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Imagem: Bruna Sousa - Cibratel I, Itanhaém - 05/04/13 Você lembra o cenário do seu primeiro beijo? Consegue recordar o cheiro e o aspe...

Imagem: Bruna Sousa - Cibratel I, Itanhaém - 05/04/13

Você lembra o cenário do seu primeiro beijo? Consegue recordar o cheiro e o aspecto do ambiente? Consegue identificar se era primavera ou verão, se era outono ou inverno, se havia mais alguém ao redor? Foi em local fechado ou aberto? O momento foi banhado pelo sol ou pela lua? Ou será que estava chovendo? O meu primeiro beijo foi numa rua. Uma alameda larga. As casas eram de cumeeira, um aspecto característico do bairro. Muros e portões baixos, jardins frontais e garagens abertas e, no mínimo, duas árvores em cada propriedade. Essa rua ficava no bairro vizinho ao meu. Eu costumava passar por lá todos os dias, depois do colégio, na volta para casa.
Aquela rua foi palco de muitas peripécias da minha infância e descobertas da minha adolescência. Não apenas o meu primeiro beijo, mas o segundo, também. Naquela mesma rua, me apaixonei por um garoto e seu quarto dos sonhos. Naquela rua, também, levei o meu primeiro grande tombo de bicicleta. Bati a cabeça bem forte e perdi a consciência por alguns segundos. Também naquela rua tive a minha primeira briga com meu namorado. Fui assaltada, pela primeira vez, naquela rua. A primeira vez que peguei o carro para dirigir, também foi naquela rua. Meu primeiro choque com uma árvore aconteceu semanas depois, no mesmo lugar.
A alameda me viu crescer. Testemunhou muitos dos melhores e inesquecíveis momentos da minha vida. Sempre que eu estava triste e não queria ver ninguém, eu gostava de caminhar. A rua é paralela à praia. Eu ia pela areia e voltava pela alameda. Caminhava ouvindo música. A maioria, canções folkBlackmore’s Night, The Corrs, KT Tunsdall, Bruce Springsteen, Neil Young, Janis Joplin, The Mamas and the Papas, Mumford and Sons e Bod DylanSempre pareceu que eles cantavam as canções certas, no momento certo. O lugar certo era aquela rua. Inesquecível rua, que me ensinou a apreciar o folk rock, me incentivou a analisar cada nota de um acordeão, ou da guitarra, do violão, banjo... As músicas me acalmavam e, somadas ao lugar, eu me sentia, verdadeiramente, feliz.
Ainda sinto o cheiro dela. Cheiro de verde, de árvores, de bolo de aipim da tia da casa rosada, do café fresquinho do Seu Chico. Ainda sinto no rosto a brisa da rua, o barulho das folhas das árvores se balançando e os coqueiros do jardim principal chacoalhando seus longos galhos. Passei quatro anos longe daquela rua. Voltei para a minha pequena cidade, voltei para o meu bairro tranquilo, voltei a dar caminhadas vespertinas pela praia e passei por aquela rua. Caminhei com as mãos no bolso, pensando na vida e ouvindo  Streets of Philadelphia, como antigamente...

Ela apoiava a cabeça nos braços fortes do seu primo. Acostumada a receber seu carinho desde a infância, não tinha receio em se apro...



Ela apoiava a cabeça nos braços fortes do seu primo. Acostumada a receber seu carinho desde a infância, não tinha receio em se aproximar. Fechou os olhos por um longo instante e sentiu o perfume masculino misturar-se ao seu. Com o vento entrando pela janela, percebeu um calafrio arrepiar sua pele. O corpo quente do rapaz parecia querer aquecer o corpo da menina. Os braços dele, que antes apoiavam apenas a cabeça da moça, agora a envolvia em um confortável cobertor humano.

Ele cheirava seu cabelo e beijava sua testa. Ela quis retribuir o carinho com um beijo no rosto e levantou a cabeça, até que seus lábios ficaram a poucos centímetros dos dele e seu nariz gelado tocou a ponta do nariz do rapaz. Olhos nos olhos e aos poucos suas silhuetas estavam se encaixando. Sem mais querer frear o desejo, os dois jovens se entregaram em um profundo e apaixonado beijo.


A janela ainda estava aberta, como que se quisesse que a lua assistisse a tudo. O calor do corpo dele já havia invadido todas as partes do corpo dela. Sussurros intermináveis replicavam o prazer daqueles dois jovens. Foi uma longa noite de amor.

Na manhã seguinte, ainda deitados no sofá, com apenas os lençóis cobrindo as partes íntimas dos seus corpos, os dois recente amantes olharam-se confusos e incrédulos com as lembranças da última noite. Deixaram de ser os amigos de infância para serem íntimos na cama. A luz do sol começava a invadir o interior da sala e logo a moça levantou-se, ainda assustada, para o seu banho matinal. "Sorte que ninguém nos viu", pensou ela. Todos na casa ainda dormiam nos andares superiores. 


Não falou mais sobre isso. Nem com ele, nem com qualquer outra pessoa. Guardou as lembranças daquela noite para si e assim tentou fazer parecer que nunca aconteceu, apesar de ter gostado bastante. Ele também evitava olhar para ela, como se temesse qualquer sinal de recaída. Afinal de contas, eram primos. Que diriam seus pais e seus tios? E quanto aos outros primos, achariam estranho?


Outra noite inesperada aconteceu. Ela chegou em casa, após retornar de breve viagem e encontrou um bilhete: "Estamos em Brasília. Voltamos no domingo à noite". Deixou o bilhete na mesa, tomou banho e foi se deitar. No início da madrugada ouviu barulhos à porta. Ele não havia ido viajar. Se dirigiu ao seu quarto e não deixou de reparar que ela estava no quarto dela. Bateu à porta, perguntou se ela precisava de algo, deu o habitual beijo na testa e voltou para seu quarto, mas não conseguiu dormir. Passou um tempo pensando em seu perfume, seu gosto, seu beijo. Ele a desejava. E ela também. Olhava impaciente para o relógio e a hora parecia não querer passar. Se levantou, foi ao andar de baixo, tomou água e sentou no sofá. Poucos minutos depois ele apareceu e assim, como se tivessem combinado um encontro, se entregaram. 


Não era romance, nem paixão, nem namoro, nem aventura. Era casual. Entre uma semana e outra, na hora do almoço ou de madrugada, na cama ou no sofá, no chuveiro ou no carro... eles não tinham ciúmes dela. Ela não se importava com os vários encontros dele. Sem combinar nada eles simplesmente se encontravam e se deleitavam em infinito prazer, mas o prazer, aos poucos, foi esfriando. Ela começou a inventar desculpas para não encontrá-lo. "Estou com dor de cabeça", "Trabalhei o dia todo, quero descansar", "Estou naqueles dias", "Preciso acordar cedo, amanhã".


- É só sexo, não é? - perguntou ele, após uma das raras noites que eles se encontraram. 
- Sim. Apenas sexo. Nada mais.
- Ok. - o silêncio durou por uns dez minutos - Tem uma música que me faz lembrar você. Ouça, quando puder.

Ele deixou o computador ligado com a música no Media Player e saiu: Somebody That I Used To Know. Essa foi sua maneira de dizer que, enquanto ela vivia a ilusão de um sexo casual, ele criava expectativas de um romance. Ela desligou o computador, pegou seus lençóis e alugou sua própria casa. Essa foi sua maneira de dizer que, enquanto ele vivia a ilusão de um romance, ela criava expectativas de apenas mais uma noite de sexo.






Rua Augusta, 12/06/13 Nunca me importei com o fato de passar o Dia dos Namorados solteira. Pelo contrário, achava até divertido. Tanto que c...

Rua Augusta, 12/06/13

Nunca me importei com o fato de passar o Dia dos Namorados solteira. Pelo contrário, achava até divertido. Tanto que comecei uma tradição que parece clichê, mas é algo que faço com carinho: Noite dos Solteiros. Meus amigos e eu nos reunimos na Paulista, contando histórias, cantando, conversando, observando os enamorados da noite e analisando os solitários. Nós, ali juntos, estamos longe de sermos solitários na fria noite do Dia dos Namorados.
Corações aquecidos em pura sintonia, temos o prazer em nos encontrarmos para deleitarmos de tal deliciosa amizade. No primeiro ano, o encontro deu-se por mero acaso. Sem ao menos lembrar a importância da data, combinei com mais três amigos uma noite do cinema. Doce e pura ilusão. Casais encheram as salas e as filas das bilheterias. Sem roteiro nem rumo, decidimos tomar milk-shake no Bobs e passear pela Paulista.
A segunda Noite dos Solteiros também foi fruto de um acaso. Meu amigo e eu trabalhamos no domingo dos Namorados até às 17h. Convidamos duas amigas e decidimos jantar em algum lugar da Paulista. Não lembrávamos que estávamos em pleno Dia dos Namorados e os restaurantes encontravam-se  lotados. Conseguimos nosso lugar ao sol na praça de alimentação de um shopping da importante avenida.
A terceira edição da Noite dos Solteiros aconteceu numa terça-feira. Encontrei três amigos na Paulista. Após prestigiarmos um velho conhecido no lançamento de seu livro, seguimos para nossa caminhada na avenida. Abraçados, cada um com seu par, comemos no Mc Donalds. Cenas ainda hoje guardadas em minha memória com todos os detalhes.
A quarta e mais recente noite aconteceu sem a tradicional caminhada. Novatos entraram. Velhos companheiros não puderam: já não fazem mais parte do time dos solteiros. Comemos no Mc e, ainda ocupando a mesa da grande rede de fast food, comemos brigadeiro enquanto ouvíamos Adele. Eu sei... a cena pode parecer um pouco deprê, mas vos garanto que estava divertido. Já que estamos inovando, resolvemos ir a um bar da Baixo Augusta e pedimos cerveja.

Um Cupido quase me acertou, mas eu consegui desviar. Duas moças, vestidas adequadamente para entregar os Correios do Amor, cercaram nossa mesa. Entregou-nos corações rosa e instruiu-nos a escrever algo que gostaríamos que realizasse e que ficasse marcado em nossos corações. Ao entregar um dos corações para a amiga ao meu lado, quase levei uma cotovelada da moça. A jovem e simpática Cupida permaneceu conosco por um tempo, conversando. Escrevemos em nossos corações e, durante esse período, confesso ter viajado em pensamentos. Lembrei dos últimos anos, de todas as boas noites que passei com meus amigos, comemorando a solteirice, de todas as cenas engraçadas, os micos, as filas nos caixas, os cinemas lotados de corações apaixonados, os restaurantes cheios de enamorados e o friozinho que pede aquele cobertor de orelha nessa noite tão especial. Essa noite eu senti falta de um alguém ao meu lado. Só essa noite...

Era apenas mais uma, dentre tantos novatos. Um rosto que não imaginei que ficaria gravado. Amigos em comum. Músicas em comum. Filmes em comu...


Era apenas mais uma, dentre tantos novatos. Um rosto que não imaginei que ficaria gravado. Amigos em comum. Músicas em comum. Filmes em comum. Séries em comum. Profissão em comum. Faculdade em comum. Não sei dizer, ao certo, quando a amizade se firmou, mas sem dúvida alguma afirmo que hoje é tão forte que não há como explicar.
Acho que ela foi a única pessoa com quem não perdi contato, por certo tempo. Não havia maneira. Conversar com ela sempre me faz bem. Mesmo que seja uma conversa superficial do tipo “Oi, Sua Linda! Ouvi Lionhearte lembrei de você”.
Ela tem um poder de dizer com o olhar tudo o que eu desejo ouvir. E isso não parece tarefa fácil. Ela tem o dom de perguntar como estou sempre que preciso de alguém que demonstre que se preocupa comigo. Ela sabe me aconselhar de um jeito correto e sincero sem destruir meus planos. Ela entende a maneira como eu digo que estou bem. Às vezes posso não estar, mas ela sabe disso. Ela tem um humor característico e marcante que me provoca confortável carisma e felicidade. E seus abraços são dos mais sinceros que já recebi.
Tem pessoas que surgem em nossas vidas assim, sem avisar, sem hora marcada e sem pedir licença. Às vezes você deixa essa pessoa entrar, ainda um pouco receosa do que pode acontecer, e às vezes você fecha a porta da sua vida sem nem ao menos espiar pelo olho mágico para checar se não vale a pena abrir a porta ao menos para uma conversa durante o chá da tarde. Com ela foi diferente. Acho que se mesmo que ela não tivesse surgido sem avisar, sem marcar hora e sem pedir licença, eu teria espiado pela janela, teria deixado a porta aberta e a teria convidado a entrar, com a maior expectativa sobre o chá da tarde.
  Eu não estava na janela, nem espiei pelo olho mágico, mas ela apareceu. Nem precisou bater à porta. Eu parecia já ter sentido sua presença e estava ali, caminhando ao seu encontro. Foi um feliz encontro. Um ótimo bate-papo durante o chá da tarde. Ou melhor, durante o frappuccinoda Starbucks.
Um ano e meio depois de trocar as primeiras palavras com essa tão bela e singela moça, encontro em mim uma paz tamanha por saber que tenho ao lado alguém tão especial para compartilhar momentos da minha vida.
Não queria entrar aqui em um clichê, mas tenho que dizer que ela me faz um bem danado, que eu sou absolutamente sortuda por ter uma amiga tão especial. E para que vocês, amados leitores, compreendam o quão especial essa moça é em minha vida, eu lhes digo que não confio meus textos a ninguém, mas faço questão que ela leia até aqueles que eu não quero publicar. Permito até que ela palpite em meus artigos e crônicas e aceito cada argumento que ela utiliza para fazer-me mudar um parágrafo ou outro.

Essa moça, meus estimados leitores, é uma pessoa que enche-me de alegria e orgulho por ter personalidade forte tão admirável e ao mesmo tempo doce, em sua maneira única de ser. Essa moça de pele morena, olhos castanhos e sorriso bonito, a quem eu chamo carinhosamente de Fofa. 

Fotografia de Bruna Sousa               Gosto de pimenta. Aprecio a experiência exótica em morder e sentir o ardor agradável queimando por d...

Fotografia de Bruna Sousa

            Gosto de pimenta. Aprecio a experiência exótica em morder e sentir o ardor agradável queimando por dentro. Gosto de pimenta bem vermelha. Ardida. Pimenta com arroz branco. Pimenta na salada. Pimenta no molho da feijoada. Pimenta. Há uma em minha vida. A mais especial de todas. E ela é a dona dessa história.
            A primeira vez que a vi foi na lanchonete ao lado da faculdade, mas já nos conhecíamos pelo Twitter. Devidamente apresentadas, mantemos contato por meses. De conhecidas a grandes amigas. Ela se tornou parte indispensável e agradável em minha vida. Abraços, beijos, longos abraços, mais beijos... mordidas. Ela sempre deixava marcas em mim. E tal marcas fez com que todos suspeitassem que a linha da amizade estava ultrapassada para dar lugar a algum sentimento a mais.
            Engano de todos. Não vou mentir que, lá no comecinho, ainda pela rede social e depois, quando fomos apresentadas, cogitei tal possibilidade. Bem queria eu experimentar o sabor dessa pimenta. O exótico sabor dessa pimenta... forte, vermelha, mas cresceu a amizade. Uma linda e pura amizade que está cada vez mais bela e mais forte.
            Ela me mordia, sim. E eu gostava disso. Ela me abraçava, sim. E eu abraçava de volta. Ela me beijava, sim. E eu retribuía com o mesmo carinho. Meu dia terminava sempre bom, pois me acostumei com as maravilhosas visitas no fim do expediente. Ela sempre me pedia para ficar pelo menos mais cinco minutinhos... e acabávamos conversando durante todo o primeiro tempo de aula, sem perceber. O tempo passa, realmente, muito rápido, quando estamos em boa companhia.
E seus textos, apaixonantes, me cativaram logo de cara. Escreve bem. Muito bem. Às vezes, e muitas vezes, para falar a verdade, escreve exatamente o que eu sinto ou gostaria de dizer. Desabafos. Desabafos que compartilhamos mesmo sem dizer uma palavra uma à outra. Engraçado quando, naqueles dias em que eu sentia certa angústia no peito, acessava seu blog e lia o novo texto: encaixava certinho em meu momento. Ou então me sentia extremamente feliz e lá estava um post alegre. Temos uma estranha ligação que não consigo explicar, mas me faz feliz.
            Nunca me importei com o que os outros achavam sobre nossa relação. E acho que ela também não. Quanto mais falavam, mais graça eu encontrava nos comentários. Acho que, justamente o fato de todos comentarem a nosso respeito, tivemos cada vez mais certeza de que preservar essa amizade acima de qualquer outra coisa, era o melhor a se fazer. E preservamos. Cada dia mais forte e mais bonita. Ainda hoje ouço comentários do tipo: “acho que ela gosta de você” ou “tem certeza de que nunca rolou nada?”. E não me dou mais ao trabalho de responder negativamente. Apenas sorrio.

Podemos até passar duas ou três semanas sem contato, mas eu sempre me lembro dela e sei que ela também não se esquece de mim. E quando nos encontramos, continuamos com os beijos, abraços, ‘mais 5 minutinhos’ e muito amor. Obrigada por apimentar minha vida, Pepper <3 

No bar do China...             Eu a conheci numa mesa de bar. Com tantos amigos em comum, numa cidade tão pequena, seria quase impossível nu...

No bar do China...

            Eu a conheci numa mesa de bar. Com tantos amigos em comum, numa cidade tão pequena, seria quase impossível nunca nos encontrarmos em alguma mesa qualquer, ou, quem sabe, durante uma tarde de domingo na praia, ou talvez até na noite de carnaval, atrás do trio elétrico, com engraçadas fantasias. Poderíamos ter estudado juntas na escola ou em cursinho qualquer, ou poderíamos ter dividido o local de trabalho em determinado momento de nossas vidas, mas nos conhecemos numa mesa do bar do China, no meio da praça do centro da cidade. E esse detalhe torna tal história ainda mais interessante, pois não tínhamos nada em comum além dos amigos e do prazer em dividir uma cerveja gelada.
            Eu já conhecia boa parte da mesa e costumava parar para cumprimenta-los, sempre que passava por lá no sábado à noite. “Senta aí”, disseram. E sentei-me bem à frente da única pessoa para quem ainda não havia sido apresentada. Ela me cumprimentou e disse seu nome. Respondi ao cumprimento e disse o meu. Em poucos minutos, já estávamos rindo, com o restante da mesa, como se nos conhecêssemos há anos, por causa de uma aposta que resultou em algo inesperado. “Fui renegada”, disse ela, a respeito do castigo dado para quem perdesse a aposta.
Por um bom tempo, éramos apenas duas garotas que tinham amigos em comum e vez ou outra se encontravam na mesa da praça. Três anos depois de dividirmos a mesa pela primeira vez, ela anotou o número do meu celular e eu o dela. As primeiras mensagens trocadas consistiam em: “Vai sair hoje?”. Com o tempo evoluímos nossa conversa para “Oi, tudo bem?” e “Quais as novidades?”. Visitas no meio do expediente, desabafos e relatos dos nossos últimos dez anos.
Coincidência ou não, nossas vidas caminhavam de forma parecida. Se antes tínhamos os amigos em comum, de repente nos vimos tendo em comum a falta de amigos: por um tempo eu perdi meus melhores amigos e ela, os dela. Além disso, enfrentávamos outro problema bem parecido: nossas relações amorosas também haviam se perdido. Para aumentar um pouco nossa lista de itens em comum, compartilhávamos do mesmo sentimento de ‘cansei dessa cidade’.

Frases, pensamentos, conselhos e memórias... que partilhamos e compartilhamos. Ela se tornou uma parte bonita e importante da minha história. Se eu não caí, foi por causa dela, que estava lá para me segurar e me ajudar a levantar. Graças a ela me empenhei em escrever, a única coisa que me faz realmente bem. Foi uma grande terapia, para mim. Ela me aconselhou a rever os meus passos, a completar o que ficou inacabado em minha vida, a não desistir nunca do que me faz feliz. Basta passar uma tarde trocando mensagens com ela ou fazer uma breve visita, e já me sinto mais leve e alegre. E, apesar de todos os bolos que lhe dei, e imagino o quanto ela está moralmente obesa com isso, sei que esse carinho que sinto por ela é recíproco. Nunca serei capaz de lhe agradecer à altura por ser tão especial, mas ainda sim, humildemente, lhe agradeço por tudo, Broto... 

O Beija-flor Imagem: Google (editada) Ela tinha o poder de dominar o sentimento dos outros e conquistar a todos. Bastava adentrar ...


O Beija-flor
Imagem: Google (editada)

Ela tinha o poder de dominar o sentimento dos outros e conquistar a todos. Bastava adentrar à sala e logo sua presença fazia com que mais nada importasse. Se uma reunião de negócios estivesse acontecendo, os executivos deixariam de negociar. Se uma aula estivesse sendo dada, o professor não se importaria em sonhar com aquela aluna. Se um concerto estivesse sendo executado, os músicos deixariam os instrumentos no palco e correriam ao seu encontro, no meio da multidão. Ela chamava a atenção de todos. E ela chamava a minha atenção... em silêncio.
Lembro-me bem de quando a conheci: março de 2010. O dia, não sou capaz de especificar, mas sei que foi numa quinta-feira. Há fotos desse momento. Ainda hoje olho para elas e penso: uau, nesse época eu não imaginava o que poderia nos acontecer. E aconteceu tanta coisa... um ano depois de nos conhecermos.
Sua pele morena clara, seus olhos castanhos, escurecidos e extremamente redondos, cachos avermelhados e lábios convidativos, risonhos, vermelhos. Essa era a garota que, por muito tempo, era apenas a Jornalista dos meus sonhos. Essa era a garota que, com o tempo, chamei de Meu querido Beija-flor, uma alusão a um verso da música de Cazuza: “eu protegi teu nome por amor, em um codinome Beija-flor”. Antes que me perguntem, devo esclarecer: não, não era amor! Talvez eu possa tomar a liberdade, já que mestre Cazuza não está aqui para fornecer-me tal autorização, de modificar um pouco a letra e dizer que protegi seu nome por um carinho especial. Era isso que eu sentia por ela: um carinho especial e, acima de tudo, uma sede insaciável.
Pelo menos eu achava que era insaciável. Eu sonhava com ela, sim, mas jamais esperei que meu sonho se tornasse real. Tanto não esperava que, quando aconteceu, demorei-me muito para acordar. Ela me lançou vários sinais e eu nunca os apanhava. Hoje, olhando para trás, consigo enxergar perfeitamente cada um desses sinais, como aquela vez em que fomos assistir filme na casa de uma amiga em comum e, após o filme acabar, enquanto a dona da casa saía para fumar na varanda e as luzes continuavam apagadas, ela se aproximou de mim, o suficiente para que respirássemos o mesmo ar e  para que eu sentisse seu doce hálito, e eu, ao invés de encurtar ainda mais a distância de nossos lábios, me afastei. Mais do que isso, saí da sala e deixei-a sozinha. Não percebi, na hora, o que havia acontecido. Somente ao chegar em casa, a cena foi repassada em minha cabeça e então senti a palma da minha mão deixar uma marca vermelha em minha testa por alguns minutos. Como eu pude ser tão cego? Comecei a reparar que, desde o início daquele ano, ela me lançava sinais: no ponto de ônibus, nas mensagens, nas redes sociais, nas indiretas (e eram muitas), na faculdade...
Alguns dias depois, ela me contou, abertamente: “lembra quando eu disse que estava confusa em relação a três pessoas? A primeira era apenas uma paixonite, mas já passou. A segunda é comprometida e já esqueci. E a terceira é você...”. Envolvi-me com a jornalista. Entreguei-me àquela história. Nosso primeiro beijo foi numa tarde chuvosa. Passamos a manhã presos na biblioteca e, cansados de esperar uma trégua, decidimos sair mesmo embaixo de chuva. Estávamos já encharcados, mas nem nos importamos. Ríamos. Ríamos cada vez mais. Trocamos olhares entre um riso e outro, paramos de correr e, ali mesmo, no meio da rua, sob a chuva, nos beijamos. Sabem aquela cena de filme em que a câmera gira em torno do casal enquanto uma romântica música toca ao fundo? Foi nesse momento que essa cena aconteceu em minha vida. Quase posso ver-me abraçando-a, beijando-a, apaixonando-me.
Não foi preciso dizer nada, mas nós dois sabíamos que melhor seria se nosso romance permanecesse em silêncio. E foi então que o verso da canção de Cazuza entrou na história e ela deixou de ser a Jornalista dos meus sonhos para se tornar meu Beija-flor. Meu querido Beija-flor.
Porém, como um castigo dado por Cazuza, talvez por eu ter usado o verso de sua canção em minha história, logo a letra inteira, através de seus versos soltos, resolveu adentrar em minha vida: “Pra que mentir, fingir que perdoa? Tentar ficar amigos sem rancor. A emoção acabou. Que coincidência é o amor. A nossa música nunca mais tocou”. A emoção acabou... quando eu descobri que não apenas eu, mas outros dois a amavam em silêncio. E eram correspondidos por ela. Aqueles mesmos dois caras que ela falou no início, e que deixou bem claro que não havia mais nada. Ela enganou a nós três ao mesmo tempo e ainda esperava que ficássemos amigos sem rancor.
A raiva consumiu-me por completo. E mais uma vez eu parei para analisar os sinais. Como eu pude ser tão cego? Ela praticamente saía com a faculdade inteira! Todas as vezes que eu a encontrava nos corredores, ficava imaginando em quem ela daria o próximo bote. Ela usava, em todos nós, a mesma artimanha: o olhar amigo, o sorriso espontâneo, o abraço carinhoso, as palavras de apoio... “Pra que usar de tanta educação pra desfilar terceiras intenções, desperdiçando meu mel, devagarzinho, flor em flor? Entre os meus inimigos, Beija-flor”.
Classifiquei-a como Romance Inacabado, mas não de uma forma que deixe brecha a uma possível ‘reconciliação’, mas como uma maneira de especificar que jamais me esquecerei dessa história e que, de certa forma, ela continua viva em meu coração, afinal, uma coisa positiva saiu dessa história: graças ao malvado Beija-flor, ganhei os melhores amigos que eu poderia ter. Iludidos por um mesmo sonho, criamos uma eterna e fiel relação em que temos a certeza de que nada, nesse mundo, poderá abalar. E por tal motivo, tal presente fornecido, não sinto mais raiva do Beija-flor. Pelo contrário: sinto um carinho ainda mais puro! Sim... eu te disse: Ela tem o poder de dominar o sentimento dos outros e conquistar a todos.
***

“Não responda nunca, meu amor, pra qualquer um na rua, beija-flor. Que só eu que podia, dentro da tua orelha fria, dizer segredos de liquidificador. Você sonhava acordada, um jeito de não sentir dor, prendia o choro e aguava o bom do amor”

A moça da internet             O que você acha sobre tudo isso? Provavelmente já leu, nesse mesmo blog, sobre outros romances que eu...


A moça da internet

            O que você acha sobre tudo isso? Provavelmente já leu, nesse mesmo blog, sobre outros romances que eu tive. Se me conhece há mais tempo, certamente já leu também outros tantos, em outros blogs meus. Provavelmente você deve estar pensando: “Essa garota não para quieta, né?”. Sim, eu tive vários relacionamentos, mas poucos sérios. Tive, também, aquelas aventuras passageiras, aqueles flertes constantes e até mesmo aquelas pegadas em baladas. Tive até um romance pela internet! O texto dessa semana vai contar a história desse último: o amor virtual.
            “Eu tenho uma amiga que também escreve em um blog e já publicou textos em um livro. Você vai gostar de conhecê-la”, dizia minha amiga que, a cada dia, apresentava uma nova propaganda da garota: “Você realmente iria gostar de conhecer a minha amiga. Ela gosta das mesmas bandas que você”, ou então “Ah, a minha amiga também adorou esse filme e tenho certeza de que vocês se dariam bem conversando sobre isso”. Acabei cedendo às propagandas e pedi o MSN da amiga da minha amiga. “Ouvi falar muito bem de você”, eu disse, após adicioná-la em minha rede social e nos apresentarmos ‘formalmente’.
Já faz algum tempo, então não me lembro, ao certo, sobre o que conversamos, mas lembro-me de que foi uma tarde prazerosamente encantadora. Minha amiga tinha razão: eu realmente gostei de ‘conhecê-la’. E então veio a pergunta: “Onde você mora?” - antes de escrever a resposta aqui, deixe-me contar uma curiosidade sobre minha vida: quando eu era criança, fiz uma viagem inesquecível, de carro, até o nordeste brasileiro. Passei por cidades maravilhosas e adorei conhecer cada diferente cantinho do Brasil, mas a cidade que mais ficou marcada para mim, e eis essa uma longa história que não cabe contá-la aqui, foi Vitória da Conquista, na Bahia. Cresci com um carinho enorme pela cidade e o desejo de, um dia, poder revê-la – “Vitória da Conquista”, respondeu ela.
Em poucos meses ela se tornou uma grande amiga, confidente. De repente eu me vi compartilhando com ela detalhes da minha vida que eu não dividia com mais ninguém. Quando dei por mim, escrevia textos sobre ela e pensava o tempo todo onde ela estaria e o que estaria fazendo. Eu frequentava baladas, ficava com outras pessoas, mas sempre contava a ela, como se lhe devesse explicações da minha conduta. De certa forma, ela fazia o mesmo. Ela, escorpiana, sentia ciúmes, mas procurava não demonstrar. Eu, canceriana, procurava sempre causar os ciúmes nela.
Declarações, promessas, sonhos, juras... tudo isso nós compartilhamos, tudo isso nós construímos... à distância. Ela, sem dúvida, era a garota perfeita para mim. A garota dos meus sonhos. Criamos um tipo de relacionamento aberto à distância. E, madrugadas adentro, fechamos os olhos, por diversas vezes, desejando que nossos corações encurtassem os longos quilômetros que nos separavam. Ela era minha flor predileta: Petúnia. 
Eu sou a Tulipa amarela: a flor dos amores impossíveis.
Uma gota de lucidez caiu por sobre nossas cabeças e então fomos despertadas deste louco, porém lindo sonho: minha Petúnia por outro alguém se apaixonou. Alguém de carne e osso, para ela, alguém ao seu alcance, alguém que a merece mais que eu. Há três anos ela vive essa paixão. E, de certa forma, eu segui seu exemplo. Também me apaixonei por alguém de carne e osso, alguém mais perto de mim. E esse novo romance me fez entender que o que sinto pela Petúnia pode não ser paixão, como eu imaginava, mas um profundo sentimento de amor, em seu sentido mais fraternal: ela estará sempre em meu coração. 

O namorado platônico Imagem: Google Por um tempo, ele era apenas o garoto feliz do outro lado da sala de aula. Não era magro, mas ...


O namorado platônico
Imagem: Google

Por um tempo, ele era apenas o garoto feliz do outro lado da sala de aula. Não era magro, mas também não era gordo. Não era alto e nem tão baixo. Cabelo curto e castanho escuro, escondido embaixo de um boné preto com o logotipo branco e vermelho. Sempre com camiseta preta, calça jeans malhada, relógio, mochila preta com listra vermelha, tênis Nike preto ou azul marinho. Usava aparelho nos dentes. Sorria de maneira sincera, mas com certa timidez no olhar. Não era o cara mais bonito da classe, mas me chamou a atenção.
Sempre gostei de desafios. Ouvir alguém dizer “você nunca vai conseguir isso” me forçava a testar meus limites e superar as expectativas. E era isso que minhas amigas diziam, quando eu contei que estava interessada no garoto tímido do outro lado da sala. “Você é do tipo que fala com todo mundo e ele é do tipo que não fala com ninguém. Nunca vai dar certo”, diziam. E eu concordava, em certo sentido, mas boa parte de mim queria conhecer melhor aquele cara, queria desvendar seus misteriosos olhos, queria sentir o sabor de seus lábios.
Demorou um tempo até trocarmos nosso “oi, tudo bem?”, mas após o primeiro contato, lembro-me de algumas conversas soltas, risadas, alguns “você fez o trabalho de português?”. Eu era a única da sala que se dava bem com a professora, e ele achava isso engraçado. Ele dizia que ela me amava e fazia isso parecer a coisa mais bizarra do mundo. Eu gostava da forma como ele sorria para mim. Estudamos juntos para as provas bimestrais e logo todos já nos olhavam com aquele sorriso de quem prevê um romance no ar.
Durante uma conversa no MSN, abrimos o jogo. “Gosto de você”, eu disse. “Gosto de você também”, respondeu ele. No colégio, andávamos de mãos dadas e participávamos de todas as conversas como um casal. “Festa no sábado? Ah, Bruna e eu estaremos livres. Podemos ir, sim. O que acha, amor?”. Ele fazia questão de me avisar sempre que saía com os amigos e nunca exigiu nada de mim e eu procurava sempre deixá-lo fazer parte da minha vida. Quando eu chegava em casa, depois da escola, mandava uma mensagem, à pedido dele, para avisar que estava bem, almoçava e dormia um pouco. Quando acordava, ele estava no MSN me esperando. Conversávamos a tarde inteira e parte da noite. Na hora de dormir, outra mensagem de ‘boa noite’. E assim era a nossa rotina. Aos sábados, após o curso de espanhol, ele passava de bicicleta em frente à minha casa, esperando que eu aparecesse na janela. Ele nunca tocava a campainha e sempre tentou fazer parecer que estava passando ali por mero acaso, pois tinha medo de me sufocar nessa relação. Relação essa que durou quase três anos... sem ao menos um único beijo lábios nos lábios.
Sempre que conversávamos sobre nossa relação, concordávamos que era especial demais para que nosso primeiro beijo fosse à porta da escola. E quando combinávamos algo para o final de semana, alguma coisa atrapalhava nossos planos. A verdade é que, no fundo, dominava o receio de que a magia de nossa relação acabasse com o primeiro beijo. Gostávamos daquela simplicidade e inocência. Gostávamos de ser ‘o casal mais fofo da escola’. Dois anos sem nenhum desentendimento.
Quando decidimos tornar as coisas mais sérias, assumir o namoro e, finalmente, dar nosso primeiro beijo, tudo saiu do lugar. Havia um trabalho em grupo para apresentar na aula e nós dois estávamos em equipes diferentes. Meu grupo, composto por cinco pessoas, começaria a fazer o trabalho na casa do meu melhor amigo, no sábado. Ninguém, além do dono da casa e eu, apareceu. Anoitecemos tentando fazer a quatro mãos um trabalho que exigia dez. Na semana seguinte, pouco falei com meu namorado platônico. Ele estava viajando e só voltaria em três dias. Na sexta, ele estava frio comigo e não respondeu minhas mensagens no final de semana, nem apareceu no MSN. Quando a segunda-feira chegou, ele me pediu para ser sincera e perguntou se houve alguma coisa entre meu amigo e eu, durante o sábado em que estivemos fazendo o trabalho. Respondi a verdade. Nunca houve nada.
Parecia que estava tudo bem, mas ele não escondia os ciúmes todas as vezes em que eu me aproximava do meu amigo. Nunca o vi agir assim. Ele não era ciumento. Intrigada com tudo aquilo, questionei sua atitude. Ele confessou que tinha ciúmes quando me via com aquele cara e disse que os boatos de que houvesse algo entre nós foi espalhado por ele mesmo: meu melhor amigo. Fiquei chocada com aquela história. Mais chocada ainda quando ele me disse que os boatos não se limitavam a apenas algumas trocas de beijos. Meu amigo havia contado, com detalhes, sobre como tivemos uma ‘noite prazerosa’. Aquilo não era verdade. Não poderia ser. Procurei meu amigo esperando que as coisas se esclarecessem e que tudo não passasse de um mero mal entendido. Ele negou ter espalhado qualquer boato. Meu erro foi acreditar nele.
Tudo acabou: as conversas, as risadas, as mãos dadas, as mensagens, as ligações, o MSN, os sábados de bicicleta em frente à minha casa... ele foi embora. Por três longos anos ele havia me excluído da minha vida. E até hoje não sei dizer se foi por ele ter acreditado nos boatos ou por eu ter acreditado no meu (ex) amigo ao invés dele. De qualquer forma, eu o traí. Traí sua confiança. Três anos depois e eu ainda procurava nos lábios de outros, o sorriso dele. Procurava nos olhares de outros o mistério do olhar dele. E durante esses três anos, nos encontramos, vez ou outra, pela cidade, mas ele sempre desviava o olhar e, se possível, até mesmo o caminho.
Eu havia me mudado para a capital há um ano, quando ele me procurou e voltamos a conversar, como antigamente. Nunca mencionamos sobre os boatos e nem o nome do imbecil que um dia chamei de amigo, mas ele perguntou se eu ainda sentia algo por ele. “Além de Anne Hathaway, você é a única pessoa com quem já sonhei em me casar. E nada mudou”, respondi, com um sorriso nos lábios, como quem faz uma brincadeira com fundo de verdade. E era verdade, mas na época eu estava enrolada em um relacionamento bastante complicado. Fiquei solteira, mas ele estava namorando outra pessoa. Então comecei a sair com outra. Quando estivemos solteiros numa mesma época, marcamos um encontro. Infelizmente não deu muito certo, pois como não nos víamos há meses, decidimos que cada um levaria um amigo. Minha amiga e o amigo dele se estranharam bastante e a noite terminou de forma cômica e trágica, ao mesmo tempo. Passamos mais um tempo sem contato e eu engrenei em outro relacionamento, mas, diferente dos demais, esse foi mais sério e, pela segunda vez, sonhei com casamento. Ele também estava com outra pessoa e aparentava uma felicidade tamanha. Fiquei feliz por ele. Agora eu não estou mais namorando. Ouvi dizer que ele também não.
Há algumas semanas fui visitar uma amiga e trocamos relatos de nossas vidas dos últimos dez anos. Contei a ela a história de meu namorado platônico e ela me falou que este era um romance inacabado e que eu deveria experimentar seu beijo. Com esse beijo, eu poderia finalizar a nossa história ou, finalmente, destravá-la. Somente com o beijo, eu saberei dizer se ele está apenas em minha mente, ou também em meu coração. A conversa com a minha amiga deu origem à minha ideia de escrever sobre meus romances inacabados, e, sem dúvida, este é o mais importante de todos, mas deu, também, origem a um importante objetivo em minha vida: beijá-lo.

Prometi que aquela seria a última dose. Vieram mais oito, depois disso. Florence and the Machine embalava a noite. O som alternativo da ba...


Prometi que aquela seria a última dose. Vieram mais oito, depois disso. Florence and the Machine embalava a noite. O som alternativo da banda me deixava ainda mais tonto. Cambaleei, totalmente embriagado, até o toalete, atravessando o salão pela pista de dança. Duas ou três moças tentaram me puxar. Alguns rapazes passaram a mão pelo meu corpo. Cheguei à porta sem bem me lembrar de como, exatamente, consegui me manter em pé. Passei o restante da noite deitado no sofá da boate. Acordei duas horas depois, ao som de Kuduro. Paguei a conta, saí à rua, vi o sol despontar além dos arranha-céus da capital e me deparei com a incerteza do meu rumo.
Atravessei o bairro, cheguei a outro, entrei no parque e adormeci. Sonhei com ela. Em seu vestido azul, ela sorria para mim, me chamava, me pedia para segui-la. Eu, bobo e apaixonado, assim como na vida real, fazia para agradá-la. Ela andava sem dizer palavra alguma, sem tomar rumo nenhum. Apenas caminhava sem parar, pois sabia que eu a seguia, mas então ela parou. Não olhou para trás, não fez gesto, não disse nada. Apenas parou e eu sabia que também deveria parar. Ela olhou por sobre os ombros. Havia uma corda ao meu lado. Entreguei-a. Ao me inclinar reparei que havia um abismo. Ela enrolou a corda no próprio pescoço e pulou.
Acordei com um chacoalhão do segurança do parque. Ainda um pouco tonto, não mais pela bebida e, sim, pelo sonho, voltei às ruas. Eu ainda tinha um pouco de dinheiro no bolso. Não era muito, mas o suficiente para pegar um ônibus até o litoral. Não tinha certeza se eu deveria ir, pois foi lá onde tudo aconteceu, mas talvez fosse minha única chance de afastar os fantasmas que me assombram há anos. Ou deixá-los ainda mais próximos de mim, a ponto de me levarem consigo.
Eu era o único sem bagagem, sem ao menos uma mochila. Apenas a roupa do corpo e a carteira. Sentei à janela. Cada árvore no caminho, cada túnel, cada lanchonete, cada posto de gasolina me fazia lembrar, com uma terrível dor no peito, a última viagem. Eu dirigia e ela sorria, contente com os planos para o feriado. Casaríamos em breve e ela dizia que deveríamos ter uma casa de praia e que levaríamos nossos filhos durante as férias. Senti uma lágrima escorrer quando essas últimas lembranças vieram à minha mente. Eu perdi a mulher que eu amava. Eu matei a mulher que eu amava.
Foi em nossa terceira noite na praia. Voltávamos embriagados de uma festa. Ela dirigia. Chegamos ao estacionamento do hotel e eu pedi para que déssemos mais uma volta pela cidade. Ela estava cansada, queria dormir.  Eu insisti e ela, enfim, aceitou. Insisti, também, para que eu dirigisse. Peguei o carro e saí em alta velocidade. No começo, ela achou divertido, mas logo o sorriso deu lugar ao medo. Ela parecia saber o que estava prestes a acontecer. Gritou, chorou, insistiu para que eu parasse e eu não dei ouvidos. Subi a estrada que levava para o alto de um morro. Mais uma vez ela esbravejou, implorou e então eu parei o carro. Ela desceu e disse, olhando por cima do ombro, que voltaria a pé para o hotel. Eu mandei que voltasse e ela negou. Furioso, arranquei o motor e, assim como no sonho, percebi que estava à beira do abismo. Era tarde demais. Eu havia jogado o carro contra ela, fazendo-a cair no morro e desaparecendo no mar. Eu matei a mulher que eu amava.
Lá estava eu, novamente, à beira do mesmo abismo. A culpa e a dor permaneciam em mim. Aumentavam com o tempo. Queimavam por dentro. A marca do pneu não estava mais lá, mas ainda pude vê-la, assim como vejo aquele vestido azul cair sobre as águas. Ela gostava quando a minha gravata combinava com a roupa dela. Olhei para o meu peito. Minha gravata azul. Sorri. Momento de dançarmos nossa última valsa. Minha hora de cair.

***
Acordei. Mais um pesadelo sem sentido dentre tantos que tive desde que acordei do sonho mais lindo: o sonho da vida real, aquele que eu destruí pelo simples fato de querer vive-lo para sempre. Vários rostos, várias histórias, mas sempre com um trágico fim. Ela sempre aparece em meus sonhos. E nem em sonhos podemos viver esse amor que eu cativo em silêncio nesse meu inquieto coração...