era patricinha demais, usava muito rosa e provavelmente não teria um lustre de caveira no quarto. Também não poderia ser dos pais. Era da velhinha, a simpática avó. E então criamos uma personagem para o nosso quarto dos sonhos. Ela era uma veterana do rock, provavelmente esteve presente em Woodstock, quem sabe até não foi amante de muitos guitarristas nacionais e internacionais? Sim, viajamos bastante com isso. Priscila uma vez falou que a imaginava no primeiro Rock in Rio, em 1985, levando o filho, já adolescente e com o cabelo estilo Slash. Ela diria ao filho: “isso é vida! Rock’n Roll na veia”, mas ele cresceu e ela ainda não havia saído daquele mundo. “Acho que vou ser como ela, quando crescer” – contei – “Imagina eu com quase 70 anos e não perdendo um único show de rock?”. Pois é... hoje tenho 22 e quase nem vou a um pub, imagine um show de rock...
Priscila foi embora para São Paulo. Eu passei a estudar no período da tarde, saindo do colégio no início da noite. Meu pai me buscava de carro. Raras eram as vezes que eu passava por aquela rua. Cresci e acabei esquecendo o sobrado e o quarto dos meus sonhos. Terminei o colégio, fui morar na capital e entrei na faculdade. Durante as férias do meu primeiro ano, decidi rever os locais da minha infância/adolescência. Passei por aquela rua. Era a mesma do meu primeiro beijo. Era a mesma do sobrado dos meus sonhos. E lá estava ele, na varanda: o cachorro irritante. Logo em seguida, surge a senhora, suposta dona do quarto maravilhoso. “Hey, resolveu aparecer, sumida?”, disse ela a mim. Depois de tantos micos que paguei, não havia como esquecer meu rosto. Iniciamos um bate papo e contei que morava em São Paulo, que estava cursando Comunicação e curtia as férias. Ela comentou que o neto havia acabado de se formar em Publicidade. Que legal, um colega comunicólogO QUÊ? NETO? Tive que controlar a língua, mas a cabeça perguntava: “Onde ele está? Como ele é? Qual o nome? É o dono do quarto perfeito? É tão perfeito quanto o quarto?”. Disfarcei minha curiosidade e comentei: “Poxa, já tem um neto com essa idade, é?” – CINISMO, DONA BRUNA?      
Eu estava no portão, ainda numa conversa com a senhora, quando o Jeep verde apareceu. Era ele, o garoto dos meus sonhos, ali, bem diante de mim. Ainda mais lindo do que eu imaginava. Ainda mais simpático do que eu desejava e me cumprimentou, com um sorriso maravilhoso. Sua voz quase rouca me fez derreter ali mesmo. Ele entrou, ainda olhando para mim e, antes de fechar a porta, lançou uma piscadela. Em menos de um minuto ele estava na varanda, ao lado da avó. Sem ter mais assunto com a senhora, me despedi. “Passa aí qualquer hora, pra gente bater um papinho”, disse o garoto da janela. “Claro, até qualquer hora”, respondi, com o maior sorriso que eu poderia dar. Quase quatro anos depois, eu nunca voltei para aquele ‘papinho’, que ele mencionou, mas... quem sabe, qualquer hora dessa, eu não aproveite a oportunidade?

A garota do ônibus Imagem Google A primeira vez que a vi, eu estava em pé no corredor do ônibus, falando ao celular e ela estava bem...

A garota do ônibus
Imagem Google

A primeira vez que a vi, eu estava em pé no corredor do ônibus, falando ao celular e ela estava bem atrás de mim, sentada em um dos bancos. Eu não havia notado sua presença, até que, involuntariamente, olhei para trás e a surpreendi olhando para mim. Achei beleza em seus olhos, mas imaginei que talvez ela estivesse apenas lendo as inscrições da minha camisa da faculdade. Ignorei e continuei atento à minha conversa. Desliguei e uma curiosidade tamanha me fez olhar mais uma vez para trás e lá estava ela, novamente, me observando. Desta vez ela tentou disfarçar e eu fingi nem notar sua curiosidade sobre mim. Em dados momentos ela ainda me observava. E aquilo me levou a um sentimento estranho, uma sensação diferente. Aqueles belos olhos me chamaram a atenção. Fui tomado de súbito alívio ao ver que meus olhos se encontraram com os dela. Houve uma ligeira comunicação entre nós. Não sei exatamente o que conversamos, mas sei que foi intenso. 
Chegamos ao terminal rodoviário e desci. Ela também desceu. Não sabia explicar exatamente o porquê, mas a minha vontade era de entrar no mesmo ônibus que ela. Fui covarde o suficiente para me dirigir à outra plataforma e esperar o ônibus que me levaria para casa. Eu podia ir a pé, já que o terminal ficava a 15 minutos caminhando, mas estava mais distraído do que de costume. Poderia atravessar o farol e acabar atropelado. Resolvi não me arriscar.
            Durante os cincos minutos no ônibus, fiquei pensando naquele olhar. Desci e caminhei até a porta de casa. Parei. Não sabia o que fazia ali. Foi quando minha vizinha tentou se meter mais uma vez em minha vida me perguntando o que eu tinha. “Nada”, respondi, e me lembrei de que precisava pegar minha chave para entrar. Fui direto para o banho. Queria me livrar da sensação de perda que eu tive quando a vi subindo naquele ônibus e nada fiz. A água fria podia tirar de mim a poluição da cidade grande, mas meus pensamentos estavam intactos, presos a ela.
            Eu precisava terminar um trabalho da faculdade. Uma análise crítica que exigia toda a minha atenção. Enrolei. Entrei no site de relacionamentos e visualizei perfis desconhecidos. Acho que eu estava procurando por um rosto em meio a tantos outros, talvez o olhar, sim o olhar que tanto me chamara atenção. Por um lapso de segundo me lembrei de que ainda havia um trabalho a terminar. Olhei para a janela e me surpreendi com o luar banhado à sacada. Fechei todos os programas, exceto o editor de textos. Esbocei um sorriso ao ler o que eu havia escrito. Meu trabalho se baseava num livro sobre interface gráfica e eu estava justamente falando sobre os progressos tecnológicos e como o computador pessoal tornou-se uma distração para seus usuários. Era segunda-feira, dezoito de maio de 2009. Terminei meu trabalho no inicio da madrugada.
            Enquanto o sono fugia do meu quarto, minha cabeça enchia de enigmas. Quem era ela? O que fazia? Onde morava? Quantos anos tinha? Porque despertou em mim tanto interesse? Porque era tão linda? Porque o interesse em me observar? O que queriam me dizer seus lindos olhos castanhos? E todas essas perguntas também ecoavam em minha mente no caminho da faculdade, na terça-feira de manhã. Procurei aquele olhar enigmático dentro de tantos rostos desconhecidos. Será que ela pegava aquele mesmo ônibus todas as manhãs naquele mesmo horário? Mas ela não estava lá.  Ao fim da aula corri para o ponto de ônibus, pois tinha esperança de encontrar os lindos e misteriosos olhos castanhos do dia anterior. Peguei o ônibus e imediatamente corri meus olhos em busca daqueles. Nada. Entristeci-me, mas logo lembrei de que eu não havia reparado em que ponto ela subira, se antes ou depois de mim. Em cada ponto que passava eu ficava atento se não era lá que ela estava. Observei cada par de olhos que entrava. Nenhum tão belo quanto o dela. Esperança vã.
            Na quarta-feira, após a aula, corri novamente ao ponto de ônibus, mas enquanto esperava me lembrei de que talvez eu tivesse me atrasado na segunda e pego outro ônibus. Decidi deixar o primeiro passar e subir no segundo. Quinze minutos foi o tempo que esperei. Imediatamente subi e nada de encontrá-la. Novamente observei cada ponto e cada pessoa que subia. Cada vez que eu olhava para uma moça me lembrava dela, mas nenhuma possuía sua beleza. Ela tinha o cabelo um pouco abaixo dos ombros, castanhos, como os olhos, nariz fino e delicado, sobrancelhas marcando bem e aperfeiçoando os traços de seu rosto, seus lábios perfeitos e... ah, eu deveria parar de pensar nela. Preocupei-me severamente com o modo que eu estava agindo. Entrei em casa e decidi esquecê-la.
            Quinta-feira. Aula de Filosofia. Saí da sala viajando em pensamentos, contemplando as lendas gregas. Peguei o ônibus distraído. Três pontos depois, um par de olhos, já velhos conhecidos dos meus sonhos, sobe. Era ela. Com mais três amigas. Ela me olhava com um sorriso de canto de boca, um olhar convidativo. Gostaria de contar, aqui, que logo tivemos nosso primeiro contato, marcamos um encontro, fomos ao cinema, um passeio no parque, um beijo... Infelizmente não foi bem assim que aconteceu.
Passamos longos meses ainda nesse encontro diário, no transporte público, mas sem trocar uma palavra sequer. Apenas olhares. Sabia seu nome, Aline, de tanto ouvir suas amigas falarem. Aliás, sabia os nomes delas, também: Suelen, Ana Beatriz e Cláudia. Trabalhavam juntas em um centro de atendimento aos deficientes auditivos. Amigas indiscretas, que lançavam comentários irônicos sobre nossas trocas de olhares, incentivando uma tomada de atitude. E justamente por causa delas, eu ficava sem graça e nada fazia.
            Entrei em férias na faculdade e viajei por quase dois meses. Quando voltei, não mais a vi. Nem ela, nem as amigas dela. Assim como na primeira semana que a ‘conheci’, procurei pegar o ônibus em horários diferentes, mas não a encontrava, até que, no começo de outubro, ela reapareceu. Sozinha. Sem as amigas indiscretas. E sentou-se bem ao meu lado, no ônibus, pela primeira vez na vida. Confuso, trêmulo, deixei meu celular cair no chão. Abaixamo-nos juntos e batemos com a cabeça um no outro. Rimos. Ela pegou meu celular. Eu agradeci. “Há tempos não te vejo. E pensei que nem a veria mais”, comentei, por impulso. “É também achei que não veria mais você”, respondeu ela, não escondendo o sorriso de alívio. Duas das amigas delas trocaram de horário, na empresa. As outras duas foram despedidas.
            Conversamos todo o restante do caminho. E conversávamos todos os dias por mais de um mês. Ela prestou o ENEM para cursar Hotelaria. Fez 18 anos no dia 4 de novembro de 2009. Fiz todos os passageiros cantarem parabéns à ela e a presenteei com uma caixa de bombons. Ela me entregou um papel dobrado com o telefone e o MSN anotado. Guardei dentro da bolsa e nos despedimos. Eu iria viajar por uma semana. Procurei o papel por todo o canto. Dentro da mochila, no bolso da calça, entre as páginas dos livros, no caderno, mas não encontrei. Eu iria pedir novamente, ao retornar.
Voltei à SP e peguei o mesmo ônibus no mesmo horário. Ela havia sumido novamente. Semanas, dias, meses, anos... quatro anos sem saber o que aconteceu com a bela Aline. Segui minha vida, comecei a trabalhar, terminei a faculdade, tive duas namoradas e várias outras paixões, mas nunca criei coragem de procurar o centro de assistência que ela trabalhava. E, mesmo depois de tanto tempo, ainda não me esqueço daqueles belos olhos castanhos. Um dia irei reencontrá-los.

Em um planeta infectado pela relação supérflua e efêmera, nascem camaleões A geração que decente de bravos soldados, guerrilheiros e...


Em um planeta infectado pela relação supérflua e efêmera, nascem camaleões

A geração que decente de bravos soldados, guerrilheiros em favor da liberdade, que por sua vez são filhos de pacifistas que abrilhantaram os cadernos de história com a incrível e lendária Woodstock... Cheios de viva, de força, de vontade. Indivíduos de raça, de garra e sabedoria. Filhos da paixão à flor da pele, que faziam questão de viver cada segundo, de alimentar a certeza dos sentimentos mais profundos, que não tinham medo de gritar com a força do coração para o mundo todo ouvir o ‘eu te amo’ à garota dos sonhos. Os Filhos da Revolução hoje aprenderam a camuflar sentimentos.
“Oi, tudo bem?” – “Tudo, e você?” – “Tudo bem”. “E aí, novidade?” – “Nenhuma. E vc?” – “Na mesma”. “Você parece distante. Fiz algo pra te chatear?” – “Não é com você”. Sinto dizer, mas o ‘tudo bem’ pode esconder uma grande tristeza. A ‘nenhuma novidade’ pode ser uma grave doença. O ‘não é com você’, com toda a absoluta certeza, é com você e esconde uma decepção.
Camuflamos sentimentos desde que aprendemos a nos conectar com as pessoas através de uma tela de computador. A sociedade da informação, a sociedade do conhecimento, a sociedade do efêmero. Um modo frio de manter relações. Para excluir uma pessoa da sua vida, basta o unfollow ou o block.
Acho que me adaptei ao moderno modo de vida. Camuflo sentimentos. Digo que estou bem, quando às vezes precisava dizer que não. Finjo que não há um problema me afligindo se me perguntam se há alguma novidade. A única coisa que não faço é embarcar no ‘não é com você, é comigo’. Sim, é com você e eu faço questão de te contar isso, mas pessoalmente. De resto, camuflo sentimentos.
Descobri, recentemente, após uma longa conversa com uns amigos, que demonstro ser forte aos olhos dos outros. Sempre tenho uma resposta pronta na ponta da língua. Se surge algum problema, eu dou um jeito de resolver. Não como uma forma de varrer para debaixo do tapete, mas como uma forma positiva de encontrar uma saída, uma resolução. “Relaxa, vai dar tudo certo”, eu costumo dizer, mas até quando vai esse otimismo? Um dia ele cai, assim como eu. Temo que o dia em que eu cair, seja o dia em que eu menos precise de alguém ao meu lado para me dizer “relaxa, vai dar tudo certo”. No dia em que eu cair, temo que seja, talvez, para nunca mais levantar.

Quem tem qualquer tipo de fobia vai entender o que tenho a dizer. A minha fobia parece estranha para quem não a tem, mas qual fobia não ...


Quem tem qualquer tipo de fobia vai entender o que tenho a dizer. A minha fobia parece estranha para quem não a tem, mas qual fobia não é estranha aos olhos de quem não possui? A coulrofobia, para mim, por exemplo, é bem estranha. E muitos dos meus amigos sofrem por ela. É o medo de palhaços. E há quem tenha ablutofobia, um verdadeiro Cascão: aquele que tem medo de tomar banho. Acrofobia é o popular medo de altura, do qual também sofro em um grau menor. Aquele que tem medo de espaços pequenos e lugares fechados é o claustrofóbico. Tem gente que tem medo de amar: agapefobia. E ultimamente tenho compreendido bastante sobre esse medo, de forma bem pessoal. Algumas pessoas possuem medo de atravessar a rua. Elas possuem dromofobia. Até quem tem medo de beber está na lista: dipsofobia. Existe até algo denominado como estupofobia. Acredite ou não, este é o medo de pessoas estúpidas.
Desde criança eu tenho uma filosofia de vida: enfrentar meus medos. Sempre tive acrofobia, o medo de altura, então eu subia em árvores, escalava muros e andava sobre o telhado. Nunca havia visto uma cobra de perto, não sabia se eu tinha medo ou não, mas imaginava como seria quando eu encontrasse pela primeira vez. Era apenas uma cobra pequena, mas não tive dó de pisotear o animal. Esmaguei-lhe a cabeça com total indiferença. Trinta segundos depois estava tremendo só pelo fato de tê-lo feito sem pensar nas consequências. Então eu tive certeza sobre meu medo de cobras, a ofidiofobia. Tenho também monofobia, o medo de ficar só. Vez ou outra afasto propositalmente as pessoas para um momento só meu. Vivo constantemente em um tratamento de choque.
O meu maior medo é pouco conhecido e geralmente ignorado até mesmo por quem o possui. Eu tenho latrofobia: o medo de ir ao médico. E este é o medo no qual me recuso a enfrentar. Prefiro ficar doente. Junto a esse medo, alia-se meu medo de tomar medicamentos e realizar exames. Junto a esse medo, alia-se, também, a aicmofobia: medo de agulhas. Sou capaz de desmaiar só em ver uma agulha vindo em minha direção. Espera, acho que foi justamente isso que me ocorreu na última consulta. E podem rir, mas desmaiei também quando a cardiologista me apareceu com o aparelho medidor de pressão. Era apenas um medidor de pressão, mas foi justamente aquele aparelho que fez acelerar os batimentos do meu coração. Empalideci, tremi, suei frio e desmaiei. Sim, meus caros, caí na mesa do consultório com receio de um simples aparelho medidor de pressão.
Eu não planejei jamais entrar em tratamento de choque para tentar curar esse meu pior medo. Eu entrei em tratamento de choque por livre e espontânea pressão. Passei dois dias sob ‘observações médicas’, respirando com ajuda de aparelhos. As pessoas vestidas de branco eram, para mim, assombrações, fantasmas. Hoje tenho certeza que meu pânico seria menor se fossem realmente fantasmas. Quer dizer... fantasmas não existem. São ilusões que criamos. E mesmo que eles existissem, nada de mal poderiam fazer além de assustar, certo? Já os médicos e enfermeiros... bem... tive a sorte de topar com bons profissionais, mas aquelas agulhas em suas mãos, os remédios com nomes impronunciáveis e a terrível frase “os exames foram inconclusivos”. Será que essa frase cai na prova final, na faculdade de medicina? Incrível como elas são tão bem pronunciadas pelos meus fantasmas de estetoscópio!
Nem todos os tratamentos de choque são eficientes. Se deixarmos um claustrofóbico preso no elevador, ele não se curará do medo. Pelo contrário. Entrará em pânico e dificilmente desejará estar novamente em um elevador. Vai preferir subir os 15 andares de escada. Se um coulrofóbico for trancado sozinho com um cara vestido de palhaço, você não o encontrará jogando cartas com o sujeito, ao voltar. Ele estará chorando, em pânico, encolhido no canto da sala, de olhos fechados, desejando abri-los e não mais o encontrar lá. Imagine se um acrofóbico pega um avião e, durante a viagem, surgem alguns problemas nos motores e ele tenha que colocar o paraquedas e pular? Isso não aconteceria tão fácil. Ele poderia até pular, mas jamais voltaria a subir em um avião. O meu tratamento de choque também não deu certo. Apenas aumentou meu medo. Deixou-o mais agudo, mais forte.
Em relação aos meus outros medos, quanto mais eu os enfrento, mais eu tenho vontade de encará-los. Esse não. O máximo que eu faço é assistir aos filmes e seriados sobre o assunto (House é um de meus seriados preferidos). Esse é o tipo de medo de me açoita, me deixa com a sensação de falta de ar (literalmente), acelera os batimentos do meu coração (literalmente), me faz suar frio (literalmente), me faz tremer dos pés à cabeça (literalmente)... vocês já entenderam! Esse é o medo que me deixa em pânico.